quarta-feira, 26 de junho de 2013

OS PROTESTOS NO SÉCULO 21, A PROPÓSITO DE UM ARTIGO DE ROGER COHEN DO NEW YORK TIMES

"Um padrão emergiu", afirma, Cohen. "De Sidi Bouzid, na Tunísia, onde um bate-boca sobre um carrinho de frutas desencadeou a Primavera Árabe, a Istambul, onde uma sublevação teve origem nos planos de construir um shopping num parque, essas erupções animadas por hashtags do Twitter têm traços em comum. Pequena faísca, grande conflagração; líder desorientado, movimento sem liderança; poder estatal verticalizado e rígido, protestos horizontais ágeis; autoridade severa, juventude endiabrada; força do Estado, flexibilidade do Facebook; repressões policiais, reagrupamentos ágeis; acusações de conspiração, respostas irônicas." A questão central agora é, na opinião de Cohen, com a qual compartilho, usando as palavras do professor Zeynep Tufekci, da Universidade da Carolina do Norte, "como se vai de um 'não' para um 'vão'?"

A palavra que poderia resumir todos os slogans dessas manifestações é "basta". Mas o problema é que "basta" não basta. Ou melhor são boas para protestar, mas não são boas o suficiente para propor, definir objetivos e - o mais importante - se organizar para alcançá-los. Não há lideranças. Wael Ghonim, um ex-executivo do Google, definiu bem esse vácuo, referindo-se a revolução egípcia: Nossa revolução é como a Wikipédia. Todos contribuem, mas você não sabe o nome de ninguém". 

A análise é correta. O que temos aqui, por exemplo, de verdade são uns e outros querendo se apropriar dos movimentos, mas de fato não lideram nada, ainda, pelo menos. O que temos são grupos (ver o MPL) ávidos por preencherem essa vazio (tem sindicato também começando a se mexer) mas não são capazes, nem lá nem cá, de apresentarem uma agenda capaz de atender a sede, as exigências de renovação, aqui e acolá.

A falta de lideranças claras e o caráter difuso das manifestações faz com que - independentemente do gatilho inicial - elas mudem de "agenda", embora algo mais genérico permeie o todo: aqui e em outras partes do mundo as pessoas estão dizendo as governanças que é preciso consultar a população quando decidem fazer isso ou aquilo. Que é preciso prestar contas dos seus atos. Que justiça social importa sim.

Cohen conclui o seu artigo usando uma expressão brasileira: "não vejo tudo isso terminado em pizza". Embora para que consigamos passar do "basta", do "não"para um "vamos", isso vá exigir "uma organização numa escala jamais vista. De Túnis a Istambul, do Cairo a São Paulo, alguma coisa está ocorrendo. O medo acabou. Isso já é', em sí, uma mudança do jogo". Concordo, integralmente.