segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

BIOGRAFIAS, DE NOVO, MAS INEVITÁVEL. O ASSUNTO NÃO ESTÁ MORTO.


Como uma onda, parece que a questão das biografias arrefeceu, mas não é verdade. Além disso, passada a fase de maior indignação, começo a ver – ainda que tímidas – algumas manifestações de desagravo aos cantores e compositores, nomeadamente a Caetano Veloso, Gil e Chico. Coitadinhos, fizeram tanto pela música popular brasileira. Também acho, fizeram muito e ganharam também um bom trocado. Isso não lhes dá, no entanto, primazia para se transformarem em censores e elementos sem responsabilidade social.

Vou me apropriar aqui de dois biógrafos, famosos, que por sinal não tem medo de serem biografados, um deles de esquerda e outros mais chegado ao show business, duas áreas em que os nossos artistas censores circulam muito à vontade, com exceção óbvia de Roberto Carlos.

Para Randall Sullivan, editor e colaborador da revista Rolling Stones, autor de Intocável, biografia de Michael Jackson, a censura prévia as biografias “é uma catástrofe. Não sairiam biografias reais, mas somente propaganda, obras de relações públicas”.  E continua: “é perigoso defender isso. Não se trata apenas de celebridades, mas também de personalidades públicas, líderes políticos. Eles vão dizer em suas biografias apenas o que quiserem. Sei que no Brasil vocês não tem nenhum Hitler, mas certamente têm políticos e líderes históricos que adorariam dizer somente o que quisessem em suas biografias. Para mim, se uma pessoa usufrui dos benefícios de ser uma figura pública, também tem de pagar o preço por isso. Ninguém pode ter as duas coisas ao mesmo tempo. Se voc6e se expõe aos holofotes, sabe que expõe também sua vida. Se não quer isso, não se exponha aos holofotes”.

Para Jon Lee Anderson, biógrafo de Che Guevara, a “censura a biografias aproxima o Brasil das ditaduras”. Os artistas brasileiros que “querem o privilégio e os lucros (sim, os lucros , acrescento eu) de ser uma celebridade sem a responsabilidade de ser esse personagem público... O governo proibir que se escreva sobre eles, para mim, é um mau caminho, porque isso pode se estender facilmente a qualquer figura pública. Logo será um político, um chefe de polícia, um banqueiro. E sabemos que em países como o Brasil há gente que se esconde atrás dos seus títulos que são corruptos, que são assassinos. Que lugares restringem o tipo de livros que se pode ler? Cuba, China, Mianmar, Rússia e Irã. Se alguém ocupa um espaço na vida pública, é direito do público saber o máximo sobre ele”.

Simples assim pessoal do Procure Saber.

Convém não deixar esse assunto morrer. Infelizmente essa turma está mexendo num vespeiro, num assunto que transcende as possíveis verdades inconvenientes de suas vidas particulares. A liberdade é mais importante que as possíveis estripulias sexuais de uns e outros ou a perna mecânica e sacos de dinheiro de uns e outros. O que está em jogo é muito mais importante que os casos das vidinhas particulares desses artistas, que com a sua miopia lançam lama sobre seus passados e querem nos emparelhar com o que existe de pior no mundo.


(trechos extraídos de entrevistas dadas, em datas diferentes, pelos biógrafos ao jornal O Estado de São Paulo)