sexta-feira, 30 de maio de 2014

O USO DO MEDO NA PROPAGANDA ELEITORAL


Nas últimas inserções partidárias o PT usou, há de se reconhecer com muita competência, alguns dos recursos que serão utilizados, com toda certeza, no decorrer da próxima campanha, baseados nas mais recentes descobertas da neurociência de que o eleitor em geral vota muito mais com a emoção do que com a razão.
A peça, que ameaça os eleitores com a volta de uma hipotética situação de caos, tristeza e extrema pobreza, “uma volta atrás”, ao passado, quando os adversários do PT estavam no poder, verdadeira ou não, surtiu seus efeitos e incomodou a oposição, que – ciente dos possíveis prejuízos - buscou acolhida nos tribunais para que fosse retirada do ar.

O medo é a emoção primária fundamental, a mais importante de nossa vida, capaz de influenciar com muita força as informações de quem as recebe. A afirmação, baseada também em estudos da neurociência, é do sociólogo espanhol Manuel Castells – autor entre outros de A Sociedade em Rede e Redes de Indignação e Esperança – Movimentos Sociais na Era da Internet
 
John Mearsheimer, professor de Ciência Política da Universidade de Chicago, famoso pelo seu livro Why Leaders Lie: The Thth About Lying in Internacional Politics (Por que os líderes mentem: a verdade sobre a mentira na política internacional), desenvolve uma teoria sobre “mentiras estratégicas”, principalmente as que se utilizam do chamado “bem da pátria”  usadas segundo ele, rotineiramente pelos políticos, principalmente, como é óbvio, em questões de ameaças a segurança interna e em conflitos com outros países.  Também, na maioria desses casos, o medo entra como um elemento importante para influenciar decisões. Pode ser o terrorismo, a “ameaça externa”, a possibilidade de invasão por tropas estrangeiras e até mesmo questões relativas ao comércio entre as nações. O leque é amplo, mas o medo, o uso do medo, está presente, com muita força na formulação das políticas internacionais.
Agora, é importante salientar que o uso do medo não produz resultados automáticos. Não basta acenas com ele para conseguir sucesso nos objetivos políticos. É preciso que o temor esteja efetivamente presente – e em graus razoáveis – no imaginário da população para que possa ser devidamente explorado e dê certo.
Na campanha de Serra, em 2002, o PSDB tentou usar esse recurso, mas não funcionou. A peça, com a atriz Regina Duarte, advertia o Brasil sobre o risco de se perder a estabilidade conquistada e “ir tudo para a lata do lixo”, inclusive com a volta da “inflação desenfreada”, caso Lula fosse eleito, já que ele não era a mesma pessoa “de antigamente”, mas um outro personagem que “mudou tudo que dizia anteriormente”. Não colou. Não colou porque o medo, tal como foi expresso, não estava tão arraigado no imaginário das pessoas. Pelo menos não da forma como foi colocado. No imaginário a inflação estava devidamente controlada e nenhuma ameaça nesse sentido parecia crível e, no final das contas, Lula não metia tanto medo e soube contornar com eficiência a ameaça vendendo a “esperança”.
Hoje as posições se inverteram, mas pelo menos até agora, o PT tem sido bem eficiente no uso da fórmula de “vender o medo”, enquanto o PSDB e a oposição em geral vão ter que se esforçarem mais para vender a “esperança” de dias melhores. Resta saber se no imaginário popular as cenas apresentadas são realmente capazes de remeter aos governos anteriores e aos atuais postulantes do PSDB. De qualquer forma, ninguém, em sã consciência gostaria de vivenciar o cenário apresentado. Relacionado ou não ao PSDB são medos presentes de forma sólida e inequívoca na imaginação das pessoas. Vale lembrar ainda que o eventual sucesso da fórmula usada pelo PT leva em conta a falta de memória, o esquecimento, relacionado às conquistas do período tucano. O PSDB não foi hábil em mantê-las vivas, principalmente a implantação do Plano Real e o controle do processo inflacionário, que antes chegava a casa do hoje inimaginável 80 por cento ao mês!
Quem trabalha com o medo tem que levar também em conta as chamadas “produções simbólicas”, onde o objetivo é captar o que está no imaginário da população, não importa aí se reais, verdadeiras ou falsas, embora tenham que ter um mínimo de relevância. A “produção simbólica” é, grosso modo, a representação, a transformação em símbolos de forte impacto emocional, dos medos presentes no imaginário. Não basta “falar”, por exemplo do desemprego, um medo sempre presente em momentos de instabilidade econômica. É preciso retrata-lo com emoção, com dramaticidade, usando todas as simbologias disponíveis para retratar esse momento de angústia e desespero que afligem os desempregados. É aí onde está, também, a eficiência da técnica.
Em campanhas passadas esses recursos já foram utilizados, de uma forma ou de outra, ainda que toscamente, mas vai ser nas próximas campanhas que veremos isso, tratado de forma mais científica, com muito foco nas descobertas e nas conquistas da neurociência. Já se sabe, inclusive, de candidatos com muito poder econômico que estão usando tecnologia de ponta, nos grupos de pesquisas qualitativas, destinadas a analisar em profundidade as emoções, positivas e negativas, que despertam com suas (e dos adversários) peças de propaganda, discursos etc. Vamos ver, em breve os resultados. E, com certeza, peças, muitas peças, trabalhando o medo como forma de atrair eleitores.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

SIM. EU VOU TORCER PELA SELEÇÃO

Alguns conhecidos torceram o nariz. Como assim? Vou torcer, primeiro porque gosto de futebol e de esportes em geral e torço por qualquer atleta ou equipe nacional. Vibro com a seleção de vôlei, de basquete, torço pelos nossos atletas da natação e vibro até por uma tenista recém surgida, cujo nome nem sei, mas que está fazendo sucesso nesse esporte dito “elitista”. Torço porque acho que uma coisa não tem a ver com a outra, por mais esforços que governantes de plantão e demais desavisados façam para mistura-las.

Torço porque me lembro da década de 70, quando lutávamos contra a ditadura e parecia impossível torcer pela seleção sem que isso significasse apoiar o regime. Na época governo e seleção pareciam irmãos siameses, com o então presidente de plantão, um amante do futebol, intrometendo-se inclusive na escalação, embora sem sucesso.

Lembro das intermináveis reuniões onde esse assunto era discutido à exaustão e saíamos todos decididos a, quando muito, assistir silenciosos os jogos da “seleção canarinho”, jamais entoar o “Pra Frente Brasil, Brasil” e deixar as nossas preferência recaírem sobre as brancas canelas dos países socialistas ou, na pior das hipóteses, democratas. Qual nada.
Diante da TV, quando possível, ou pelo menos de ouvido colado no radinho, quem resistia a magia de craques como Gerson, Pelé, Tostão, Jairzinho e Rivelino, para ficar só em alguns exemplos? Gritos sufocados ou berros que equivaliam ao lixe-se o centralismo democrático, queríamos mesmo é que a nossa seleção vencesse. E não foi por isso que a ditadura acabou, mais cedo ou mais tarde.

Ah, mas se a seleção vencer fortalece o governo, dizem alguns da oposição. Se perder sairemos beneficiados com a frustração com o governo. Se ganharmos derrotaremos mais facilmente a oposição. Muito bem, pode ser que seja, mas e eu com isso? Nada. Não escolho governantes pela via das canelas de Neymar ou das chuteiras do Fred. Azar de quem o faz. Sinceramente não acredito nessa transferência maciça de votos, dependente de resultados em Copas do Mundo. Ah, cria um clima de euforia? De que tudo no Brasil dá certo, ainda que por linhas tortas? Não acredito mais nisso. Por alguns momentos esquecemos nossas agruras e dificuldades, alegres e fagueiros acompanhando a performance dos nossos craques. Pode ser. Mas e daí? A realidade, boa, ruim, mais ou menos, a esperança, o medo, seja o que for, está ali, na porta, esperando só a festa acabar. E não há como escapar.

E tem mais: protestos e manifestações vão acontecer. Oportunistas? Sim, como não ser? Qual a categoria, segmento, grupos, qualquer um, deixaria de aproveitar uma oportunidade dessas, para conseguir melhorias ou expressar suas opiniões e insatisfações?  Todo o país e o mundo de olho. A maior e a melhor cobertura da mídia nacional e mundial, que se poderia sonhar e que pode levar anos e anos – e que muito provavelmente não se repetirá, toda ela, aqui, acessível e atenta. Sem falar dos governos, cautelosos, prontos para reprimir, mas ao mesmo tempo com medo de aparecerem como brutamontes, de olho, também, na proximidade das eleições. Como não aproveitar esse momento único? Ainda que sejam tomados como simples arruaceiros, estarão, por aí, antes, durante ou depois do evento, cutucando consciências.

Quem vai se dar melhor? Como diria uma certa senhora dona de bar, na Boca do Rio, em Salvador, “e eu sei lá”.  Eu quero torcer, me divertir com os jogos e gritar Goooolll. E podem crer, não vai mudar nada do que penso sobre o país, sobre nossos governantes, políticos, administradores e oposicionistas.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

LADRÃO DE GALINHAS CHEGA AO SUPREMO



Não, não é isso que você pensou. Mas nesta semana a Corte julgou um caso envolvendo o furto de duas (isso mesmo: duas) galinhas em uma cidade de Minas.  Causa perplexidade, pelo menos a mim, que a mais alta Corte do país pare para julgar um caso de tamanha importância (detalhes mais adiante). O que acontece com a nossa Suprema Corte? No momento em que o mais importante tribunal de um país debruça-se sobre a concessão de habeas-corpus para uma pessoas acusada de roubar duas galinhas, alguma coisa está errada, muito errada. E não para por aí. Em breve mais casos de alta relevância chegarão à Corte:

Furto, em suma casa, de um ferro de passar, um carregador de celular, um fone de ouvido e uma chave de fenda, entre outros objetos do mesmo quilate. Valor da causa: R84,89 – E outro furto, este em um supermercado, de seis barras de chocolate, cujo valor da causa está estimado em R$31,80. As galinhas custam no máximo R$40,00. Já o Supremo custa ao país nada menos que 500 milhões por ano.

Enquanto o Supremo se dedica a ladrão de galinhas, aguardam na Corte assuntos de pouco importância para o país, como a decisão sobre as perdas (milhões e milhões) na poupança decorrentes de planos econômicos, a descriminalização de drogas e o pagamento de precatórios, para ficar em alguns exemplos. Além de casos dessa magnitude, a Corte – transformada em mero tribunal de última instância – se vê hoje às voltas com uma quantidade gigantesca de outros sem a menor importância, que poderiam ter o seu desfecho nos tribunais “inferiores”.

Além disso, o Supremo tem dado sinais conflitantes na análise de vários casos (vide os mensalões do PT e do PSDB e mais recentemente a tal de operação Lava-Jato). Sem querer bancar “jurista de Facebook”, creio que a Suprema Corte deveria, como nos países desenvolvidos, se dedicar às grandes causas, aquelas que influenciam, que tem repercussões reais e importantes sobre a vida de toda sociedade.

Outra coisa é que devemos acabar de uma vez por todas com esse tal de foro privilegiado. Nos Estados Unidos, para ficar em um único exemplo, o presidente de uma das mais poderosas nações do planeta, é julgado por um tribunal comum, se cometer qualquer delito. Aqui, qualquer político ‘lequebrete’, mesmo que furte uma galinha, vai parar no Supremo. As razões, aventadas, de que nas primeiras instâncias os políticos poderiam sujeitos a percalços provocados por eventuais inclinações ou más intenções dos juízes não se sustenta. Acreditar nisso é o mesmo que decretar que todos os juízes das demais instâncias são corruptos ou corruptíveis. E, nesse caso, também não serviriam aos cidadãos comuns.

Tem ainda, uma tendência típica de republiquetas, da Corte interferir em qualquer questão, chegando ao ponto de desautorizar decisões de outros juízes, como aconteceu recentemente com a desastrada intervenção do recém chegado ao Supremo, ministro Teori Zavascki, que paralisou as investigações da Operação Lava a Jato, mandou soltar perigosos contraventores depois voltou atrás, revogando a soltura, embora tenha, estranhamente, mantido em liberdade um dos principais investigados, tudo sob a alegação de que existiam políticos envolvidos e que – por conta disso – o caso deveria ser prerrogativa da Corte Suprema. Por pouco, muito pouco, o ministro que por sinal não justificou a sua volta atrás, não prejudicou totalmente a investigação da Polícia Federal e o processo.

Casos como esse, com suas prováveis idas e vindas, cria insegurança nas instâncias inferiores. Além disso, ao aceitar processos que poderiam perfeitamente serem resolvidos pelos outros tribunais, o Supremo acumula uma enorme quantidade de casos, que aguardam anos e anos para serem julgados, o que de resto não é um problema exclusivo da Suprema Corte.

Fica claro que o sistema judiciário brasileiro precisa urgentemente de uma reforma radical. Ao Supremo o que é de maior importância para o país, nas demais instâncias os meios para que a justiça enfim seja ágil e cumpra o seu papel. Para isso precisamos que o Congresso se mova e atualize os nossos códigos civil e penal e que as nossas polícias sejam modernizadas e melhor treinadas. Ou seja, vai ser difícil, muito difícil, termos uma Justiça, com letra maiúscula, em breve. Infelizmente, mas é assim.

Por curiosidade: o caso das galinhas passou por todas as instâncias da nossa lenta justiça, devido ao fato do juiz, que analisou o caso, ter se recusado a conceder habeas-corpus ao ladrão, optando, também, pela pena de reclusão. A Defensoria Pública recorreu, alegando que afinal não se tratava de nenhum crime grave. Não haveria a necessidade de mover a máquina judicial, o aparato criminal judicial para reprimir essa conduta, alegou a defesa. No final das contas a Suprema Corte decidiu que se tratava, de fato, de um delito sem importância e que o réu sequer merecia maiores punições, contrariamente ao voto do ministro Marco Aurélio, que – embora concordando com a “pequenez” do delito – queria que pelo menos algum tipo de punição fosse dado, já que “crime”, de fato aconteceu. O debate, sobre questão tão fundamental, consumiu mais que parte de uma sessão, com os inevitáveis apartes, sua excelência pra cá, sua excelência pra lá, data vênia, citações de outros doutos juristas e por aí foi.

Vale ler as trecho da manifestação do ministro Fux, sobre o caso das galinhas. É muito português castiço gasto com os galináceos
Ao analisar o caso no STF, o ministro Luiz Fux decidiu aguardar o julgamento do mérito do pedido para decidir a questão definitivamente.
“A causa de pedir da medida liminar se confunde com o mérito da impetração, porquanto ambos referem-se à aplicabilidade, ou não, do princípio da insignificância no caso sub examine. Destarte, é recomendável que seja, desde logo, colhida a manifestação do Ministério Público Federal”, decidiu Fux.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

COMO SE COMPORTAR NUMA ELEIÇÃO EM DOIS TURNOS



Existe uma técnica ou uma estratégia, como queiram, para eleições em dois turnos, interessante se aplicada no caso das eleições presidenciais brasileiras.

São duas as hipóteses, considerando-se a existência de três partidos e, numa delas, um franco favorito. Na outra, três candidatos, nenhum favorito.

Na primeira os dois partidos que competem para ir ao segundo turno devem ter paciência e muito controle para atirar exclusivamente no favorito. Tomando cuidados com o seu competidor mais próximo, com ambos atacando exclusivamente o favorito é possível atrair pelo menos uma boa parte do eleitorado do terceiro colocado, para aquele que conseguiu ir ao segundo turno.

Na outra hipótese, com três igualmente competitivos, a técnica sugere que cada um deve eleger apenas aquele que análises e pesquisas mostram com mais chances de ir para o segundo turno e, obviamente, tratar o outro com cuidado, contando assim com a possibilidade de vir a ser apoiado pelo eleitorado daquele que não conseguiu chegar lá, o que é muito provável, como na hipótese anterior.

Essa teoria, ou técnica, conhecida como “ballotage” (*) se utilizada para retratar as eleições presidenciais brasileiras revela um quadro interessante com Marina, a vice de Eduardo Campos, atuando fora da curva estabelecida pela técnica.

Dilma, que mantidos os números atuais, será eleita já no primeiro turno, faz a escolha certa ao mirar em Aécio Neves, por enquanto, o que detém números que indicam uma possibilidade de ida a um hipotético segundo turno. E tende a suavizar, mas apenas suavizar, as críticas a Eduardo, cujo eleitorado, acredita-se, seria capaz de migrar em boa parte para sua candidatura.

Aécio usa muito mais claramente o primeiro modelo. Parte do entendimento, óbvio nesse momento, de que Dilma é a favorita e focaliza nela e em seu governo as críticas, ao mesmo tempo em que tenta manter relações cordiais com Eduardo Campos e o seu eleitorado.

A campanha de Eduardo, que no início parecia ir também pelos caminhos sugeridos pela primeira hipótese da técnica, ao que tudo indica influenciada por Marina, ataca Dilma, com mais ênfase, mas não deixa de dar suas estocadas em Aécio, deixando claras as diferenças entre as duas candidaturas. A opção de deixar explícitas as diferenças é correta, mas partir para o ataque pode deixar os eleitores de Aécio resistentes a um eventual apoio a Eduardo, numa hipótese de um segundo turno, que hoje não está, de resto configurada, mas que uma candidatura, que acredita ser competitiva, não pode considerar como impossível de acontecer. Ao que tudo indica contam ainda com a hipótese – essa praticamente impossível – considerando-se o cenário atual, de que Dilma não indo para o segundo turno, ficariam com boa parte com os seus votos, já que são de alguma forma, na origem, da mesma família lulista, indo para a sua seara os votos petista visceralmente anti-PSDB. E ainda que, no caso de Aécio não conseguir ir para o segundo turno, contariam, de qualquer forma, com esses votos, por ser o eleitorado de Aécio anti-PT. Tudo tem lógica, ainda que contando com hipóteses improváveis e demasiadamente arriscadas.

Ainda sobre a atuação de Marina, sempre ávida em demarcar seu ideário, vale ilustrar com as posicionamento difícil da campanha de Eduardo com relação ao poderoso setor do agronegócio, cortejado com certo sucesso por Aécio, para o qual Dilma, espertamente, já voltou os seus olhos e ações, concedendo créditos e benesses. Enquanto isso Eduardo tenta se equilibrar entre suas ideias que podem atrair esse segmento e a conhecida ojeriza de Marina ao setor.

É acompanhar o desenrolar da campanha para ver como se movimentarão os três e se manterão as mesmas estratégias.

(*) ballotage – é uma expressão francesa,, utilizada para segundo turno, que terminou por denominar a técnica.

A BARBÁRIE TOMA CONTA DA SOCIEDADE. PARA ONDE VAMOS?


O que está acontecendo no Brasil? Cabeças são cortadas com regularidade em presídios, pessoas são mortas a golpes de paus e pedras, apenas por serem consideradas suspeitas de terem cometidos crimes, ônibus são depredados e queimados as centenas, sem que se saiba sequer os motivos, assim como bancos, lojas e prédios públicos. Há até mesmo o inusitado caso de assassinato de pessoas com vasos sanitários, atirados em momento de fúria, de uma altura de 24 metros, em estádio do Recife. Em Foz do Iguaçu duas jovens, de 19 e 15 anos, executaram uma adolescente de apenas 13 anos, por conta de ciúmes de um namorado de uma delas. Pai, madrasta e amiga juntam-se para assassinar um criança de 11 anos por, aparentemente, questões de herança ou pior, pelo fato da criança ter se transformado num incômodo na relação.

São apenas alguns exemplos de cenas que passaram a fazer parte do nosso cotidiano.

A explicação, de vulnerabilidade social, usada a torro e a direito, não serve para esclarecer esses fatos e comportamentos. Goste-se ou não do PT é evidente que houve, na última década, uma melhoria, ainda que moderada, nas condições sociais. Além disso, muitos dos envolvidos nas ações violentas são de classe média/alta, com “educação superior” e bem de vida.

O tal de brasileiro cordial sumiu do mapa. É verdade que o país sempre foi violento, ainda que por baixo da capa cordial, terna e alegre, tão usada para a construção de um ideário de uma sociedade dos trópicos. Mas, ao contrário do que se poderia supor, os traços de barbárie social e perversidade, legados pelo nosso passado colonial/escravagista não foram sequer atenuados. Estavam, na melhor das hipóteses, apenas levemente adormecidos. Mas, permanece a pergunta, qual foi o gatilho que os fez despertarem e ainda mais nessa escala, obviamente exacerbada?

Tudo o que se esperava era exatamente o contrário. Com a melhora nas condições de vida – sim, sei que há ainda muito, muitíssimo a se fazer – já existe hoje toda uma geração formada em um ambiente menos excludente, com acesso a bens de consumo e na escola, que - por pior que seja - areja o raciocínio, abre novas perspectivas. O que se esperava era – pelo menos – um certo progresso civilizatório, ainda que incipiente.

Qual a resposta? Não sei. Tem gente sugerindo que sociólogos, psicanalistas, psicólogos e afins se debrucem imediatamente sobre o problema. Falta incluir os políticos e as autoridades em geral. Candidatos e partidos políticos tem que incluir a questão, preferencialmente sem demagogia ou soluções baratas, tiradas de mangas do colete. A sociedade civil organizada também precisa refletir e propor soluções para o problema que – diga-se logo – não é exclusivamente da competência das polícias. Passa por uma reforma educacional, por questões econômicas, pela reforma e modernização das polícias e, com certeza absoluta do judiciário. Isso para ficar no mínimo. Se deixarmos tudo como está vamos para a barbárie e isso, com certeza, não fará bem a nenhuma de nós.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

DOMINGO RECEBO O VOLUME MORTO AQUI EM CASA . OH, CÉUS!


Depois de percorrer quilômetros e quilômetros de tubulações ele chega aqui, nas nossas torneiras no domingo. Pra ser franco nunca havia passado por minha cabeça receber nenhum volume morto, fosse lá do que fosse. Mas, entre explicações técnicas, muita demagogia e politicagem aqui estou eu prestes e me entender com esse tal de volume morto.
Ainda não sei como me preparar adequadamente. Como será ele, levemente colorido, tipo assim, meio cinza? Terá um cheirinho diferente? Será que é bom pra pele, já que provavelmente, pelo menos é o que ameaçam especialistas surgidos aparentemente do nada, mas todos cheios de teorias sobre esse tal de morto, que possui, além de água propriamente dita, uma série de outros elementos, que ninguém sabe ao certo quais são, em  suas entranhas misteriosas?

Junto com o volume morto me vem a consciência de que estamos vivenciando a guerra pela água. Declarada e bem viva. A legislação brasileira sobre o assunto, como em quase tudo nesse país, é uma confusão. São responsáveis pelo abastecimento do precioso líquido a união, os estados e os municípios, o que significa que ninguém a rigor é responsável por coisa nenhuma, noves fora os consumidores responsáveis pelas contas a pagar.

Rio de Janeiro e Minas Gerais, cada qual a seu modo, já levantaram orelhas e vozes em defesa dos “seus” mananciais, preocupados com a possibilidade de serem usurpados por São Paulo. E até o Paraná já está de olho na pendenga. Na Serra da Canastra, lembram da aulas de geografia, onde nasce o Rio São Francisco, produtores rurais que vivam na santa paz do Senhor, começam a se engalfinhar ao verem nascentes antes partilhadas harmoniosamente começarem a minguar.

O assunto já ocupa lugar de honra na eterna briga PT x PSDB. Na internet petistas comparam as obras de transposição do Rio São Francisco com a seca da Sistema Cantareira, que segundo eles, e só eles mesmo, vai em ritmo acelerado jorrando em “breve” água de montão nordeste afora. Na TV o pré-candidato do PT ao governo do Estado, afirma que não falta água, o que falta é gestão. O outro lado defende-se como pode, mas não tem como explicar como depois de passarmos três anos sem as vigorosas e esperadas chuvas de verão, providências não foram tomadas para evitar que tivéssemos de nos virar com o tal de volume morto.

E a população? Parece que só agora, na hora de receber o morto, começa a se tocar. A mania paulistana de “varrer” calçadas a jato de água diminuiu, assim como aumentou o número de carros sujos nas ruas e a procura por lava a jato ecologicamente corretos que não usam água. A indústria acordou e começou a bradar os prejuízos que terão com a redução “voluntária” do consumo de água necessário as suas atividades, assim como o agronegócio. 

E se não chover, como se espera, no próximo verão? E nos próximos e nos próximos, já que serão precisos nada menos que cinco anos para que o Sistema Cantareira volte aos seus níveis normais? 

Por enquanto cada um começa a se virar como pode. Aqui no prédio, uma tal de mina d’água, que até ontem só servia de fonte de aborrecimentos, transformou-se em alvo de admiração e interesse. Uma empresa foi contratada para avaliar as possibilidades de aproveitamento do “manancial” e o zelador foi visto todo orgulhoso afirmando que as escadas das áreas de serviço estavam sendo lavadas com a “água da mina”, assim como a rega dos jardins. Só espero, que depois do volume morto não tenha que encarar a “mina”.

No mais é esperar para ver. E incluir nas minhas combalidas economias mais gastos com água mineral, que também não sei, ao certo de onde vem. Até mesmo o cachorro, já foi decretado por quem manda aqui em casa, vai beber desse tal de volume morto. Só mineral e pronto.

Pelo visto só entoando: louvado seja Deus, ó meu Pai, louvado seja Deus ó meu Pai. E incorporar rapidinho crenças e maneirismos do sertão nordestino na maior metrópole do país. Noves fora é claro, algumas pilantragens: o lava-jato aqui da esquina já ergueu uma faixa, hoje pela manhã: “Nossa água é exclusiva do nosso poço artesiano. Estamos colaborando com a seca”. (sic).

Então tá, né? Que venha o volume morto.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

DE QUEM É ESSE JEGUE, ESSE JUMENTO NOSSO IRMÃO?


Milhares de jegues estão sendo abandonados Brasil afora, basicamente no Nordeste, substituídos pela motos. Companheiro de longos e longos anos, puxador de carroça, arado, transportando pessoas, participando da vida do nordestino, protagonista de músicas famosas, vem sendo simplesmente abandonado, transformando-se num problema para as autoridades, causador de acidentes, muitos deles fatais, nas estradas por onde perambulam em busca de alimento.

Agora, estão também ameaçados de ir para os matadouros, ideia alvoraçada de um promotor desocupado da cidade de Apodi, que quer incluir a carne de jegue no cardápio regional e sonha com a importação em grande escala desse que já foi símbolo nacional.

O buraco, como sempre é mais embaixo. O problema no momento é o abandono. Recentemente, o Detran do Ceará se viu na obrigação de recolher os bichos abandonados e com isso diminuir os acidentes nas estradas. Não resolveu um problema e criou outro ao ver-se de repente responsável por centenas e centenas de animais, exigindo cuidados de veterinários, comida e espaço. Aforamente os problemas burocráticos, uma vez que – por lei – Detran nenhum pode manter fazenda, seja lá sob que pretexto for, muito menos contratar veterinário ou comprar comida para equinos.

Já teve gente a sugerir uma solução radical: matar os jegues abandonados. Mas nem isso é fácil. Jegue como se sabe é um bicho grande. E mata-los como? A tiros? A pauladas? Envenenados? Em câmaras de gás? E o que fazer com a carcaça? Um cemitério gigante de jegues?

A solução do ingênuo promotor, que já promoveu inclusive uma degustação, aberta ao público, de carne de jegue,  também não tem futuro. Para consumir a carne animal medidas mínimas de higiene teriam que ser adotadas. Independentemente da questão cultural e de abrir mercado no exterior para a compra, os jegues teriam que vir de criadouros, com normas de higiene, alimentação e cuidados especiais, incluindo aí os matadouros e frigoríficos. Nada disso os animais abandonados seriam capazes de atender.

Mas o que fazer então, com esse amigo do homem, esse nosso irmão, como chamou Luiz Gonzaga? Ninguém sabe. Por enquanto, aquele como cantou Luiz, que foi um verdadeiro desenvolvimentista do Nordeste, arrastando água, madeira, lenha, cal, ajudando a fazer açudes, construir estradas, fazendo a feira, servindo de montaria, é apenas mais uma vítima de abandono.

Será que o destino que lhe aguarda, por parte do homem que tanto serviu, será apenas o abandono ou, na melhor hipótese, servir de comida? Como disse o Luiz: ele merece mesmo esse fim, esse castigo. Não. O jumento é nosso irmão, servidor do homem, animal sagrado, que levou Jesus para o Egito. Tomara que tenha um destino melhor.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

MARINA AJUDA OU ATRAPALHA EDUARDO CAMPOS?


No 13o Fórum de Comandatuba, na Bahia, que reuniu cerca de 320 empresários, Eduardo Campos e Aécio Neves aproveitaram a oportunidade, principalmente pela ausência, inédita, dos ministros de Dilma, para cortejar o PIB brasileiro. Aécio, na opinião da maioria dos presentes, saiu-se melhor que Campos, que – segundo um dos líderes empresariais – “com Marina, ele toma muito cuidado no trato de certos temas para não feri-la ou contrariá-la”.

Segundo reportagem de Pedro Venceslau, enviado especial do jornal Estado de São Paulo ao evento, “muita gente na plateia percebeu que Marina fazia ‘cara feia’ quando o tucano exaltava a boa relação com o ex-governador”.  Marina fez questão, inclusive, ao final do debate de ressaltar as “divergências profundas” entre Campos e Aécio, principalmente quanto ao reconhecimento dos avanços sociais do governo Lula, de quem ambos foram auxiliares diretos no primeiro mandato.

Um empresário do ramo de alimentos, segundo Venceslau, exemplificou a dificuldade de Campos ao falar sobre o trecho do discurso dele, no fórum, abordando a crise no setor do etanol: “Em vez de criticar o descaso de Dilma com o setor sucroalcooleiro e defender a redução do preço do etanol, ele ficou falando sobre a importância de existir um selo ambiental para o combustível”.

O grande desafio de Eduardo, além dos eventuais problemas com o empresariado, será tentar capturar o voto difuso que Marina obteve em 2010 e, obviamente ampliá-la com eventuais dissidências nas áreas do PT e do PSDB. O problema é que a votação de Marina foi resultado de uma confluência de eleitores bastante diversos, numa situação muito especifica, que pode não se repetir nessas eleições.  Na época reuniu os insatisfeitos com José Serra, eleitores tradicionais do PT insatisfeitos com o governo, principalmente aqueles mais a esquerda, além dos evangélicos. 

Resta saber que os “insatisfeitos” do momento ainda veem Marina e por tabela Eduardo Campos, como alternativa para o seu voto. Os evangélicos vão entrar divididos já que existe um candidato, o pastor Everaldo, da Assembleia de Deus, o grupo mais forte entre os evangélicos. Além disso vai ser preciso que eles identifiquem a “irmã”, que não é cabeça de chapa, como uma espécie de avalista de Eduardo Campos.

Para ter sucesso Eduardo Campos precisa necessariamente de votos em São Paulo, além de se tornar mais conhecido além do Nordeste. A seu favor existe a possibilidade de uma série de partidos, que tem interesse em um segundo turno para aumentarem o valor do seus respectivos passes, que possam colocar as suas máquinas partidárias para trabalharem a favor da sua candidatura.  E certo que o restante dos 30 partidos não têm interesse que o PT e o PSDB ganhem rapidamente. E aí pode estar uma brecha a ser explorada por Eduardo.

Se a jogada de unir-se a Marina teve o mérito de criar um surpreendente fato político, além do ganho de um discurso com ares de uma “nova forma de fazer política”, Campos enfrenta agora o desafio dessa busca dos eleitores do que se convencionou chamar de terceira via, com o agravante de que no Brasil, ela seja extremamente difusa. Além disso vai ter que suar a camisa para provar que Marina não será um empecilho na formatação e implantação de políticas econômicas que o país tanto precisa, mas que a sua vice parece relutar em aceita-las.

Uma coisa já parece certa, ainda que favorita, essa não será uma eleição fácil para Dilma.


AOS JOVENS (MARIO VARGAS LLOSA – TRECHOS)


            ... Os que frustrados pela falta de ação das lutas políticas em seus países em que predomina uma democracia medíocre e rotineira, tornam-se cínicos, desprezam a política e optam pela filosofia do “quanto pior melhor”, deveriam observar o  método de luta dos jovens venezuelanos, por exemplo, na Av. Francisco de Miranda, no centro de Caracas, onde rapazes e moças convivem há várias semanas, organizando debates, seminários, explicando aos transeuntes seus projetos de anseios para a futura Venezuela, quando a liberdade e a legalidade retornarem e o país despertar do pesadelo em que vive há quinze anos.
            Os que chegaram à deprimente conclusão de que a política é uma tarefa imunda, de indivíduos medíocres e ladrões, que, portanto, é preciso virar-lhe as costas, venham para a Venezuela. Falando, ouvindo e aprendendo com esses jovens, comprovarão que a ação política pode ser também nobre e altruística, uma maneira de fazer frente à barbárie e derrotá-la, de trabalhar pela paz, a conviv6encia e a liberdade, sem dar tiros nem jogar bombas, com argumentos e palavras....
            Os jovens venezuelanos estão dando à América Latina e ao mundo inteiro o exemplo de que ninguém deve renunciar à esperança, de que um país, não importa quão profundo seja o abismo no qual a demagogia e a ideologia o precipitaram, sempre pode libertar-se desta armadilha e redimir-se.
            Alguns desses jovens já passaram pela prisão e sofreram torturas, e alguns talvez venham a morrer, como os cerca de 50 companheiros que já perderam a vida pela mão dos assassinos encapuzados com os quais Maduro pretende silenciá-los.
            Não os calarão, mas não é justo que estejam sós, que os governos e as organizações democráticas não os apoiem e, ao contrário, façam causa comum com seus algozes. Porque a batalha mais importante pela liberdade dos nossos dias se trava nas ruas da Venezuela e tem o rosto juvenil.

(trechos do artigo, “Estudantes da Venezuela”, publicado no jornal o Estado de São Paulo, em 4 de maio de 2014, tradução de Anna Capovilla)