quarta-feira, 7 de maio de 2014

AOS JOVENS (MARIO VARGAS LLOSA – TRECHOS)


            ... Os que frustrados pela falta de ação das lutas políticas em seus países em que predomina uma democracia medíocre e rotineira, tornam-se cínicos, desprezam a política e optam pela filosofia do “quanto pior melhor”, deveriam observar o  método de luta dos jovens venezuelanos, por exemplo, na Av. Francisco de Miranda, no centro de Caracas, onde rapazes e moças convivem há várias semanas, organizando debates, seminários, explicando aos transeuntes seus projetos de anseios para a futura Venezuela, quando a liberdade e a legalidade retornarem e o país despertar do pesadelo em que vive há quinze anos.
            Os que chegaram à deprimente conclusão de que a política é uma tarefa imunda, de indivíduos medíocres e ladrões, que, portanto, é preciso virar-lhe as costas, venham para a Venezuela. Falando, ouvindo e aprendendo com esses jovens, comprovarão que a ação política pode ser também nobre e altruística, uma maneira de fazer frente à barbárie e derrotá-la, de trabalhar pela paz, a conviv6encia e a liberdade, sem dar tiros nem jogar bombas, com argumentos e palavras....
            Os jovens venezuelanos estão dando à América Latina e ao mundo inteiro o exemplo de que ninguém deve renunciar à esperança, de que um país, não importa quão profundo seja o abismo no qual a demagogia e a ideologia o precipitaram, sempre pode libertar-se desta armadilha e redimir-se.
            Alguns desses jovens já passaram pela prisão e sofreram torturas, e alguns talvez venham a morrer, como os cerca de 50 companheiros que já perderam a vida pela mão dos assassinos encapuzados com os quais Maduro pretende silenciá-los.
            Não os calarão, mas não é justo que estejam sós, que os governos e as organizações democráticas não os apoiem e, ao contrário, façam causa comum com seus algozes. Porque a batalha mais importante pela liberdade dos nossos dias se trava nas ruas da Venezuela e tem o rosto juvenil.

(trechos do artigo, “Estudantes da Venezuela”, publicado no jornal o Estado de São Paulo, em 4 de maio de 2014, tradução de Anna Capovilla)