sexta-feira, 30 de maio de 2014

O USO DO MEDO NA PROPAGANDA ELEITORAL


Nas últimas inserções partidárias o PT usou, há de se reconhecer com muita competência, alguns dos recursos que serão utilizados, com toda certeza, no decorrer da próxima campanha, baseados nas mais recentes descobertas da neurociência de que o eleitor em geral vota muito mais com a emoção do que com a razão.
A peça, que ameaça os eleitores com a volta de uma hipotética situação de caos, tristeza e extrema pobreza, “uma volta atrás”, ao passado, quando os adversários do PT estavam no poder, verdadeira ou não, surtiu seus efeitos e incomodou a oposição, que – ciente dos possíveis prejuízos - buscou acolhida nos tribunais para que fosse retirada do ar.

O medo é a emoção primária fundamental, a mais importante de nossa vida, capaz de influenciar com muita força as informações de quem as recebe. A afirmação, baseada também em estudos da neurociência, é do sociólogo espanhol Manuel Castells – autor entre outros de A Sociedade em Rede e Redes de Indignação e Esperança – Movimentos Sociais na Era da Internet
 
John Mearsheimer, professor de Ciência Política da Universidade de Chicago, famoso pelo seu livro Why Leaders Lie: The Thth About Lying in Internacional Politics (Por que os líderes mentem: a verdade sobre a mentira na política internacional), desenvolve uma teoria sobre “mentiras estratégicas”, principalmente as que se utilizam do chamado “bem da pátria”  usadas segundo ele, rotineiramente pelos políticos, principalmente, como é óbvio, em questões de ameaças a segurança interna e em conflitos com outros países.  Também, na maioria desses casos, o medo entra como um elemento importante para influenciar decisões. Pode ser o terrorismo, a “ameaça externa”, a possibilidade de invasão por tropas estrangeiras e até mesmo questões relativas ao comércio entre as nações. O leque é amplo, mas o medo, o uso do medo, está presente, com muita força na formulação das políticas internacionais.
Agora, é importante salientar que o uso do medo não produz resultados automáticos. Não basta acenas com ele para conseguir sucesso nos objetivos políticos. É preciso que o temor esteja efetivamente presente – e em graus razoáveis – no imaginário da população para que possa ser devidamente explorado e dê certo.
Na campanha de Serra, em 2002, o PSDB tentou usar esse recurso, mas não funcionou. A peça, com a atriz Regina Duarte, advertia o Brasil sobre o risco de se perder a estabilidade conquistada e “ir tudo para a lata do lixo”, inclusive com a volta da “inflação desenfreada”, caso Lula fosse eleito, já que ele não era a mesma pessoa “de antigamente”, mas um outro personagem que “mudou tudo que dizia anteriormente”. Não colou. Não colou porque o medo, tal como foi expresso, não estava tão arraigado no imaginário das pessoas. Pelo menos não da forma como foi colocado. No imaginário a inflação estava devidamente controlada e nenhuma ameaça nesse sentido parecia crível e, no final das contas, Lula não metia tanto medo e soube contornar com eficiência a ameaça vendendo a “esperança”.
Hoje as posições se inverteram, mas pelo menos até agora, o PT tem sido bem eficiente no uso da fórmula de “vender o medo”, enquanto o PSDB e a oposição em geral vão ter que se esforçarem mais para vender a “esperança” de dias melhores. Resta saber se no imaginário popular as cenas apresentadas são realmente capazes de remeter aos governos anteriores e aos atuais postulantes do PSDB. De qualquer forma, ninguém, em sã consciência gostaria de vivenciar o cenário apresentado. Relacionado ou não ao PSDB são medos presentes de forma sólida e inequívoca na imaginação das pessoas. Vale lembrar ainda que o eventual sucesso da fórmula usada pelo PT leva em conta a falta de memória, o esquecimento, relacionado às conquistas do período tucano. O PSDB não foi hábil em mantê-las vivas, principalmente a implantação do Plano Real e o controle do processo inflacionário, que antes chegava a casa do hoje inimaginável 80 por cento ao mês!
Quem trabalha com o medo tem que levar também em conta as chamadas “produções simbólicas”, onde o objetivo é captar o que está no imaginário da população, não importa aí se reais, verdadeiras ou falsas, embora tenham que ter um mínimo de relevância. A “produção simbólica” é, grosso modo, a representação, a transformação em símbolos de forte impacto emocional, dos medos presentes no imaginário. Não basta “falar”, por exemplo do desemprego, um medo sempre presente em momentos de instabilidade econômica. É preciso retrata-lo com emoção, com dramaticidade, usando todas as simbologias disponíveis para retratar esse momento de angústia e desespero que afligem os desempregados. É aí onde está, também, a eficiência da técnica.
Em campanhas passadas esses recursos já foram utilizados, de uma forma ou de outra, ainda que toscamente, mas vai ser nas próximas campanhas que veremos isso, tratado de forma mais científica, com muito foco nas descobertas e nas conquistas da neurociência. Já se sabe, inclusive, de candidatos com muito poder econômico que estão usando tecnologia de ponta, nos grupos de pesquisas qualitativas, destinadas a analisar em profundidade as emoções, positivas e negativas, que despertam com suas (e dos adversários) peças de propaganda, discursos etc. Vamos ver, em breve os resultados. E, com certeza, peças, muitas peças, trabalhando o medo como forma de atrair eleitores.