quarta-feira, 28 de maio de 2014

SIM. EU VOU TORCER PELA SELEÇÃO

Alguns conhecidos torceram o nariz. Como assim? Vou torcer, primeiro porque gosto de futebol e de esportes em geral e torço por qualquer atleta ou equipe nacional. Vibro com a seleção de vôlei, de basquete, torço pelos nossos atletas da natação e vibro até por uma tenista recém surgida, cujo nome nem sei, mas que está fazendo sucesso nesse esporte dito “elitista”. Torço porque acho que uma coisa não tem a ver com a outra, por mais esforços que governantes de plantão e demais desavisados façam para mistura-las.

Torço porque me lembro da década de 70, quando lutávamos contra a ditadura e parecia impossível torcer pela seleção sem que isso significasse apoiar o regime. Na época governo e seleção pareciam irmãos siameses, com o então presidente de plantão, um amante do futebol, intrometendo-se inclusive na escalação, embora sem sucesso.

Lembro das intermináveis reuniões onde esse assunto era discutido à exaustão e saíamos todos decididos a, quando muito, assistir silenciosos os jogos da “seleção canarinho”, jamais entoar o “Pra Frente Brasil, Brasil” e deixar as nossas preferência recaírem sobre as brancas canelas dos países socialistas ou, na pior das hipóteses, democratas. Qual nada.
Diante da TV, quando possível, ou pelo menos de ouvido colado no radinho, quem resistia a magia de craques como Gerson, Pelé, Tostão, Jairzinho e Rivelino, para ficar só em alguns exemplos? Gritos sufocados ou berros que equivaliam ao lixe-se o centralismo democrático, queríamos mesmo é que a nossa seleção vencesse. E não foi por isso que a ditadura acabou, mais cedo ou mais tarde.

Ah, mas se a seleção vencer fortalece o governo, dizem alguns da oposição. Se perder sairemos beneficiados com a frustração com o governo. Se ganharmos derrotaremos mais facilmente a oposição. Muito bem, pode ser que seja, mas e eu com isso? Nada. Não escolho governantes pela via das canelas de Neymar ou das chuteiras do Fred. Azar de quem o faz. Sinceramente não acredito nessa transferência maciça de votos, dependente de resultados em Copas do Mundo. Ah, cria um clima de euforia? De que tudo no Brasil dá certo, ainda que por linhas tortas? Não acredito mais nisso. Por alguns momentos esquecemos nossas agruras e dificuldades, alegres e fagueiros acompanhando a performance dos nossos craques. Pode ser. Mas e daí? A realidade, boa, ruim, mais ou menos, a esperança, o medo, seja o que for, está ali, na porta, esperando só a festa acabar. E não há como escapar.

E tem mais: protestos e manifestações vão acontecer. Oportunistas? Sim, como não ser? Qual a categoria, segmento, grupos, qualquer um, deixaria de aproveitar uma oportunidade dessas, para conseguir melhorias ou expressar suas opiniões e insatisfações?  Todo o país e o mundo de olho. A maior e a melhor cobertura da mídia nacional e mundial, que se poderia sonhar e que pode levar anos e anos – e que muito provavelmente não se repetirá, toda ela, aqui, acessível e atenta. Sem falar dos governos, cautelosos, prontos para reprimir, mas ao mesmo tempo com medo de aparecerem como brutamontes, de olho, também, na proximidade das eleições. Como não aproveitar esse momento único? Ainda que sejam tomados como simples arruaceiros, estarão, por aí, antes, durante ou depois do evento, cutucando consciências.

Quem vai se dar melhor? Como diria uma certa senhora dona de bar, na Boca do Rio, em Salvador, “e eu sei lá”.  Eu quero torcer, me divertir com os jogos e gritar Goooolll. E podem crer, não vai mudar nada do que penso sobre o país, sobre nossos governantes, políticos, administradores e oposicionistas.