terça-feira, 3 de junho de 2014

CLÁSSICOS PARA "BURROS"



Inventaram recentemente – e já teve gente ganhando, ou pelo menos pretendo, safar uma graninha das testas da viúva para isso – uma história de “simplificar” os clássicos da língua portuguesa.  A primeira investida é contra Machado de Assis.  A justificativa é mais ou menos a seguinte: facilitar a leitura dos clássicos, para que o jovem leitor – bem burrinho – para que mais tarde ele possa enfrentar galhardamente os textos originais.

Originalidade, sem dúvida, está na ideia, para continuar sendo elegante. Em vez de elevar o leitor, puxa-se o Machado para baixo. Podemos exportar a ideia para o mundo: Shakespeare simplificado. Platão, em poucas linhas. Proust ao alcance de qualquer bocó. Machado, moço pobre, criado na provinciana, na época, cidade do Rio de Janeiro, certamente teria atingido outro patamar, tivesse acesso às versões simplificadas dos clássicos da literatura mundial, como hoje proposto.

E por que ficar apenas em Machado? Vamos a todos os escritores importantes da língua portuguesa e da literatura mundial. Vamos fazer mais, como teme, ironicamente, João Ubaldo, em sua crônica no Estadão do último domingo, criar o Vocabulário Popular da Lingua Brasileira. Nada mais que uns 1200 vocábulos,  utilizados obrigatoriamente por qualquer um que escreva livros, matérias de jornais, crônicas, ou seja lá o que for.

Como bem chama a atenção, João Ubaldo, tem nessa maluquice, um conceito assaz esquisito de que numa obra literária existem uma diferença entre conteúdo e forma. O conteúdo é – digamos assim – o enredo propriamente dito, a história. Já a forma o “jeito” escolhido pelo escritor para narrar a sua história. Feita a absurda distinção, caberia perfeitamente reescrever a obra, contando a história de uma outra maneira.  Todo o esforço e a criatividade do escritor, em “contar do seu jeito” a sua história que vá pro ralo. Afinal, pelo visto, não vale grandes coisas, já que não está ao alcance dos semi-letrados ou analfabetos funcionais.

Caminhamos ao contrário. Descemos o nível.

A justificativa de permitir, teoricamente, o acesso às obras por parte de gente que não estaria em condições de compreende-las é de uma idiotice abissal. Ao baixar o nível não estamos sendo democráticos, muito pelo contrário. Estamos condenando as pessoas ao nível mais abaixo, já que ninguém se preocupa em eleva-lo, empobrecendo a língua, condenando as pessoas ao atraso e a manutenção do privilégio.

A continuarmos nesse toada, como sugere Ubaldo, vamos adaptar Bach ao ritmo do funk, as sinfonias de Beethoven em compassos de pagode e a uma coleção axé das obras de Villa-Lobos. Estamos indo a passos rápidos, bem rápidos, para trás. E com o beneplácito do Governo e o dim-dim do contribuinte.