quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

CICLOVIAS: MAIS PLANEJAMENTO, MENOS PRECONCEITO.


Para início de conversa sou ciclista. Ponto. E gostaria de ver, realmente, a minha cidade com os tais 400 km de ciclovias prometidas pelo prefeito até 2016. Mas, como muitos moradores – noves fora os argumentos imbecis, como veremos abaixo – percebo que o projeto vai sendo tocado na improvisação, com ciclofaixas esburacadas, sem estarem segregadas corretamente dos pedestres e/ou dos veículos. Além disso muitas começam do nada em direção a lugar nenhum, outras terminam abruptamente em vias altamente perigosas para os ciclistas. Isso sem falar no indispensável diálogo com moradores, comerciantes e, obviamente com os ciclista, que na prática não existe.

Em Nova Iorque, por exemplo, foram necessários seis anos para que as ciclovias tivessem aceitação e sucesso. E o que não faltou foi planejamento.
Primeiro as autoridades visitaram as principais cidades do mundo onde a experiência é bem sucedida em busca das melhores soluções para implantar as ciclovias, proteger os ciclistas, mas sem entrar em conflito com os demais veículos, moradores e comerciantes. Só para se ter uma ideia registrou-se um aumento significativo nas vendas, sempre bem acima dos 15% em todo o comércio onde as ciclovias foram implantadas.

Com a falta de diálogo e de planejamento sobra o bestialógico de ambos os lados, defensores e adversários esquecem a lógica e passam a ironizar ou atacar, ambos com argumentos toscos. E que perde é a cidade e quem gosta, como eu, das bikes, seja para lazer ou a trabalho. Por sinal, por enquanto, unanimidade mesmo só para as tais ciclofaixas de lazer, que funcionam nos finais de semanas e feriados  ou ciclovias fora das áreas de moradia e comércio.

Em vez de dialogar e mobilizar as pessoas para a importância das ciclovias e mais que isso, apresentar à cidade um plano coerente de implantação de ciclovias de qualidade (que não são apenas faixas pintadas no chão) o diretor de Planejamento da Companhia de Engenharia de Tráfego, prefere afirmar que não precisa da aprovação de moradores para implantar as ciclovias e o secretario dos Transportes vai pra ofensiva, usando da ironia: “quem quiser ficar no trânsito que fique. Tem gente que gosta de ficar parado no carro ouvindo música”. Com esses tipo de argumento a administração dá argumentos para que o outro lado apresente também o seu arsenal de intolerância.

Em Higienópolis, bairro que ficou famoso por ter moradores contrários a uma linha de metro, que iria trazer uma gente “diferenciada”(ou seja desclassificada) para a nobre localidade, no Jardim Paulista e no Alto da Boa Vista, moradores decidiram acionar o Ministério Público contra as ciclovias instaladas recentemente pela Prefeitura.

Os argumentos contrários são variados, alguns altamente preconceituosos, como os aposentado Francisco Augusto da Costa Porto, de 4 anos, que declarou ao jornal Estado de São Paulo, que “hoje todos nós sabemos que quem anda de bicicleta não presta”. Mas outros são absolutamente razoáveis como os do estudante de publicidade, de 19 anos, que reclama do traçado da ciclovia da Alameda Guatás, no Planalto Paulista, que termina, sem que o ciclista perceba, numa faixa de ônibus.

Tem gente que acha – e é verdade nos projetos da prefeitura – que a ciclo acaba com o estacionamento dos carros. Em Nova Iorque, em muitos locais, o estacionamento de carros é parte do sistema de “proteção”, ajudando na segregação das ciclovias, outros que vai aumentar o número de assaltantes, o que e uma renomada besteira.

Por conta da falta de planejamento a prefeitura já foi obrigada a voltar atrás, ou fazer “ajustes”, como prefere o diretor da CET. Em Higienópolis, no mês passado, mudou o traçado da ciclovia na Praça Vilaboim, por pressão dos comerciantes e realiza obras completamente sem sentido, como a pintura de uma ciclovia, no meio da calçada da Avenida São Luís, sem segregar o espaço para os pedestres da via.

Do jeito que as coisas vão perdem os ciclistas e principalmente perde a cidade uma grande oportunidade de melhorar a qualidade de vida dos seus habitantes e até mesmo de gerar ou ampliar negócios. Tá faltando, como quase sempre nesse país, planejamento, cérebro e diálogo.
Como ciclista espero que mais cedo que mais tarde, as coisas finalmente entrem nos eixos e possamos pedalar pela cidade em segurança, seja a trabalho ou a lazer.