quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

ATAQUE COVARDE A MINHA RESIDÊNCIA NA CALADA DA NOITE

Pois é, estávamos quase dormindo, por volta de uma hora da madruga, quando um grito lancinante (não é assim que o povo dos romances vamo-que-vamo descreve?) nos desperta em pânico.  O nosso valoroso cão de guarda, tão dócil na rua, mas que incorpora um Pitbull doidão em casa, levanta-se e investe latindo furiosamente em direção ao quarto da minha filha, de onde mais gritos, cada vez mais aterrorizantes, eram ouvidos. Hesitei, confesso, pensando em lançar mão da pistola automática guardada na mesa de cabeceira, escondida por baixo de uma montanha de remédios, relógios e mais um monte de bugigangas, mas fui expulso rapidamente da cama, por uma livrada certeira, com cerca de umas 500 páginas, desferida em minha cabeça pela minha senhora, acompanhada de frase estimulante:

- Levanta logo homem, larga a mão dessa arma de merda e vai tomar uma providência.
Arma 01

A cachorra a esta altura, pelos rosnados e latidos ensandecidos deveria estar enfrentando algo realmente perigoso. Ainda assim, armado apenas de uma prosaica sandália japonesa, como se diz na Bahia, fui ao encontro do perigo, que perturbador, tal a intensidade dos gritos, que não cessavam, desejando que fosse lá o que fosse, pudesse ser enfrentado, claro que com a ajuda da nossa fiel Pitbull caseira e derrotado por potentes chineladas de havaianas.
Arma 02

Moro no 26o. andar. Um assaltante, sequestrador, terrorista, algo assim do gênero é sem dúvida pouco provável. A segurança do prédio é razoável. A esta  altura dos acontecimentos, os gritos deveriam ter inclusive acordado o nosso, nem sempre alerta, porteiro e com toda certeza, o, um pouco mais alerta, segurança. Quem sabe os vizinhos já estivessem se mobilizando em meu socorro, chamando a polícia, a síndica, se preparando para derrubar a porta... Mas, o caro leitor há de concordar comigo: quem realmente pensa direito, ao ser acordado aos gritos (lancinantes), corroborados pela ataque feroz em andamento pelo nosso cão, que certamente estava a ver um perigo real e pior, atordoado pela livrada desferida com admirável pontaria.

Pensasse melhor perceberia que o cão coragem estava latindo e rosnando sem destino certo e que a minha senhora sequer tinha se dignado a levantar da cama, limitando-se a estimular os combatentes com mais uma frase enfática e decisiva: “acabem logo com esta bagunça que eu quero dormir.” Normalmente sensível ao menos sinal de perigo, a sua indiferença com o episódio, que aquela altura ainda não estava claro para mim, deveria ter me alertado para me preparar com mais calma para enfrentar fosse lá o que fosse, expulsando inclusive o cachorro do local do combate, antes que a vizinhança ligasse para a polícia e todos os desagradáveis desdobramentos que esses episódios noturnos costumam gerar acontecessem de fato.

Mas não o fiz. Entrei em desabalada carreira, quarto adentro da minha filha, pronto para salva-la dos terríveis perigos que certamente a ameaçavam, tropecei no cachorro, derrubei o abajur e espantei o baratão que subia languidamente pela porta do guarda-roupa e que, aproveitando-se (indefectível gerúndio) da minha desastrada entrada adentrou no dito cujo, desaparecendo solerte.

Puto azar. Além de ter passado a noite desmanchando o armário e pondo abaixo todo o quarto, vigiado de perto pela cachorra traíra, que colocou-se na porta impedindo a minha fuga, rosnando ameaçadoramente a cada tentativa infrutífera de escapulir do local, ainda me vi, de lanterna em punho, recebida autoritariamente da minha filha, esquadrinhando cada canto, japonesa na mão, qual um CSI dos trópicos sem conseguir encontrar o baratão criminoso.

As buscas foram recomeçadas pela manhã, mas encerradas com a chegada da nossa funcionária, dona Denisse (sim com dois “s”), que munida de uma arma muito mais eficaz, em aerossol, decretou: sai todo mundo, leva o cachorro, que agora é comigo. Infelizmente o IML até agora não conseguiu por às mãos o cadáver. Espero que não retorne essa noite.


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

UM SONHO DE XOXOTA EM BARRA GRANDE

Quem me apresentou a esse inacreditável sonho foi o Luís Lamego. Estávamos indo rumo a praia, em nosso primeiro dia em Barra Grande, povoado famoso, hoje frequentado por milionários, na Baía de Camamu, uma das mais belas do país,
poucos meses antes da virada do século XXI. Íamos em direção à praia, quando nos deparamos com Lamego, que de pronto nos indicou o melhor local para o sol e o banho.Depois de algum tempo, admirando a fantástica vista, Lamego surge, repentinamente, com a pergunta: querem curtir algo espetacular? Sim, claro, respondemos de pronto, ainda que sem saber do que se tratava. E Lamego, com sua voz potente, lança um grito em direção ao mar: hei, Xoxooootaaaa! Surpresa geral, quase pânico. O que viria a seguir? Eis que surge um nativo, cesta em punho, cara de poucos amigos, mas obviamente solicito, pronto para atender ao desejos de Lamego, fosse lá o que fosse aquilo.

- Este é o melhor sonho do mundo,
esclarece Lamego entusiasmado. - Solta três aí Xoxota". Foi assim que conhecemos o Xoxota, vendedor de sonhos em Barra Grande e personagem famoso, querido e vivenciador de episódios marcantes no povoado, um dos quais como protagonista, ou quase, de um dos números mais bizarros apresentados pelo circo mambembe que se apresentava na city. Nunca soubemos a origem do “codinome” desse vendedor de sonhos. Lamego também, pelo que sei, desconhece, mas não deixa de ser bizarro, para dizer o mínimo, um vendedor de sonhos chamar-se Xoxota. Ou não, talvez, como diria Caetano. Enfim, na Bahia e em Barra Grande, exotismo é o que não falta.

XOXOTA VAI AO CIRCO

Mas vamos ao circo e a quase performance de Xoxota em um dos mais grotescos número circenses que jamais imaginei fosse possível.
Não é Xoxota, mas poderia ser - rss.
Durante o “espetáculo” um dos números mais – digamos assim – exóticos, era o momento em que o apresentador, vinha para o centro do picadeiro, com uma galinha debaixo do braço e a “depositava” num buraco previamente cavado no centro. O pobre galináceo ficava apenas com o pescoço do lado de fora, movendo-o nervosamente para todos os lados. E, surpresa, munido de um pedaço de pau, com um prego, isso mesmo, um prego, gigante preso na ponta, o apresentador desafiava os espectadores e acertar o bicho com o dito cujo. Para quem conseguisse, obviamente que de olhos vendados e depois de ser girado inúmeras vezes sobre o seu próprio eixo, um grande prêmio, que nunca soubemos exatamente qual seria, pois ao pedir um “voluntário”, o circo inteiro começou a gritar a plenos pulmões: Xoxota, Xoxotaaa, Xoxotaaaa, que – se presente – declinou da honraria.

Perplexo, já que não poderia saber que Xoxota era na verdade uma pessoa e não o que ele estava a pensar, o apresentador foi pelo caminho que lhe parecia estar sendo indicado pela platéia e bradou, tomando um outro rumo: Vocês querem mulhé? Vocês querem mulhé? E o povão: Não! Xoxota, Xoxota, Xoxota... Pelo sim, pelo não entre em cena uma senhora, já madura, em trajes que pretendiam ser sexy, que há poucos minutos estava amamentando uma criança, logo ali, atrás da lona, praticamente à vista de todos, que se pôs a rebolar mecanicamente durante poucos minutos antes de se retirar, com os devidos pedidos de aplausos do apresentador, que ainda assim não conseguiu acalmar a platéia, ainda aos gritos de Xoxota, Xoxotaaaaa!

A ESTRANHA PRAGA DOS CACHORROS PERNETAS

Ainda em Barra Grande, fui surpreendido pela quantidade enorme de cachorros que mancavam visivelmente, a maior parte com problemas nas pernas traseiras. Fiquei curioso. Nada levava a crer que se tratasse de alguma doença exótica, que teria acometido praticamente toda a cachorrada do vilarejo. Socorreu-me mais uma vez Lamego ao explicar o aparentemente inexplicável.

Recentemente, me disse, tinham aparecido no vilarejo uns indivíduos, com um novo negócio que agitou os nativos: aluguel de motos. Ninguém precisava apresentar qualquer habilitação, nem mesmo fazer um teste rápido, que demonstrasse um mínimo de conhecimento em pilotar as dita cujas. Bastava pagar e sair por aí. Obviamente, da cachorrada, que desconhecia completamente a existência de tais veículos, muito menos em tal quantidade e com tais pilotos, poucos escaparam, ainda mais porque, intrigados com a súbita aparição daqueles bichos barulhentos, deram também de tentar correr ao lado, ameaçando-os, o que se revelou fatal para a grande maioria. O ápice da praga deu-se quando a padaria, na praça principal, foi invadida por um dos barbeiros, que sem saber como parar a máquina, só o fez depois de estrebuchar-se de encontro ao balcão dos pães, colocando em pânico fregueses e proprietário. 

Assustada, parte da população recorreu a polícia, que mandou um forte destacamento, composto por dois policiais, encarregados de acabar com a bagunça. Pelo sim, pelo não, a praça foi cercada por correntes, impedindo o acesso pelos motoqueiros loucos e os locadores intimados a só alugarem os veículos a quem habilitado o fosse, o que levou a falência imediata do empreendimento.

A REVOADA DE AVIÕES DO PT EM BUSCA DE DUDA MENDONÇA

Essa quem meu contou foi Justino Pereira, fiel militante petista, mas individuo de fino humor e muito curioso. Passando férias no local, decidiu perguntar a um garçom de um dos restaurantes locais sobre o paradeiro de Duda Mendonça que, sabia Justino, ser proprietário de uma exuberante, para dizer o mínimo, propriedade local. Eram tempos de mensalão (quem lembra?) e Duda Mendonça
um dos protagonistas do enredo, com seu franco e inacreditável depoimento na CPI do caso. Corria a boa grande e pequena que, naquela época, Duda encontrava-se recluso na sua propriedade e isso bastou para Justino perguntar ao garçom se ele era visto circulando pelo vilarejo