quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

O HOMEM QUE AMAVA OS CACHORROS

O livro do  escritor cubano, Leonardo Padura, é uma leitura bem atual, recomendada principalmente àqueles que ainda se agarram às velhas e surradas teses do marxismo-leninismo, em especial os comunistas tupiniquins. Uma obra de ficção e não ficção, abordando um fato real: o assassinato, a mando de um dos maiores criminosos do século passado, Joseph Stalin de Liev Davidovitch Bronstein, que ficou conhecido como Leon Trotski. O assassino, Jaime Ramón Mercader del Rio Hernández, assim como Trotski, amava os cachorros,

O texto é primoroso, Padura escreve muito bem, que faz com que avancemos, quase sem perceber, sobre as quase 600 páginas do livro, que conta com um excelente prefácio (Um thriller histórico) de Gilberto Maringoni.

Padura aborda um período que vai da Revolução Russa, de 1917, até os primeiros meses da Segunda Guerra Mundial (1940), um tempo em que a atual configuração do mundo foi traçada. Acompanha o declínio de Trotski, sua peregrinação, como exilado, por vários países, para finalmente chegar ao México, onde é assassinado e, em paralelo, a vida de Ramón Mercader até a sua morte, em Cuba. Ao narrar os fatos pela ótica de um fictício escritor cubano, Padura faz ainda uma importante reflexão sobre a vida naquele país, suas dificuldades econômicas, o sonho “tão cubano” de sair da ilha, os eventuais êxitos e as enormes insuficiências da tal revolução socialista tropical.

Trotski foi, ao lado de Lenin e outros, um dos protagonistas da Revolução de Outubro. No comando do Exército Vermelho, cometeu inúmeros crimes, ao reprimir com mão de ferro, qualquer tentativa que, ao seu critério, ameaçava a revolução proletária. Mas a perseguição implacável de Stalin, extensiva aos seus seguidores, na sua ânsia de domínio para liderar e moldar ao seu gosto, critérios e conveniências, aqueles que acreditavam fazer a “revolução mundial” e exercer um domínio completo e absoluto da União Soviética, não se compara, sob nenhum aspecto, aos desmandos de Trotski quando esteve no poder.

Vale ainda conhecer melhor Ramón Mercader, um catalão, que dedicou toda a sua vida à luta pela revolução. Viveu a Guerra Civil Espanhola, onde se destaca, sendo enviado para a União Soviética, onde seria recrutado pelos serviços secretos. Não era um assassino de aluguel, mas um homem convencido de que o seu crime era necessário, num tempo onde não havia espaço para dissidentes, e estava inserido na luta pela revolução mundial, da qual Trotski, como pintava Stalin, era um dos seus maiores inimigos. Mercader passou vinte anos na prisão, sem jamais revelar nada sobre a sua missão. Só em 1953 a sua identidade foi revelada, mas as suas ligações com a temida NKVD só foram conhecidas em 1990 com o declínio da União Soviética e a revelação de parte dos crimes de Stalin.


O livro de Padura fala de uma disputa aparentemente superada e datada. Mas só na aparência. Os fatos narrados servem para pensarmos melhor sobre o presente e os novos e velhos processos de transformações sociais. E são uma reflexão sobre fatos que podem nos levar a pensar melhor sobre os próximos passos a seguir em busca de um mondo melhor.