quarta-feira, 18 de março de 2015

"NÃO ATENDEMOS GAYS"

Embora seja coisa, digamos assim, de americanos, é bom prestar a atenção, pois ideias ruins tem pernas longas. O legislativo de Oklahoma, um dos mais violentamente conservadores dos Estados Unidos, está inventando um jeitinho muito especial de discriminar a comunidade gay, usando um subterfúgio religioso. Pela medida, ainda em discussão, empresas privadas e entidades governamentais estariam autorizadas a se recusar a prestar serviços aos gays com base em suas crenças religiosas. A lei, mais uma vez: toda atenção é pouca, permite, se aprovada, que qualquer pessoa - é bom repetir - qualquer pessoa, independentemente da empresa ou entidade governamental, possa dar as costas a indivíduos gays, bastando alegar que a sua religião assim o exige.

A coisa ia andando bem, por assim dizer, até que uma deputada, Emily Virgin, resolveu apresentar, inteligentemente, uma emenda, aparentemente inofensiva para o projeto, mas capaz de revelar - claramente - toda a animosidade existente por trás do projeto. Ela quer garantir, caso a lei seja aprovada, que as pessoas saibam quais são as empresas e as agências do governo que se recusarão a lhes prestar algum serviço. Assim, além de evitar a humilhação de ser despachado por conta da sua identidade de gênero, gays e seus aliados poderão facilmente boicotar empresas e serviços, que serão obrigados a colocar o aviso, "de maneira clara e visível para o público em todos os locais da empresa, inclusive em seus websites".

A emenda de Emily Virgin, que se opõe violentamente ao projeto como um todo, é bom enfatizar, teve duas consequências importantes. A primeira foi colocar luz sobre esse tipo de projeto de lei, cuja ideia central é deslocar - como bem ressaltou, Mark Joseph Stern, um colunista da revista online Slate, que cobre ciência, legislação e assuntos LGBT - o preconceito antigay para códigos sem que as pessoas percebam. Com a sua emenda, Emily Virgin, obriga todo mundo a assumir clara e publicamente seus preconceitos, estejam eles apoiados ou não em qualquer legislação retrógrada.

Tudo ainda está para ser aprovado, ou não. Mas serve como exemplo e alerta para qualquer país, onde preconceito e fundamentalismo religioso se confundem e onde sempre, às escondidas ou às claras, sempre existem tentativas de subordinar o Estado e a vida das pessoas às visões sectárias, preconceituosas e reacionárias de grupos.

Olho vivo, pois as ideias ruins tem pernas longas e são sorrateiras como as serpentes.