quarta-feira, 4 de março de 2015

SÃO PAULO, A CAPITAL DO GRAFITE?

A duvidoso título é alvo de um artigo de Roberto Dualibi, publicado (4/03) no jornal O Estado de São Paulo. O publicitário, sócio fundador da renomada agencia DPZ Propaganda, afirma que "a coerência estética de uma cidade pode ser arruinada sem o devido planejamento" e cita o fato de que "sem consultar ningué, os nossos governantes decidiram franquear as fachadas públicas aos multicoloridos grafites". Dualibi, embora emita opiniões sobre o grafite em si, aborda e se indigna, com o fato de se estar entregando a cidade a uma verdadeira sanha grafiteira, sem respeitar, inclusive, acervos arquitetônicos, como é o caso dos arcos da 23 de Maio que, como diz muito bem o publicitário, "deixou de ser histórico e nem pode ser considerado artístico".

O problema, como quase tudo nessa cidade, é que tudo, ou pelo menos quase tudo, se faz sem planejamento. Temos uma ideia! E pronto. "Quem se reuniu com quem para concluir que poluir visualmente toda a cidade era um anseio coletivo?", questiona acertadamente Dualibi. São Paulo possui características arquitetônicas interessantes, que são a sua face, a imagem que desejamos passar a quem nos visita e para quem aqui reside. É a história da cidade, seu passado, seu presente, suas indicações de futuro. Gostaria que alguém me dissesse, sinceramente, que tipo de imagem, representação, nos passa o interior de todo o Túnel 9 de Julho, como destaca Dualibi, no artigo inteiramente pichado, mas parecendo um túnel dos horrores, ou a inacreditável ideia de franquear os Arcos da 23 de maio para os "painelistas", empobrecendo a história da cidade, que já mencionei em um post no Facebook.

É ciclofaixa, grafite, percurso de linhas de ônibus, implantação de parques, construção de casas populares, medidas para estimular o consumo consciente de água, tudo de faz no improviso e na base do acho. No caso especifico do grafite concordo com Dualibi: provavelmente, "neste momento, as únicas pessoas felizes com o que está acontecendo creio são os fabricantes de tintas e latas de spray, que nunca venderam tanto". Além, é claro dos próprios grafiteiros e do pessoal amalucado que os autoriza, acrescento eu...

E ficam três perguntas, para fechar, do arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, feitas em e-mail dirigido ao Blog de Edison Veiga do Estadão:
1. Tratando-se de obra pública, a população foi consultada?
2. Tratando-se de ‘arte plástica’, em espaço público, houve concurso para escolha do projeto?
3. A qualquer cidadão que tenha eleito a pintura como sua ocupação, cabe a prerrogativa de escolher livremente o local para exercer seu talento? Torna-se igualmente grave autoridades se arvorarem em críticos de arte, com tanta obra pública à espera de quem as execute.”


NOTAS:

O Túnel 9 de Julho na Bela Vista foi inaugurado em 1938 e é o mais belo dos túneis paulistanos ligando as zonas sul e oeste até a região central da Cidade de São Paulo. Situa-se na Avenida Nove de Julho, nas proximidades dos bairros Bela Vista, na região central, e Jardins, na zona oeste, fazendo o cruzamento subterrâneo desta avenida com a Avenida Paulista.


Foi construído no local onde existia a antiga Avenida Anhangabaú. Possui duas galerias independentes, cada uma com duas faixas de rodagem. Acima estão a Av. Paulista, ainda o MASP, o Parque Trianon e a Linha 2 do Metrô.



                                                                                    Os Arcos da 23 de maio,
datam dos anos 1920 e ficaram escondidos por seis décadas por cortiços. A importância história do conjunto é atestada pelo Conpresp, órgão municipal de proteção ao patrimônio. Eles são testemunho de uma época e da arte da construção em tijolos, que sucedeu a chamada técnica de taipa de pilão, que caracterizou durante décadas as construções paulistanas.


Construção executada com técnica requintada, os Arcos são um dos melhores e mais autênticos documentos de uma era.