segunda-feira, 20 de abril de 2015

CICLOVIA NÃO É “COISA” DO PT


Ultimamente virou hábito partidarizar toda e qualquer ideia, classificando qualquer proposta
Simplifica-se o debate, mas sufoca-se os argumentos, tudo vira bate-boca de torcida, divide a sociedade em guetos, atropela-se as ideias.
É o que está acontecendo com o “debate” sobre as ciclovias em São Paulo.
Parece que todo mundo que anda de bike ou é favor das ciclovias é petista e eleitor do prefeito. Quem tem qualquer reparo as ciclos, ou anda de carro é do PSDB, coxinha desnaturado.  Tudo errado.
Os buracos, inclusive das ciclovias, são bem mais embaixo.


O debate acirrou recentemente, com uma interferência do Ministério Público Estadual, que paralisava todas as obras cicloviárias da cidade, argumentando falta de planejamento, o que é verdade, mas nem tanto. A Prefeitura conseguiu derrubar a liminar e o alcaide comemorou a decisão com ares de quem tinha vencido uma grande batalha e insinuando que estava tudo certo com os 262 km de ciclovias implantadas, um pouco mais da metade da sua meta de dotar a cidade com 400km de vias exclusivas para as bikes e deixar acertados mais de 1.400 km para o próximo prefeito, seja lá qual for.

Ninguém em seu juízo perfeito é contra as ciclovias, mas a Prefeitura, como quase todo mundo nesse país, não gosta das críticas relacionadas ao modo como vem implantando dita cujas. Do outro lado tem gente disposta até a recorrer a polícia, contra as ciclovias, apelidando o prefeito de Suvinil, acusando-o de autoritário e de não ouvir a população. E ainda veem as bicicletas como uma ameaça a segurança das suas moradias e negócios.

São várias coisas que não estão sendo levadas em conta no debate, que poderia ser útil, se as ideias e argumentos, contra e a favor, não fossem atropelados pelo falso “partidarismo” e radicalização dos argumentos. O primeiros deles é que as bikes não vão substituir os carros, como a administração insinua muitas vezes. O que fará as pessoas desistirem dos seus automóveis será – e unicamente – um transporte público eficiente. Eficiente significa conforto, pontualidade, flexibilidade, segurança e ganho de tempo. Sem oferecer isso as pessoas não farão a mudança. As bikes oferecem tudo isso? Claro que não. Para começo de conversa elas não são um modal de transporte em massa, mas uma alternativa e precisam de uma complementação a ser oferecida pelos outros meios de transporte. As estações de trens e metros precisam de bicicletários, por exemplo, para aqueles que podem percorrer distâncias menores, nas bikes, mas que não se dispõe, nem podem, atravessar a cidade nas magrelas.

Comerciantes e moradores precisam ser convencidos de que ciclistas podem ser benvindos e mais: instrumentos de uma cidade mais civilizada, amena e com lucros e dividendos para o comércio. Isso foi feito em outras cidades e foi sucesso.

A administração também precisa parar de criminalizar que anda de carro, afinal o mesmo partido do prefeito, no governo federal, ofereceu, e ainda oferece, inúmeras vantagens para quem desejar comprar um automóvel.  Além disso, todas as nossas cidades foram planejadas, durante anos e anos, em função do transporte privado. A estrutura de todas elas, a organização, privilegia o carro em detrimento de todos os outros modais. Como fazer com que a população abandone, repentinamente, esse meio de transporte em função de ônibus caindo aos pedaços, com trajetos que só beneficiam os donos das frotas, trens e metros superlotados, com passageiros enfiados em verdadeiras latas de sardinha?

Discutir as ciclovias como “coisa do PT” e tentar enfiar  a pecha em quem anda de carro ou se diz contra elas, como coxinha/classe média/reacionário não vai ajudar São Paulo a ter um sistema de transporte melhor. Não faz mal lembrar que no programa de José Serra, do PSDB,  para concorrer a Prefeitura também, incluía a construção de 400km de ciclovias, que o Gilberto Kassab, sabe-se lá na época de que partido, iniciou a construção de várias delas e que até o governo estadual é responsável por duas, importantes, nas marginais.

Precisamos das ciclovias. Sem boca de lobo, buraco, árvore, poste, poça d’água, falta de sinalização, trajetos polêmicos e desníveis de asfalto. A Prefeitura poderia encarar as críticas e fazer um trabalho melhor. Além de conversar mais com a população e criar incentivos para o uso das bikes, fazendo parcerias com o comércio, criando infraestruturas de apoio, como os bicicletários, por exemplo.

A população precisa exigir meios de transporte melhores, com ônibus modernos, trajetos racionais, mais trens e metro.  As bicicletas não são solução, nem a perdição, para o transporte em São Paulo. Se todo mundo usar o bom senso, sem partidarismo e atropelamento de ideias as ciclovias podem ajudar a transformar São Paulo numa cidade melhor, mais humana, mais agradável de se viver. E ainda devolver para quem faz uso das bikes uma nova perspectiva, um novo ponto de vista sobre a cidade. Ver a cidade sob o ponto de vista do pedestre, promovendo o encontro das diferenças, nas ruas, nas esquinas, retomando uma escala que o carro nos fez perder.