quarta-feira, 6 de maio de 2015

OS ESTRANHOS E TORTUOSOS CAMINHOS DO VOTO


Leitura aligeirada de pesquisas dificilmente refletem o sentimento da população com relação a seus governantes e muito menos a intenção, segura e sincera, do voto. Recentemente me deparei com duas histórias curiosas de como, por razões completamente diferentes do “ideário” dos candidatos, alguns eleitores decidem depositar neles os seus votos. As duas histórias não tem nenhum valor estatístico, são apenas curiosas e divertidas, embora provavelmente reflitam bem como são tortuosos e insuspeitados os caminhos percorridos pelos votos.

IA VOTAR NO HOMEM, VOTOU NA MULHER A AGORA É CONTRA OS DOIS.

Conheço uma senhora, vamos chama-la de F, que é diarista e o marido cobrador de ônibus, moradora da periferia de São Paulo, com um filho adolescente. A família com renda familiar em torno dos três mil reais estava muito satisfeita com tudo, principalmente com os bens recentemente adquiridos, como computador, TV de tela plana e outro eletrodomésticos, inclusive um modesto carro de segunda mão. Fizeram inclusive algumas viagens ao Nordeste para visitar a família. De avião. Aparentemente eleitores do PT. Acontece que, antes das últimas eleições presidenciais, F afirmava categoricamente que iria votar no “homem”, uma aparente contradição, já que se declarava muito satisfeita com a condução do Governo, que tantos benefícios lhe havia proporcionado. Acontece que F estava apenas muito aborrecida com seus vizinhos que, ao contrário dela e do marido, não trabalhavam, vivendo exclusivamente do Bolsa Família. Uma injustiça, aos seus olhos, que culminou com a sua decisão de votar  no “homem”, que a seu ver acabaria com a “injustiça”, dando um fim no tal de “Bolsa”.  Nas vésperas da eleição, F mudou radicalmente de ideia e decidiu votar na “mulher”. Motivo:   “pensei melhor, se o homem ganha, acaba com o Bolsa, aí esse pessoal ia ficar sem dinheiro e terminaria me roubando”.
Em tempo: F já se arrependeu do seu voto. Bastou o aumento do custo de vida, principalmente dos alimentos, para mais uma reviravolta. Hoje ela é mais um dos a favor do impeachment – “a ‘mulher’ sumiu, não está fazendo nada e seria bom que esse tal de impeachment botasse outro no lugar”. Mas faz uma ressalva: desde que – seja lá quem for que vier – não acabe com o Bolsa Família. E que não seja o ‘homem’.  Porque “ele sumiu e não está fazendo nada para melhorar a vida do povo”. Entendeu?

MONARQUISTA, DITATORIAL, PARLAMENTARISTA

Perto de casa tem um serralheiro, que toda sexta-feira promove um churrasquinho de calçada, extensivo aos seus dois funcionários, alguns amigos e mais raramente a eventuais clientes. Conheço o dito cujo meio de passagem, mais de bom-dia e boa-tarde que de qualquer outra coisa, mas de tanto passar pra lá e pra cá, volta e meia recebo o convite: vai uma cervejinha aí, prezado? Outro dia aceitei e ouvi essa, do borracheiro da esquina, participante frequente do churrasco, que se declara monarquista e afirma que votou no “Jorge, aquele maconheiro, que é pra tudo virar logo uma esculhambação geral”, as últimas eleições.

Segundo ele, com a concordância geral, todos os políticos são ladrões. E a solução para o Brasil seria ter um Rei, “como lá nos ingleses”, mas com um “tipo assim gerente” para tomar conta das coisas – o Rei ficaria fiscalizando tudo, de cima – com a ajuda de umas 10 pessoas (no máximo, fez questão de frizar). Não precisa de senador, deputado nada disso. Nos Estados o mesmo modelo, um governador, nomeado pelo Rei, com o seu “gerente” e uma meia dúzia de gente pra ajudar. O “parlamentarismo” estaria restrito aos municípios. O governador nomearia o tal gerente e a população elegeria os tais seis ajudantes, que poderiam desempregar o gerente se ele não estivesse trabalhando direito e pedir ao governador que nomeasse outro.

Os detalhes causaram certa polêmica, mas em linhas gerais todos concordaram que o negócio de um ter um rei mandando em tudo, poderia ser bom, pois acabaria com esse negócio de políticos e essa quantidade enorme de partidos que só servem para roubalheira. Como a carne e as linguiças já estavam no ponto e com a abertura de mais cervejas a discussão foi encerrada, com a reafirmação de tem mesmo é de acabar com esse negócio de políticos, eleições e partidos. Mas se o rei fizer merda, como é que fica, perguntei. Ah, aí chama os militares e tira ele. Ah, bom. Tudo resolvido.

Pois é, são tortuosos e enganadores, muitas e muitas vezes, os caminhos que levam aos votos do ‘homem’, da ‘mulher’, do ‘maconheiro’ e muitos outros. Sem compreender isso direito muito candidato está comprando gato por lebre, achando que tem um capital de votos inexistente e deitando uma falação sem nenhuma aderência do eleitorado.

PESQUISAS POLÍTICAS... AH, AS PESQUISAS.


Faz tempo que nos acostumamos com as “análises” das pesquisas nas áreas de política e administração pública, na maioria das vezes, debruçadas unicamente para os números frios e secos. X por cento são a favor disso ou daquilo, X por cento aprovam ou desaprovam determinado governo e, geralmente, ficamos por aí. Recentemente pesquisas afirmam que mais de 60% por cento dos brasileiros são a favor do impeachment da presidente. Será?

A meu ver temos dois problemas na análise dessas pesquisas. O primeiro deles é o bordão, recitado à exaustão por pesquisadores e profissionais do marketing políticos, de que as pesquisas são um retrato do momento – já vamos a ele. O segundo é que, poucas vezes, pouquíssimas vezes mesmo, se procura ver o que há, de verdade, por trás dos números secos e frios.

No primeiro caso o bordão é – se me permitem – verdadeiro e falso ao mesmo tempo. Na verdade o que profissionais do MKP e pesquisadores querem dizer é que “em 20 minutos tudo pode mudar”. Portanto não entendam os números como permanentes e imutáveis e não me responsabilizem por mudanças. O problema é que as pesquisas são um retrato, é verdade, mas não daquele momento, mas de um outro, que já passou. Não existe presente sem passado, nem futuro. Quando as pessoas respondem a qualquer questão elas estão considerando as suas experiências passadas, não importa se muito recentes, pouco recentes ou do passado remoto. E a partir de uma situação/experiência que deseja um determinado futuro. É nesse sentido que as pesquisas podem ser, efetivamente, “retrato de um momento”.  Mas se não houver um “pensar” sobre o que levou (passado) as pessoas a responderem de uma determinada maneira à questão proposta e não se levar em conta o que ela está sinalizando para o futuro, o tal “retrato do momento” pode levar a erros.

Não é a toa que as tais pesquisas de “boca de urna”, muitas e muitas vezes desmentem categoricamente as anteriores, numa reviravolta de resultados que fazem com que muita gente fique desconfiada dos institutos e seus analistas. Todos parecem esquecidos de que as anteriores eram apenas um “retrato de um momento” no passado, que já era passado no momento de sua divulgação.

Sem uma análise/conhecimento mais profundo dos motivos que estariam levando determinados segmentos a votar neste ou naquele candidato, serem a favor ou contra determinada ideia ou projeto, os números frios/secos certamente levam a formulação de discursos e plataformas equivocados.

Outra questão, fundamental, é sequência. Só baterias sequencias de pesquisas, onde se pode avaliar tendências e oscilações de opiniões, podem permitir um conhecimento efetivo da realidade. Infelizmente no Brasil, no caso mais especifico do MKP, debruça-se sobre pesquisas quase que exclusivamente no período eleitoral. Quando muito um pouco antes. E a ênfase é muito mais na tendência de votos e na identificação simplista dos “problemas a serem resolvidos”.

A ânsia de estar conectado e em concordância com o que se imagina que a população quer também é problema. Por exemplo, a maioria da população se diz hoje, a favor da redução da maioridade penal. E aí lá se vai o sujeito alardeando a sua concordância. Mas vai que – de repente – melhoram as condições da segurança pública e os ventos mudam, já que – ainda hipoteticamente – as pessoas estavam apenas exprimindo o seu desconforto com a violência. O resultado é que o apressado pode se ver falando sozinho no futuro.

Pesquisas quantitativas, por si só, não dizem muita coisa. Assim como qualitativas superficiais também não levam a nada, principalmente se a ideia for apenas “coletar problemas” para serem quantificados posteriormente. A combinação constante e científica dos dois modelos, com a construção de cenários que permitam ver o que aconteceu no passado, que está a influenciar o presente, formando as expectativas/perspectivas de futuro é que podem fornecer os elementos necessários para uma compreensão correta da realidade e permitir que sejam traçadas políticas com o olhar à frente e não no retrovisor. O resto pode servir apenas como enganação e levar a resultados completamente antagônicos aos que se deseja alcançar. Depois não adianta nada dizer que as pesquisas estavam equivocadas.




OPERAÇÃO ZELOTES: NINGUÉM LEMBRA DE MIM.

 Todos os dias somos bombardeados (surpreendidos não é o caso) por novas denúncias de corrupção e bandalheiras. Corriqueiras, já nem chamam tanto a atenção, nem escandalizam como deveriam. Uma delas, talvez, por ser absolutamente sem graça, quase anônima é a Zelotes, embora o rombo, nas finanças públicas, deixe qualquer mensalão parecendo coisa de meliante pé de chinelo, com as primeiras estimativas girando em torno de 19 bilhões de reais.

Zelotes é aquela operação silenciosa, sistemática, que não vai para os cofres dos partidos e alimenta apenas alguns poucos privilegiados com suborno. Talvez por isso seja tão sem graça e aos poucos vá perdendo força nos noticiários.

O esquema também é simples, embora só envolva gente grande. Empresas que devem ao Fisco, milhões evidentemente, repassam uma propinazinha para consultores e conselheiros do Conselho de Recursos Fiscais (Carf) da Receita Federal, órgão encarregado de “rever” as autuações das grandes empresas, pegas burlando o Fisco. Grandes milagreiros, funcionários de carreira da Receita e da Procuradoria Geral da Fazenda Nacional, transformavam em zero, ou pelo menos em coisa pequena, os débitos milionários.

Nada que estivesse ao alcance dos reles contribuintes, os chamados “coitadinhos, os únicos que pagam imposto e que não podem fazer acordos ou negociatas. Os grandões passam tudo livre, tudo isento de imposto”,  segundo uma gravação feita pela Polícia Federal, de telefonema grampeado de um dos conselheiros do “tribunal” da Receita Federal.

É a boa e velha corrupção, sem complicadas operações financeiras, sem sofisticação, sem caixa dois de partido, financiamento de campanha eleitoral, nada que estimule a imaginação ou apimente o cenário político. Não se preocupa com o partido eventualmente no poder, não leva multidões às ruas, não ganha hashtags, não tem página de protesto no Facebook, muitas vezes nem merece notícia. Mas é coisa de gente grande, que corrói, talvez como nenhuma outra, os cofres públicos, tirando dinheiro da saúde, das escolas, dos hospitais e que ironicamente, aumenta os impostos, dos coitadinhos, é claro.

Seria bom se – mais serenos, menos partidários – prestássemos também atenção a esse tipo de corrupção, que com certeza absoluta não é nova, nem é do FHC nem do Lula, vem de gente/empresas que poderiam perfeitamente pagar seus impostos, mas estão mergulhados na mais vil das corrupções, sem cara, sem partidos, sem ideologia, sem graça, sem nada. Mas corroendo como nenhuma outra os cofres da nação. Seria bom ficar de olho.

O FRACASSO DO FIES


Criado para permitir o acesso dos mais pobres à universidade, os imensos recursos investidos no Fies, sem fiscalização e padrões adequados, transformou o ensino superior num grande negócio. Hoje a maior parte dos seus alunos tem renda familiar superior a 20 salários mínimo e aptos, portanto, a pagar escolas privadas. Grande parte da renda das universidades que aderiram ao programa vem do lucro sem risco, garantido pelo dinheiro do Estado.

Ganhos da iniciativa privada versus perdas de dinheiro público seriam aceitáveis se as escolhas estudantis recaíssem sobre áreas estratégicas e estivessem efetivamente voltados para os mais carentes. Acontece que as áreas mais procuradas estão longe dos saberes tecnológicos, de áreas que produzissem efetivos conhecimentos para o progresso do País. Mas o que se vê são 1/3 dos contratos do Fies indo para direito, administração e enfermagem, enquanto matérias próximas ao que seria o “eixo do desenvolvimento” apenas engenharia civil apresentou algum crescimento.

A autonomia das universidades privadas também sofreu com a ingerência do governo, que freou repasses, intrometeu-se no valor das mensalidades, colocou condições para a formação acadêmica, definindo graus de avaliação e coeficientes nos exames públicos. Com isso foram afetadas financeiramente, e não apenas nas áreas discentes e funcionais, ao ponto de pressionarem o MEC para amenizar suas restrições e continuarem obtendo os seus lucros financeiros

Mas, o mais grave é que enquanto as universidades particulares ganham em volume, com cursos de baixa qualidade, salários parcos e lucros altos, muito altos, as universidades federais estão a míngua. Mesmo com uma certa redução dos aportes federais, o negócio do crédito educativo privado tem se revelado um excelente negócio, atraindo bancos e outros financiadores de escolas.

Fossem esses extraordinários recursos aplicados nas universidades federais, que deveriam estar voltadas, efetivamente, para aqueles alunos que não podem pagar uma instituição privada e liderando o ensino e pesquisa no País, estaríamos bem melhores. Quando um governo se guia apenas pelo seu dogmatismo pseudamente ideológico e não ouve ninguém o resultado é esse. Agora se vê às voltas com medidas de ocasião para tentar consertar o mal feito, mas talvez seja tarde para salvar o programa e os estudantes carentes que foram de fato abandonados.

FINANCIAMENTO PÚBLICO DE CAMPANHAS: VERDADES E MENTIRAS


Opinião é que não falta, mas, sem dúvida, a doação por parte de empresas e grupos econômicos, tem sido eleita como a grande vilã do processo, aliada ao “alto custo” das campanhas. E o tal de financiamento público surge como solução mágica para o processo, sem que ninguém, ou poucos, se deem conta das intenções, nem sempre nobres, que estão por trás da proposta.

Fala-se de financiamento público como se ele já não existisse, o que não é verdade. Existe isenção fiscal para as emissoras de rádio e TV que transmitem o tal “horário gratuito” e o tal fundo partidário, na casa dos milhões, tudo financiado, em última instância, pelo distinto público. E do jeito que se está desenhando, a tal de reforma vai beneficiar partidos bem específicos, deixando outros fora do processo, por um longo período, como veremos em seguida.

Pelo critério – já existente – as legendas que captaram mais votos, na eleição imediatamente anterior para a Câmara dos Deputados, receberiam mais dinheiro público. Mudanças posteriores na disposição do eleitorado não afetariam a distribuição dos recursos. Dessa forma, a distribuição do dinheiro trabalharia para beneficiar o partido que tivesse obtido maior êxito na eleição anterior, impedindo uma mudança significativa na distribuição das forças políticas na Câmara. Vamos a um exemplo: hoje o PT tem a maior bancada na Casa, mesmo que os eleitores decidam dar ao partido menos votos que os da eleição anterior, ele terá um repasse de dinheiro calculado pelo seu desempenho nas eleições de 2014. E assim terá chances reais de fazer uma bancada, mais uma vez, maior.

Além disso, a existência de uma “militância” dedicada será um fator a ser levado em conta, com a substituição pura e simples do financiamento privado pelo público. Evangélicos, por exemplo, que contam com um eleitorado semi-cativo, teriam uma vantagem significativa sobre outras lideranças política, assim como os chamados partidos de esquerda, que detém o controle de organizações de massas, como sindicatos e as chamadas organizações sociais. Dessa forma, quanto mais restrições às contribuições privadas, mas esses partidos terão vantagens dobre os demais. Não é a toa, portanto, que o PT esteja demonstrando tanto entusiasmo pela substituição do modelo atual, embora tenha se beneficiado, e muito, no passado recente, com o financiamento privado.

Duas outras coisas que merecem ser desmitificadas são a questão de quanto, na verdade, o dinheiro ajuda a vencer eleições e os custos, altos, das campanhas, na maioria das vezes tido como “coisa de marqueteiro” ou simplesmente “abuso de poder econômico.

Vamos à primeira: enquanto partidos, se olharmos a história recente das agremiações, é possível perceber que a ascensão e declínio das legendas indicam, na verdade, que é o fortalecimento eleitoral que atrai o dinheiro e não o contrário. Dois exemplos: não foi por falta de dinheiro que o PFL-DEM encolheu, nem foi por conta de grandes recursos financeiros que o PT cresceu. Na verdade o PT cresceu saindo de um mínimo de recursos, que começaram a chegar à medida em que o partido foi crescendo. O êxito político fortalece a contabilidade, que, por sua vez, ajuda o partido a crescer ainda mais. Não se conhece casos em que a injeção pura e simples de dinheiro tenha transformado partidos nanicos em gigantes eleitorais.

A segunda coisa é o “custo das campanhas”. Existem dois fatores determinantes: o modelo atual e a questão geográfica, o gigantismo do País. E a discussão sobre isso pode se transformar em um tratado acadêmico gigante. O período legal para a realização das campanhas tem influência. Ao contrário do que se imagina quanto mais reduzido o tempo mais recursos financeiros são necessários. O modelo dos programas eleitorais é outro fator. Montar uma verdadeira “estação” de rádio e TV, acoplada a uma mini “agência de propaganda” custa caro, e muito, além da quantidade de dias dedicados ao “horário gratuito”. Percorrer o Brasil e/ou seus Estados gigantescos, alguns bem maiores que muitos países também não é barato. Para ficar apenas num exemplo aleatório: alguém imagina um candidato a presidente, com sua equipe, viajando pelo Brasil afora em aviões de carreira?

Pensar pequeno, sem avaliar as vantagens que cada agremiação pretende ao defender essa ou aquela mudança na legislação, principalmente na base dos “puxadinhos” de conveniência, mudando aqui e ali, aspectos e “pedaços” das leis vigentes, não vai ajudar muito no aprimoramento do processo. E pior, vai exigir sempre novos ajustes, sem que o eleitor sequer se “acostume” com um determinado modelo. Precisamos aprimorar o processo, sem dúvida, mas é preciso que se pense e repense o modelo, com calma, consultando a sociedade e avaliando os prós e os contras. Sem isso o que vamos construir é mais um monstrengo, que não vai favorecer em nada a democracia e muito menos a lisura do pleito.

É O ALGORITMO, ESTÚPIDO!


A União Europeia está em pé de guerra com o Google. Com o padrão monopolista, não apenas do Google, que domina a web e é ruim para o mercado e para os usuários.

Alegam que o site faz uma concorrência desleal com os seus colegas europeus e mais: direciona as buscas de acordo com as suas conveniências comerciais.

Você pode até achar que não tem nada com isso, mas tem. Na verdade quando você digita uma palavra, em busca de resultados, o Google lhe dá respostas de acordo com os seus (lá dele) interesses comerciais. Os resultados apresentados podem até lhe serem úteis, mas existem outros, talvez melhores, ou não, mas que “selecionados” pelo Google “sabotam” o nosso poder e a possibilidade de diversidade de experiências.

O ideal é que todos nós tenhamos acesso, fácil, que fique bem claro, a outras alternativas de consulta e de busca, que permitam que o leque seja mais aberto. O monopólio real do Google impede isso. E é exatamente aí que está a polêmica da comunidade europeia contra o gigante americano.

Não é possível que nossas informações, compras, pesquisas e comunicações estejam restritas, nas mãos, de uma única empresa. É extremamente difícil – e a prática tem demonstrado isso – pressionar um gigante desse porte, praticamente a única opção para determinados serviços.

Na década passada existiam (ainda existe, mas sem presença marcante) outras alternativas de navegadores, como o norueguês Opera e na era pré-mobile o Internet Explorer da Microsoft, que já foi praticamente o navegador preponderante. Temos por aí, ainda, além desses, o Firefox e o Safari da Apple, mas nada se compara a zona de conforto que é usar o Chrome, com sua integração com o leque de serviços do Google, como o Gmail, YouTube, Google Maps e GoogleShopping, entre outros produtos.

O padrão monopolista não é exclusivo do Google. O Android, que detém quase 70% do mercado europeu também está sendo investigado. E temos ainda a grande loja do “quase tudo”, no dizer do colunista Camilo Rocha, a Amazon e a preponderância do Facebook nas redes sociais, por exemplo.

Um bom exemplo disso, citado pelo mesmo colunista, em artigo recente, é o MetalFilter, um blog comunitário americano, com bom tráfego, que estava afetando as receitas do GoogleAdSense. O algoritmo do Google simplesmente rebaixou o MetalFilter nos resultados de buscas e os anúncios foram caindo. Sem alternativas o MetalFilter pode encerrar suas atividades em breve. É só um exemplo, bem específico, por sinal, mas você pode ampliar isso para qualquer outro segmento ou esfera. É o algoritmo, que pode se transformar, eventualmente, no grande vilão da web, principalmente quando manipulado por monopólios de qualquer espécie. São os novos tempos, dos quais muitas vezes sequer nos damos conta do quanto eles podem estar influenciando as nossas vidas.



DIREITA, ESQUERDA, CENTRO, VOLVER


Estamos vivendo um fim de um ciclo, representados por 12 anos de um Governo tido como de “esquerda”, seja lá qual for o resultado do tal ajuste fiscal e das eleições de 2018. O PT, gostem ou não, jamais será o mesmo. O que, obviamente, não impede o partido de se reinventar, mas isso é outra história. Com as esquerdas (o PT e seus satélites) em baixa, ficam duas interrogações: quem representará a “nova” esquerda e quem vai se apresentar, como alternativa, representando a “direita”, rótulo que provoca urticárias em todos os partidos e políticos?

Um fato é certo: quanto mais baixo o apoio ao PT e seus aliados fiéis, mas cresce a busca por um campo oposto. Mas quem faz esse contraponto? O mais adequado seria o PSDB, certo ou equivocadamente classificado, ou tratado, como de “direita”, mas que não se assume como oposição (com projetos claros), oscilando, ora no franco combate, ora no cantinho, escondido, como se convencionou chamar, em cima do muro.

Os outros podem ser divididos em grupos: o PT e os satélites, entre eles o mais “brilhante”, o PC do B. Numa espécie de centro-esquerda, querendo ser independente, mas oscilando de um lado, pro outro, o PSB.  E tem os que tentaram se firmar como a direita moderna, como o antigo PFL e o seu filhote o DEM, que não consegue se firmar. Temos ainda o bloco do pessoal que está na política apenas para levar alguma vantagem, tipo o PP. Ah, direis, mas os demais o que são? Nanicos, que ainda não se firmaram, nem do lado de cá, nem do lado de lá, em que pesem suas tendências intrínsecas. Resta ainda, é claro, o PMDB, mas o PMDB é algo à parte. É, digamos assim, um partido em prontidão. Pode servir à esquerda, à direita, ao centro, tudo depende da ocasião. Além de ter uma cor especifica para cada Estado onde atua.

Mas quem afinal será o herdeiro do novo ciclo que se desenha?

Uma das características desses novos tempos é a ausência/inexistência de novos líderes. O PT não tem mais nada a oferecer que não um “volta Lula”, o que talvez não atenda mais o eleitorado, cada vez mais inclinado à direita. A dita cuja não tem nenhuma liderança a oferecer. “Caçadores de marajás”, ou coisa equivalente a lá Collor, não cola mais, a não ser que tenhamos uma reviravolta completamente atípica na economia. Tipos a lá FHC também não estão disponíveis em nenhum agrupamento.

Apesar de tudo isso e – principalmente do cansaço da opinião pública – vamos ainda, por um bom tempo e apesar de mais um ciclo se fechando, ter de aguentar a polarização entre PT e PSDB. O PT tem que se reinventar, reconquistar as esquerdas e os eleitores que ganhou em 2012 e perdeu. O PSDB precisa manter os seus eleitores tradicionais e tentar fisgar os eleitores perdidos pelo PT, acolhendo ainda por cima o eleitor de direita que só quer ver mesmo o “fora esquerda”.

O que virá? Só mesmo o tempo dirá.

OS CICLOS DA REDEMOCRATIZAÇÃO:

JOSÉ SARNEY: o homem da Arena, aliado dos militares, alçado à presidência com a morte de Tancredo, surge como elemento conciliador, negociando a implantação efetiva do presidencialismo via eleições diretas.
FERNANDO COLLOR: o jovem, o novo, a “direita moderna” a ruptura com o passado, “caçador de marajás”. Deu-nos o primeiro e único, por enquanto, impeachment da nossa história.
ITAMAR FRANCO: representa bem a transição pacífica, a passagem de uma crise política séria (o impeachment do Collor) para uma normalidade democrática e estabilidade econômica, com a implantação do Plano Real.
FERNANDO HENRIQUE: o pragmático, fez o que precisava ser feito, com um primeiro mandato marcado pela estabilidade econômica. Apesar dos problemas com o segundo mandato, manteve a normalidade democrática e passou, sem traumas a faixa presidencial para Lula.
LULA: o líder de massas, a vez das esquerdas. A ênfase nos programas sociais, surfou no momento econômico favorável, conseguindo a inclusão e a ampliar a melhoria das condições de vida de milhões de brasileiros. Faz um segundo mandato mais complicado, mais ainda exitoso.
DILMA ROUSSEFF: mulher, a “gerontona”, que iria fazer um governo mais técnico, dando um “chega pra lá” nos vícios da política, mantendo e ampliando as conquistas do seu antecessor. Deu no que deu.

CONSUMIDORES PESSIMISTAS FOGEM DAS MARCAS MAIS CARAS


Pesquisas realizadas recentemente, por vários institutos (*) revelam que o consumidor brasileiro está mais que pessimista, segurando gastos e procurando as marcas mais baratas para fazer economia.

Os dados revelam que 55% dos consumidores acham que as perspectivas de emprego vão piorar contra 34% que acreditam na possibilidade de melhora. 10% não sabem/não responderam.
79% acreditam que os preços continuarão a subir, contra apenas 12% que acham que irão parar. Nesse caso 9% não sabem/não responderam .

Para fazer frente a esse tempo que exige aperto na economia doméstica, os consumidores estão restringindo suas compra. Nos supermercados comprando menos. Nos alimentos a redução é de 17%, nas bebidas não alcoólicas 16%, nas cervejas 15%, produtos de limpeza 13% e higiene e beleza 8%.

Para economizar nos supermercados 41% já abandonaram as marcas tradicionais e dirigem suas compras para as mais baratas. Só 20% pretendem se manter fiéis as marcas líderes, mas reduziram as quantidades. 30% estão deixando de comprar alguns produtos e só 7% estão mantendo produtos e marcas.

Como quase tudo nessa vida, a crise também tem dois lados. Os fabricantes dos produtos considerados “premium” estão tentando cortar custos e racionalizar a produção para evitar aumentos, mas sorrindo mesmo esta o pessoal das marcas mais baratas, que a crise está favorecendo com o aumento nas vendas. Para melhorar ainda mais a performance estão aprimorando produtos, tentando ser mais atraentes, não só do ponto de vista de preços.

Os supermercados, por outro lado, estão investindo pesado em marcas próprias, oferecendo alternativas que caibam no bolso do consumidor e o setor de fast-food, cujo crescimento no ano passado andou para trás,  vive uma onda de promoções.

São os consumidores, a indústria e o comércio lutando para sobreviver e fazendo sacrifícios, enquanto isso, lá nos planaltos da outra vida, pouco, ou nada mesmo, se faz para economizar e cortar custos.


* Data Popular, Nielsen e Euromonitor

AINDA SOBRE WYLLYS E BOLSONARO


Recentemente compartilhei um texto, de Victor Mascarenhas, na Gazeta dos Buzios, via Aninha Franco, sobre a simbiose existente entre os dois parlamentares e de como o bate-boca, e briguinhas de ocasião, da dupla têm alavancado os seus votos. Vale ler, está na minha time line. Mas o comentário aqui é a respeito de como os dois usam, com maestria, as redes sociais e os factoides para se manterem ativos e divulgarem suas “ideias”, de forma bastante diferenciada dos seus colegas parlamentares.

Assim como, quase, todos os demais políticos, Wyllys e Bolsonaro estão presentes nas redes sociais, com sites, Facebook, Twitter, Instagram, YouTube e o que mais estiver disponível. A diferença entre os dois e os demais colegas está na forma como usam, com muito sucesso esses instrumentos, conseguindo, inclusive, ótimos espaços na mídia tradicional.

O fato é que, independentemente de suas respectivas posições, a dupla tem muito a ensinar em termos de comunicação e marketing político. Encontraram um nicho no “mercado”, dedicam-se com afinco aos seus respectivos públicos e conseguem estar sempre em evidência, aproveitando quaisquer evento ou fato que os ponham em destaque, preferencialmente na grande mídia, ou – pelo menos – nas redes sociais.

O acerto dessas “políticas” são testemunhados pelas urnas. Wyllys disputou o seu primeiro mandato em 2010, logo após vencer o BBB. Celebridade de ocasião, obteve um pouco mais de 13 mil votos, sendo eleito graças ao coeficiente eleitoral do seu partido, com os votos de Chico Alencar. Na mesma época Bolsonaro já tinha um melhor desempenho, eleito com cerca de 120 mil votos. Quatro anos depois Jean Wyllys salta dos 13 mil para quase inacreditáveis 144 mil, tornando-se o sétimo mais votado do Rio de Janeiro e Jair Bolsonaro sai dos 120 mil para nada menos de 464 mil votos, ocupando o primeiro lugar.

Factoides fazem parte do repertório dos dois e com muita propriedade. Wyllys conseguiu com um sento-não-sento ao lado do Bolsonaro, em recente viagem Rio/Brasília, estar presente em todas as mídias, além de gerar milhares de posts na redes sociais. Bolsonaro não é tão criativo, mas não perde uma. Recentemente desafiou Jô Soares para um debate e conseguiu bastante espaço, sem falar na sua controvertida frase sobre os pendores físicos da colega Maria do Rosário, outra que não deixa passar uma oportunidade sequer de promover seu desafeto.

A dupla, também, jamais hesita em colocar e defender claramente as suas posições, sem medo de polêmica ou críticas, embora, é óbvio, haja uma diferença abissal entre o que defende Jean Wyllys e Jair Bolsonaro. Mas ninguém pode alegar que desconhece as posições e ideias de cada um deles. Quem vota em qualquer um dos dois sabe muito bem em quem está votando.

Ao contrário da maioria dos parlamentares que usam as redes sociais de forma enfadonha, desfilando sem nenhuma criatividades os seus feitos e andanças, a dupla, ideários à parte, são um ótimo exemplo, para os demais colegas (noves fora a briguinha entre os dois, apesar dos efeitos positivos para a dupla) de como o bom uso das redes sociais e o alinhamento praticamente perfeito com o que pensam os seus respectivos públicos resultam em sucesso garantido nas urnas, fidelizando e ampliando o número de eleitores.

QUEM SÓ SE COMUNICA SE TRUMBICA . APRENDENDO COM GOEBBLES.

Lido ou não, Joseph Goebbles, tem inspirado – e muito – a comunicação política nos quatro cantos do mundo. A sua provavelmente mais famosa frase, de que uma “mentira contada mil vezes, torna-se realidade”, tem servido de “inspiração” para “marqueteiros” e políticos que não avaliam, no entanto, os riscos, enredando-se em exageros tão descabidos, que impedem as suas mentiras, por mais repetidas que sejam, de se tornarem verdades ou a má qualidade do invólucro da mentira, que de tão ruim perde a credibilidade. Sim, senhores, até para mentir é preciso ser criativo e ter pelo menos um pé na realidade. E é o próprio Goebbles que ensina.

Goebbles, com seu amigão e mentor.
É muito comum achar, principalmente no marketing político, que uma boa comunicação resolve tudo, ou quase tudo. Gobbles, nos ensina, no entanto, que “quando se faz um bom governo, uma boa propaganda é consequência. Uma coisa segue a outra. (Mas) um bom governo sem propaganda se sai melhor do que uma boa propaganda sem um bom governo”. Eis aí o cerne da questão. A realidade se impõe, até mesmo para o “pai da mentira” isso é verdadeiro.

Bem resumidamente: mentir é perigoso, mas pode dar certo por um tempo, desde que o  agente emissor seja criativo e hábil, mas não se sustenta, indefinidamente, sem que a mentira esteja apoiada, minimamente que seja, no mundo real.

As pessoas podem acreditar, por um bom tempo, numa mentira que repetida tantas vezes pode se transformar numa verdade. As pessoas podem, durante um bom tempo, fazerem uma boa ideia (aprovarem um governo) ainda que ele não seja um bom governo, desde que a sua propaganda seja boa. Tudo bem, tudo certo. Mas não há como fazer isso indefinidamente.

As mazelas econômicas de um país qualquer, podem ser atribuídas a inimigos internos e externos. A “empresários desonestos e ao imperialismo ianque”, por exemplo. Isso pode servir, ainda que seja uma desculpa deslavada, para justificar a incompetência em lidar com a economia, por algum tempo ou até mesmo por muito tempo, principalmente se houver uma massa de beneficiados, gente que ascendeu econômica e socialmente em período anterior, antes que os “empresários desonestos e os imperialistas ianques” tomassem de assalto o nosso hipotético país. Mas, as dificuldades impostas no dia-a-dia tendem, mais cedo ou mais tarde, a desmascarar essas desculpas/mentiras. No mínimo a população vai chegar a conclusão de que o governo é incompetente para gerir as ameaças e complôs dos inimigos internos e externos e que o hipotético país precisa de um outro governo mais efetivo.

A longevidade da mentira política deve-se a sua criatividade. Da possibilidade de unir, ou apropriar-se, de um mínimo de realidade para construir a grande inverdade. É preciso ganhar as pessoas para uma ideia de forma tão sincera, com tal vitalidade, que, no final, elas sucumbam a essa ideia completamente, de modo a nunca mais escaparem dela, afirma o pai da mentira política.

Os ensinamentos estão aí, mas convém que os “mentirosos” se acautelem. Pois mais cedo ou mais tarde serão desmascarados e podem ter um destino bem trágico, como aliás, teve, o pai da mentira.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

POUCA GENTE NOTOU, MAS A REFORMA POLITICA JÁ COMEÇOU.


Cantada em versos e prosas e vista como uma das soluções mágicas para esses tempos de crise político/institucional, a reforma política já está em andamento, com a aprovação no Senado do voto distrital. Ainda que inicialmente restrita a eleição dos vereadores de municípios com mais de 200 mil eleitores, se aprovada pela  Câmara, será uma revolução no processo eleitoral brasileiro.

Como quase todas as leis aprovadas pelo Congresso o texto, que o Senado enviará à Câmara, é impreciso e não estipula regras claras de como será a divisão dos distritos, deixando a tarefa para os tribunais eleitorais, que passarão, assim, a ter um poder inédito para determinar não apenas a lisura do pleito, mas de influenciar, decisivamente nos seus resultados.

As estimativas são que a maioria absoluta dos atuais vereadores não consiga se reeleger e que, provavelmente, a maioria deles será injetada da política.

Além disso, o voto distrital vai implicar na redistribuição de poder entre os partidos, favorecendo a polarização partidária, contribuindo para o enfraquecimento dos pequenos e, talvez, até mesmo dos de porte médio.

A maioria dos vereadores das cidades maiores não vence nas zonas eleitorais. O voto é disperso. Acrescente-se ainda o fato de que muitos brasileiros não votam nos distritos onde residem de fato, já que isso – até hoje – não foi importante e não tem relação direta com o voto.

Pela nova lei, no entanto, cada cadeira da Câmara Municipal será ocupada pelo vereador mais votado em cada distrito. Para isso a Justiça Eleitoral precisa dividir as cidades em uma quantidade de distritos equivalente ao número de vereadores atual, todos com a mesma quantidade de eleitores, com no máximo uma diferença de 5% entre eles.

É nesse “desenho” que reside o poder atribuído pela lei aos tribunais eleitorais. É possível desenhar o mapa de modo a concentrar eleitores de determinado partido em vários distritos e/ou dispersar os eleitores de outro entre muitos distritos. Tomado o cuidado, por exemplo, de fazer com que determinado partido consiga que seus candidatos sempre alcancem a maioria em cada área é possível, desde que esses candidatos vençam por um voto apenas de diferença em 80% dos distritos, para que eles ocupem 80% das cadeiras da câmara, mesmo que tenham recebido menos da metade dos votos totais.

Parece complicado? Na verdade todos esses dados estão a disposição dos tribunais eleitorais. O trabalho resume-se, apenas, à pratica estatística, a combinar os dados das últimas eleições e relocar eleitores das atuais zonas eleitorais. Pode não ser absolutamente preciso na primeira tentativa, mas na segunda, no máximo na terceira eleição tende-se a chegar a perfeição.

A manipulação dos distritos é conhecida, faz tempo, na verdade desde 1812, nos Estados Unidos, onde ganhou até nome próprio: “gerrymandering, em homenagem a Elbridge Gerry, governador do Estado de Massachusetts, que redesenhou os distritos para favorecer o seu partido. É uma mistura de Gerry com “mander”(de salamander / salamandra em inglês, em alusão ao formato com que os distritos de Boston ficaram parecidos depois da manobra).

Na edição de 4 de maio, por exemplo, o Estadão fez uma simulação usando apenas dois partidos, em 55 distritos da cidade de São Paulo. Conforme o "desenho", dois resultados diferentes foram conseguidos. Em um venceu o PT em 29 distritos, contra 26 do PSDB. No outro o PSDB venceria em 28, contra 27 do PT, os dois únicos partidos utilizados na simulação. É evidente que com a participação de outras agremiações o resultados seria diferente, mas serve para demonstrar como o "desenho" dos distritos pode mudar o resultado de uma eleição.

Por aqui, portanto, é aguardar para ver como ficarão as coisas. Talvez, quem sabe, depois dessa experiência, as pessoas passem a ver com mais cuidado as tais propostas de reforma política, com menos clima de torcida de futebol, mais atentas às consequências de reformas feitas no afogadilho e que muitas vezes – em vez de benefícios e lisura para o processo – trazem mais problemas, geram insegurança e permitem manipulações antes insuspeitadas.