quarta-feira, 6 de maio de 2015

PESQUISAS POLÍTICAS... AH, AS PESQUISAS.


Faz tempo que nos acostumamos com as “análises” das pesquisas nas áreas de política e administração pública, na maioria das vezes, debruçadas unicamente para os números frios e secos. X por cento são a favor disso ou daquilo, X por cento aprovam ou desaprovam determinado governo e, geralmente, ficamos por aí. Recentemente pesquisas afirmam que mais de 60% por cento dos brasileiros são a favor do impeachment da presidente. Será?

A meu ver temos dois problemas na análise dessas pesquisas. O primeiro deles é o bordão, recitado à exaustão por pesquisadores e profissionais do marketing políticos, de que as pesquisas são um retrato do momento – já vamos a ele. O segundo é que, poucas vezes, pouquíssimas vezes mesmo, se procura ver o que há, de verdade, por trás dos números secos e frios.

No primeiro caso o bordão é – se me permitem – verdadeiro e falso ao mesmo tempo. Na verdade o que profissionais do MKP e pesquisadores querem dizer é que “em 20 minutos tudo pode mudar”. Portanto não entendam os números como permanentes e imutáveis e não me responsabilizem por mudanças. O problema é que as pesquisas são um retrato, é verdade, mas não daquele momento, mas de um outro, que já passou. Não existe presente sem passado, nem futuro. Quando as pessoas respondem a qualquer questão elas estão considerando as suas experiências passadas, não importa se muito recentes, pouco recentes ou do passado remoto. E a partir de uma situação/experiência que deseja um determinado futuro. É nesse sentido que as pesquisas podem ser, efetivamente, “retrato de um momento”.  Mas se não houver um “pensar” sobre o que levou (passado) as pessoas a responderem de uma determinada maneira à questão proposta e não se levar em conta o que ela está sinalizando para o futuro, o tal “retrato do momento” pode levar a erros.

Não é a toa que as tais pesquisas de “boca de urna”, muitas e muitas vezes desmentem categoricamente as anteriores, numa reviravolta de resultados que fazem com que muita gente fique desconfiada dos institutos e seus analistas. Todos parecem esquecidos de que as anteriores eram apenas um “retrato de um momento” no passado, que já era passado no momento de sua divulgação.

Sem uma análise/conhecimento mais profundo dos motivos que estariam levando determinados segmentos a votar neste ou naquele candidato, serem a favor ou contra determinada ideia ou projeto, os números frios/secos certamente levam a formulação de discursos e plataformas equivocados.

Outra questão, fundamental, é sequência. Só baterias sequencias de pesquisas, onde se pode avaliar tendências e oscilações de opiniões, podem permitir um conhecimento efetivo da realidade. Infelizmente no Brasil, no caso mais especifico do MKP, debruça-se sobre pesquisas quase que exclusivamente no período eleitoral. Quando muito um pouco antes. E a ênfase é muito mais na tendência de votos e na identificação simplista dos “problemas a serem resolvidos”.

A ânsia de estar conectado e em concordância com o que se imagina que a população quer também é problema. Por exemplo, a maioria da população se diz hoje, a favor da redução da maioridade penal. E aí lá se vai o sujeito alardeando a sua concordância. Mas vai que – de repente – melhoram as condições da segurança pública e os ventos mudam, já que – ainda hipoteticamente – as pessoas estavam apenas exprimindo o seu desconforto com a violência. O resultado é que o apressado pode se ver falando sozinho no futuro.

Pesquisas quantitativas, por si só, não dizem muita coisa. Assim como qualitativas superficiais também não levam a nada, principalmente se a ideia for apenas “coletar problemas” para serem quantificados posteriormente. A combinação constante e científica dos dois modelos, com a construção de cenários que permitam ver o que aconteceu no passado, que está a influenciar o presente, formando as expectativas/perspectivas de futuro é que podem fornecer os elementos necessários para uma compreensão correta da realidade e permitir que sejam traçadas políticas com o olhar à frente e não no retrovisor. O resto pode servir apenas como enganação e levar a resultados completamente antagônicos aos que se deseja alcançar. Depois não adianta nada dizer que as pesquisas estavam equivocadas.