quarta-feira, 30 de março de 2016

OS CORRUPTOS, POR ACASO, SÃO DE MARTE?


Confesso que ando meio irritado a ouvir, a torto e a direito, que todos os males deste país estão na política e nos políticos, todos igualmente corruptos e desonestos. Isso, quando na maioria da vezes, saia da boca de cidadãos que pagam, igualmente, propinas, para obter vantagens, ainda que mais modestas que as da ladroagem mais instituída e organizada, que estaciona seus carros na calçada, que não emite nota fiscal quando presta serviços e acha, entre muitas outras coisas, que sonegar não é crime e que pequenas transgressões, como ficar calado quando recebe mais troco do que devia, numa transação qualquer, furar fila, por exemplo, não tem nada demais e vai por aí.

Sinceramente, não vejo uma diferença abissal entre o que se pratica na política e o nosso dia a dia, entre o comportamento em geral da população e o dos nossos políticos. O que difere uns dos outros é o montante da malandragem, com exceção, também, para pior, das nossas elites empresariais. Ok, você vai dizer, mas existem as exceções, nem todo mundo anda por aí, na base da "Lei de Gerson". Tá, lhe digo de volta, na política também existem exceções.

O nosso problema talvez seja mesmo o montante das falcatruas e o descaramento com que elas são realizadas, a forma como se incrustaram no aparelho estatal, fazendo do dinheiro da viúva uma fonte de enriquecimento pra lá de ilegal. No mais tentar pintar um cenário onde a política é exercida num ambiente semelhante a um conclave de chefes mafiosos, com todos os políticos pertencentes a gangs, em meio a uma sociedade educada e virtuosa é querer se enganar.

Sim, eu sei que não existe sociedade totalmente virtuosa e cumpridora das leis. Sei também que os cidadãos se comportam, onde se comportam, por conta do medo de serem punidos, por conta das leis rigorosas que existem alhures, mas em nosso País onde tudo é minimizado e permitido, nada a estranhar que na política, e nas relações comerciais dos poderosos, as coisas aconteçam como todos nós sabemos.

A política e os políticos que temos são reflexo da nossa sociedade. Nem mais nem menos. Lutar contra a corrupção, a bandalheira, o enriquecimento ilícito, a incúria, o cinismo e a demagogia inclui não apenas extirpa-las do ambiente político mas sim de toda a sociedade. Sem isso podemos até minimizar, e ter um certo controle, mas o vírus continuará aí, nem mesmo inerte, pronto para voltar forte e vigoroso, para disseminar uma nova epidemia.

SAI DILMA ENTRA TEMER: SEIS POR MEIA DÚZIA?


Estamos em pleno movimento para decisão do impeachment da presidente. O PMDB já promoveu o seu desembarque, simbólico, do governo. Caso efetivamente a saída da Dilma se concretize teremos mudanças de verdade? O País está mais do que no fundo do poço. Uma simples troca de guarda não resolverá os nossos problemas. É muita ingenuidade supor que a simples saída da Dilma e do PT do governo significa o fim, imediato, de todos os nossos problemas. 
 
A opinião pública está escaldada, desconfiada, irritada com TODOS os políticos, partidos e demais instituições públicas, com exceção, por enquanto, do Judiciário, mesmo assim dependendo da facção na qual a pessoa milita. E não estamos falando aqui da Suprema Corte, sobre a qual as desconfianças também existem, independentemente de simpatias partidárias.

O País vai precisar de algo mais que um governo “surpreendentemente bom”, como definiu o atual senador José Serra. Nem vamos ter algo parecido com o que aconteceu na Argentina, onde a “simples” eleição do atual presidente, Maurício Macri, gerou uma onda de confiança e credibilidade, com efeitos imediatos na economia.

 
Temer não é Macri, o PMDB não é exatamente um partido coeso, capaz de gerar automática credibilidade e angariar apoio imediato a um programa de reformas econômicas que o País mais do que precisa. Estabilizar a economia e preparar o Brasil para um novo ciclo de crescimento é o que todos desejam, mas – paralelamente – e com a mesma ênfase a população quer ver, ainda que meio da boca pra fora, a extinção da corrupção, da incúria, da demagogia e do cinismo. Se não for possível extirpa-la – pelo menos – que as transforme em exceção e não mais em regra.

Temer tem a oportunidade de entrar para a história de muitas maneiras, caso venha realmente a assumir o comando. Resta saber qual escolherá. Resta saber qual o seu partido lhe permitirá.

sábado, 19 de março de 2016

POLÍTICA NA REDE: A ERA DA MENTIRA?


Estamos vivendo tempos estranhos, onde é difícil olhar para fora e – por isso – muitas vezes, ou na maioria delas, voltamos o nosso olhar para dentro.  O foco deste post é, por conta disso, uma tentativa de análise do que acontece nessa tentativa de autoconhecimento, desse desejo de entender também o que se passa no “mundo lá fora” que nos leva a informação e contrainformação na internet e nas redes sociais, um ambiente, para o bem e para o mal, onde está se formando uma consciência coletiva, mas que em vez de abraçar – para fora – que ela nos oferece, o que vemos, numa constância assustadora, é um afundar num mundo escuro, de mentiras e de difamação, principalmente nas discussões políticas, onde todos, sem exceção são demonizados e vistos como mentirosos.

É nesse ambiente, nos mundos off-line e online,  que prosperam, cada vez mais,  os líderes mentirosos, que não se acanham das suas inverdades, pelo contrário, fazem delas um trampolim para vencer. O problema é que boa parte dos eleitores parece não se preocupar com isso e quer ouvir apenas as suas verdades pessoais, ouvir a reverberação das suas crenças e preconceitos. Quando fogem desse posicionamento, rebelam-se contra todos os políticos, abominam, odeiam a política, como se fosse possível viver, mudar, construir um novo mundo sem ela.

No mundo virtual a mentira se apresenta, e é aceita, com o mesmo peso da verdade, num processo de exacerbação crescente que assusta. Poucos vão a internet e nas redes sociais em busca de informações e argumentos verdadeiros. Estão no ambiente virtual apenas para confirmar as suas convicções e atacar aqueles que consideram adversários, sem qualquer concessão do diálogo e ao contraditório.

Em seu novo livro, The Internet Us, o filósofo Michael Lynch, levanta a tese de que as inovações tecnológicas podem estar produzindo um paradoxo: hoje sabemos mais, temos muita mais informações disponíveis, a distância de um clique, mas, apesar disso, parece que estamos compreendo menos.

Dito de uma outra forma, a internet democratiza o acesso a informação, onde a verdade está ali, ao alcance de qualquer um conectado, mas a desinformação e a mentira também estão lá e o que é pior, junto com aqueles que as fazem prosperar. E se não soubermos diferenciar podemos nos perder facilmente.

Ouso dizer que este é – ainda que numa certa medida – o retrato do que vemos nas redes sociais aqui no Brasil. De um lado aqueles fechados em torno de suas verdades, demonizando todos os demais que ousam contestar, mesmo que em parte, as suas verdades e posicionamentos. Do outro lado, uma parcela em crescimento dos descrentes, que abominam todos os políticos e por via de consequência a própria política, com argumentos onde nem sempre a verdade prepondera.

São tempos extremamente perigosos, propensos a ascensão de lideranças demagógicas, à esquerda e à direita, que mentem deslavadamente e estimulam o ódio, o preconceito e o caos.
Cabe às pessoas de bem lutar com muito vigor contra isso, principalmente nas redes sociais, ainda que não exclusivamente. É preciso descortinar a verdade, propaga-la, dissemina-la. É preciso denunciar a mentira e estimular o hábito da discussão sem preconceito, do apreço pelo contraditório. É preciso resgatar a política, a política verdadeira, aquela que vai ao coração das pessoas, que lida com a verdade. Se não fizermos isso, vamos abrir caminho para as forças escuras, do retrocesso, as promotoras do caos, da desordem e da infelicidade.



sexta-feira, 18 de março de 2016

FLERTANDO COM O CAOS

Os ânimos, para dizer o mínimo, estão mais que exaltados.
Nada no horizonte indica uma possível saída para a crise política e econômica, que seja sem profundos traumas e radicalizações, cujas consequências são as piores possíveis e de longo prazo. E qualquer um, com um mínimo de tirocínio, já sabe que  vamos vivenciar, pelo menos uma década perdida.
 
Uma das piores consequências da crise em que o País está mergulhado é a crescente rejeição por parcelas cada vez maiores da população a “classe” política como um todo. Tá, a turma, em sua maioria, não desperta mesmo alguma confiança e muito menos simpatia, mas o sentimento reinante é que todos, ou na melhor das hipóteses, a maioria, está envolvida em alguma falcatrua.  E ninguém parece se dar conta de que não será possível encontrar uma saída se não for pela via da política.

E o pior é que a maioria dos políticos continua entretida nos seus joguinhos, no reino da fantasia e da falcatrua em que se transformou Brasília, sem atentar que o circo está pegando fogo e que não é preciso mais jogar combustível na fogueira. Ele tende a se alastrar e não precisa de nenhuma ajuda para isso.

O caos, vale sempre lembrar, é terreno fértil para o surgimento de picaretas de toda a sorte e espectro político. Basta olhar para os EUA, onde um tipo como Ronald Trump, com suas ideias – até recentemente – consideradas absurdas demais, segue leve e fagueiro rumo a indicação pelo Partido Republicano. Na Europa, bem recentemente, a Itália, depois de passar por um processo semelhante, a tal de operação Mãos Limpas, terminou elegendo Silvio Berlusconi, um extraordinário picareta, e deu no que deu. Aqui, elementos exóticos já começam a ganhar mais simpatia do que poderíamos supor e preparam-se alegremente para o bote.

A polarização, incentivada por gregos e troianos, de forma altamente irresponsável, já começa a ser materializar nas ruas. O chamamento a “porrada”, rola fácil na boca inclusive de governantes, justamente aqueles que deveriam estar zelando, minimamente, pela ordem institucional. Governantes e opositores deixaram os pruídos de lado e o que se ouve são discursos e pronunciamentos cada vez mais agressivos, inclusive, por parte da presidente, que definitivamente subiu no palanque e adotou o “nós contra eles”, sem qualquer constrangimento.

A sociedade segue cada vez mais está dividida. Não importa o quanto cada um dos lados tente desclassificar o outro. Ninguém está disposto a dar atenção ao contraditória e a pátria que vá às favas. A divisão, se aprofunda a cada momento, sem que qualquer saída para a crise econômica, principal motor, ainda que oculto de toda a insatisfação, ocupe sequer a ordem do dia, deixando até mesmo de ser mencionada, formalmente, nos discursos oficiais ou não.

A polarização não está apenas nas ruas e já ganha voz na tal de sociedade civil organizada. Entidades como a CNI, Fiesp e até a OAB, que costumam fingir estar em cima do muro, publicam anúncios de página inteira nos jornais e emitem notas, pedindo, clara ou sub-repticiamente, a saída da presidente.  O Judiciário sai em sua maioria em defesa do juiz Moro. Manifestantes tecem loas de amor a Polícia Federal e a tropa de choque da PM de São Paulo, teve a ousadia de prestar continência a manifestantes, contrários ao governo, ainda que no dia seguinte tenha sentado a porrada nos que insistiam em permanecer na Av. Paulista. A sede da CUT já foi apedrejada.

Sair nas ruas, ainda que inadvertidamente, de vermelho ou preto pode resultar em espancamento.

Os apoiadores do governo não ficam atrás. Ser chamado simplesmente de coxinha/classe média é quase um elogio. Como as suas manifestações dependem, em geral de logística, ônibus, lanches, camisas e adereços fornecidos por entidades e/ou partidos, demoraram um pouco mais, inclusive em número, para tomar as ruas, mas estão chegando. Em São Paulo e no Rio, nesta sexta-feira, uma multidões bastante expressivas tomaram as ruas para apoiarem a presidente, o Lula, se manifestarem contra o impeachment e o juiz Sérgio Moro. Ainda que incentivados por algumas lideranças a saírem “pro pau”, ainda são pacificas, com os organizadores pedindo que não sejam respondidas as provocações.

Por enquanto, quando estão frente a frente os dois grupos não se comportam tão educadamente, ainda que os incidentes não sejam de maior monta, apesar dos incentivos de muitas lideranças incentivarem a ida “pro pau”. Por enquanto tudo razoavelmente em paz, sabe Deus quanto vai durar.

A real é que, ainda que permaneçam pacificas, não há hipótese nenhuma de conciliação das posições absolutamente irreconciliáveis. Seja qual for a decisão final do Congresso, pelo impeachment ou não, nada acalmará o País.  É preciso não esquecer que a crise econômica está aí, como pano de fundo para a crise política. É possível – quem sabe – acalmar o ambiente político, mas nada indica que os atuais atores tenham capacidade, ou mesmo interesse em adotar as medidas necessárias para que o país pare de flertar com o caos, a baderna, pare de dançar a beira do abismo em meio a uma tempestade perfeita.

LULA E UM CAMARADA JUMENTO “AMIGO” MEU

No mais desculpas ao ruminante pela comparação
Fui, por esses dias, surpreendido com desaforos, o menos agressivo, de coxinha, por conta de um post em minha página no Facebook, quando classifiquei de "tiro no pé" a ida do ex-presidente para a Casa Civil da Presidência. Continuo achando. O que o meu, não sei se ainda, amigo, talvez pelos ânimos exaltados e seu exacerbado partidarismo, provavelmente não entendeu. 

Como não é possível, ainda, desenhar, nem aqui, nem no Face, vou tentar explicar novamente:
 
Não estava fazendo julgamento do ex-presidente. O que disse, e repito, é que achei a precipitada ida para a Casa Civil da Presidência, na verdade uma manobra desastrada. Acho que Lula estaria melhor fora do Governo. Teria sempre a oportunidade de voltar para “consertar as coisas”, considerando-se a hipótese, altamente provável, deste governo estar indo pro ralo. 

Ao assumir o cargo de timoneiro do barco, no caso do seu praticamente inevitável naufrágio, será levado junto. Não se sustenta o argumento de que, no governo, Lula possa dar uma guinada na política econômica e muito menos, graças ao seu especial tirocínio, tirar o Brasil da crise. Se tem poder para influenciar Dilma, não precisa de ministério para isso. Ninguém em sã consciência vai achar que, só por estar na Casa Civil, esse poder de persuasão será exponencialmente aumentado.
 
Quanto a articulação política Lula não precisa do cargo para exerce-la. Uma simples sala, em qualquer edifício comercial de Brasília, seria mais do que suficiente para transformá-la em local de peregrinação das forças políticas, que deram, dão e estão ansiosas para continuar dando apoio ao governo.
 
Resta a questão, digamos assim, jurídico/policial. Ah! o Moro. Eu acho que Lula estaria melhor nas garras do Moro. Teria, assim, infinitas possibilidades de recursos, entrar em uma batalha jurídica e política, como vítima, até chegar ao Supremo, que – pelo que se sabe agora – talvez não seja tão generoso com o atual ministro, adjetivado, pelo ex-presidente como acovardado. No Supremo, como se sabe, a decisão é definitiva, não cabe recurso.

Poderia Lula, se no governo não estivesse, desgrudar-se de Dilma e manter a sua liderança, numa certa medida é claro, intacta. Agora está atrelado a ela, para o bem ou para o mal.  Além disso, não tem como escapar da suspeita de que aceitou o cargo, ainda mais com a pressa e as trapalhadas habituais, para escapar simplesmente do juizado de primeira instância.

Com isso, como se não bastasse, os ânimos, de parte a parte, foram estimulados e devidamente exacerbados, inclusive, agora, pelo discurso da presidente, e demais presentes a cerimônia de posse, onde a pompa e as circunstâncias foram as favas, para dar lugar a um clima de comício. 

É isso, meu caro amigo, o ex, sei lá. O Lula provavelmente não seguiria o meu conselho. Mas e daí? Não sou assessor do ex-presidente. No mais seria bom se todos pudessem ter suas opiniões expostas, sem precisar ouvir desaforos. Mas enfim, estou me lixando. Vou continuar dizendo o que penso, pois, ao contrário do “amigo” devidamente alojado nas proximidades das tetas do governo, onde mama há anos, fazendo um servicinho bem chinfrim, não devo nada a ninguém. Na minha canoa mando eu.

segunda-feira, 14 de março de 2016

BOLSONARO, O TRUMP DOS TRÓPICOS?


Mais que um palhaço: uma ameaça
Aqui como acolá, gente como Jair Bolsonaro e Donald Trump não costumavam, ou ainda não são, no caso brasileiro, levados a sério. Nos Estados Unidos Trump foi considerado, de início, apenas um palhaço, uma criatura exótica, a ser descartado, no seu devido tempo. Na melhor das hipóteses, poderia até servir como elemento de pesquisas, de termômetro, para que certos anseios da população, pudessem até ser adicionados às propostas dos candidatos republicanos, mais sensatos e experientes, mas que – ao contrário do que se imaginava – foram sendo descartados. Trump desprezado e/ou ignorado pelos políticos e a mídia vai crescendo.

Aqui, como acolá, quem presta atenção em Bolsonaro é no mínimo taxado de idiota. Tá o homem tem posições, teorias e propostas que envergonham os bem pensantes do país. Mas, acolá, como aqui, Trump também foi – inicialmente – ignorado e motivo de chacota e repulsa. O que interessa especular, entender, analisar, são os motivos pelos quais o eleitorado, boa parte do eleitorado, se interessa e termina dando o seu voto a representantes do tipo Bolsonaro/Trump. E nunca é demais lembrar, por exemplo, que Hitler também foi eleito. E deu no que deu.
Aplaudido nas manifestações

Nunca é demais lembrar, também, que pessoas como Trump e Bolsonaro, são eleitas, recebem apoio/adesão, quando o medo começa a superar a esperança. E medo aqui, como acolá,  pode suas causas em motivos bem variados. O medo vence a esperança quando milhares de pessoas começam a se desiludir com a política e os políticos tradicionais. Vence quando elas deixam de ver nas instituições, nos poderes constituídos, competência para encontrarem uma saída para as suas vidas, aqui e agora. Como são “simplificadores”, elas não avaliam corretamente as causas dos seus problemas e abraçam qualquer proposta que pareça atender as suas necessidades. Por aí vão junto o ódio a imigrantes, que imaginam avançando sobre seus precários empregos atuais, a resistência à política tradicional, o preconceito racial, o abraço a ideias exóticas para resolver os problemas econômicos e por aí vai.

Quando manifestantes vão às ruas, como no Brasil, para reclamar de “tudo o que está aí”, sem abraçar nenhuma proposta para resolver os seus problemas, querendo nada mais que a saída (o que não é pouco) dos atuais governantes e a prisão de políticos e empresários corruptos, incluindo aí até mesmo gente da oposição, abre-se uma janela de oportunidades para gente como Trump e Bolsonaro.

Seria bom, aqui, e o mais rapidamente possível, que políticos, veículos de comunicação, a tal sociedade civil organizada e os cidadãos bem intencionados, prestassem mais atenção ao que acontece nos EUA, ressalvadas todas as diferenças. Ou a sociedade começa a pensar melhor sobre o que quer, além do “fora fulano e beltrano” e da moralização da politica, com o fim da roubalheira institucionalizada, ou vamos terminar elegendo qualquer um que pode ser mais uma decepção que solução.

E bom refletir sobre isso. Antes que, aqui como acolá, seja tarde demais.

quarta-feira, 9 de março de 2016

OS ELEITORES BRASILEIROS E DE TRUMP


Boa parte dos comentaristas internacionais, que tenho lido, se referem aos eleitores de Donald Trump, para explicar a sua surpreendente ascensão, como “irritados”, “fartos de políticos”, com “baixo nível de escolaridade” e “majoritariamente brancos”. É bastante provável que essas características tenham alguma base nas pesquisas, mas seguramente, como na análise dos eleitores brasileiros, que apoiam ou são contra a permanência da Dilma na presidência, são – definitivamente – superficiais e insuficientes para se ter uma ideia realista sobre quem são e em quem votam os eleitores, apoiadores dos movimentos populistas que ganham força, à direita e à esquerda, no Brasil e nos Estados Unidos, na Europa e em outras partes mundo afora.

Se retirarmos da análise o “majoritariamente brancos”, vamos encontrar paralelos nos lugares e em candidatos os mais insuspeitados. São eleitores que não se importam com dados, informações e constatações (inquestionáveis na maioria das vezes) que colocariam em dúvida a integridade, honestidade, sinceridade e propósitos dos seu candidatos.

No caso brasileiro, os que vão para as ruas protestando “contra tudo isso que está aí” e cuja principal bandeira é o “fora Dilma, fora PT”, poderiam muito bem, como os seus colegas americanos apoiadores de Trump, serem classificados como “irritados”, “fartos de políticos” e, em alguma medida, “majoritariamente brancos”. A baixa escolaridade, no nosso caso, é comum a todas as classes e segmentos sociais, portanto cabe a qualquer lado. 

Já os apoiadores do governo, misturam algumas dessas características, com a devoção, sendo muito mais avessos a dados, informações e constatações sobre suas lideranças, exemplo mais do que bem acabados dos chamados “eleitores simplificadores”, que se fazem crescentemente presentes em tempos de incerteza e ansiedade social. Fazem política, como seus adversários, sendo apolíticos, pois a política jamais entra em uma discussão real nesses grupos.

Um bom exemplo disso ocorreu ontem, em ato teoricamente de comemoração do Dia da Mulher, na avenida Paulista, no centro da cidade, quando uma militante do PSOL, apossando-se de um megafone mandou um “fora Dilma, Temer, Aécio, Cunha, Alckmin” e mais alguém que não lembro agora. Foi o suficiente para ser chamada de vagabunda e outros atributos, pela turma que tinha ido lá prestar solidariedade a dona Dilma, com direito a safanões e ameaças de parte a parte. Pelo menos o pessoal da Dilma era a favor de alguém, ainda que partidários eloquentes de samba de uma nota só: não vai ter golpe, Dilma fica”. Uns e outros não discutem, não conhecem, nem tem interesse por nenhum dos dados que compõem a realidade brasileira hoje e vivem felizes com suas simplificações.

O fato é que não são específicos de um lado ou de outros, de determinados países ou tendências políticas. São um fenômeno global, uma tendência perigosa.

No caso específico de Trump, considerando o poder de um presidente dos EUA, certamente uma possível vitória sua é algo assustador, a pior encarnação dessa tendência, dada a letalidade que uma administração em suas mãos pode provocar no mundo inteiro, mas em termos mais restritos, como por exemplo, no caso brasileiro, podemos ter mais do que uma década perdida, se esse tipo de eleitor vier a, efetivamente, dar as cartas no processo político, seja ele de esquerda ou de direita.

segunda-feira, 7 de março de 2016

MORO DEU, OU NÃO, UM PALANQUE PARA O LULA?


Muita gente provavelmente vai discordar, mas acho que o juiz Sérgio Moro deu, de graça, um palanque para o ex-presidente Lula, que saiu de “investigado” para “vítima”, antes mesmo de virar réu e de quebra ainda proporcionou uma “reconciliação” da presidente com o ex, além de dar um fôlego extra para os apoiadores de Lula, incluindo aí o PT e os tais movimentos sociais.



O juiz também passou do ataque para a defesa, pela primeira vez – e como muita rapidez – ao divulgar uma nota onde tenta explicar – sem colar – as diferenças entre “condução coercitiva” e prisão e outros “mimimis”, entre eles a diferença entre investigado, testemunha, réu etc., etc. 

Pode ser que exista mais carne debaixo deste angú. Mas aí só vendo os desdobramentos. Afinal, há mais de um ano o juiz Moro e os procuradores mostram que sabem o que estão fazendo. Mas, como a história está cansada de demonstrar, todo mundo volta e meia, por mais preparado que seja, pode enfiar o pé na jaca. Seja como for, por enquanto, como bem
disse José Roberto Toledo, em sua coluna no Estadão, depois da nota, "como cientista social, Moro é um ótimo juiz".

Por outro lado tem gente que acha que o juiz e os procuradores deram uma prova de força, preocupados com uma hipotética contraofensiva das empreiteiras e aliados, que vazando informações pretendem melar - e impedir - o avanço das investigações. A reação dos procuradores e da PF teria apressado, inclusive, a saída do ministro da Justiça, que pressionado por todos os lados teria, finalmente, com o aval da presidente, pedido o boné e passado o pepino para outro. Tem versões pra todo gosto. 


O fato é que Lula – gostem dele ou não – saiu, tá, ainda que provisoriamente das cordas, para fazer o que sabe fazer de melhor: discursar, alternando o status de vítima, perseguido pelas elites, com o de poderoso, que tudo, e mais um tanto, fez pelo país.



Até a presidente, que andava de biquinho com o ex, viu-se na obrigação de lançar mão do avião, helicóptero e carro oficiais para prestar pessoalmente solidariedade ao grande chefe.



O PT, que andava cabisbaixo, como o próprio Lula mencionou, mais de uma vez, ganhou fôlego e, junto com os tais movimentos sociais, já promete trocar tapas e safanões com os seus opositores, marcando para o mesmo dia, hora, e local dos insatisfeitos a sua manifestação de apoio ao chefe e as ruas agora tem mão dupla.



É claro que ainda é muito cedo para se conhecer o desfecho real de toda esta história, que depende agora, também, entre outras das canetas do Supremo Tribunal Federal, de onde deve sair o possível roteiro para um impeachment, que volta a cair no gosto da oposição, sem constrangimento de ter que dar o braço a Cunha, que por enquanto esta com as barbas de molho, que um roteiro descendente inevitável. A Lava Jato continua nas mãos do Teori Zavascki, que ao contrário do que muitos esperavam, não tem dado muita colher de chá para os envolvidos nos escândalos.




Seja como for, ninguém – ainda – pode se considerar vencedor desta contenda. Muita água ainda vai rolar debaixo da ponte e nas ruas. Resta saber, ainda, se os antipetistas, que não têm muito jogo de cintura em confrontos de rua, vão se recolher ou partir para o enfrentamento.



Resta aguardar as canetadas do Supremo, que vai ditar os próximos movimentos deste balé fubango. O melhor cenário, neste momento era a presidente ter um ato de grandeza e sair de cena, mas isso é altamente improvável. Mas seja como for nunca dantes na história deste país se viu um governo tão catatônico, sem projeto, sem apoio, refém do seu próprio partido. E aguardar para ver o final que certamente não será nenhum happy end.

quinta-feira, 3 de março de 2016

DE 37 PODEMOS SALTAR PARA 97 PARTIDOS. QUEM AGUENTA?

De 4 em 4 anos...
O país hoje tem nada menos 35 partidos e podemos chegar a inacreditável número de 97. Isso mesmo: 97 partidos. São 62 agremiações que pretendem se viabilizar. Alguns são - no mínimo exóticos, como o Partido Universal do Meio Ambiente, o Igualdade, o Partido dos Serviores Públicos e da Iniciativa Privada do Brasil (?), além do Partido de Organização Democrática dos Estudantes, o Partido do Combate ao Desemprego e - acreditem, é verdade, o Partido Nacional Corinthiano.
Nós, os eleitores.

Obviamente, tenho certeza, o caro eleitor, não fazia a menor ideia sobre o número de partidos existentes, muito menos da possibilidade, apocalíptica, de termos em breve nada menos que 97 agremiações. Mas não se preocupe, segundo pesquisa do Ibope, divulgada na coluna de José Roberto de Toledo, no Estadão, nada menos que 77% não quiseram nem arriscar dizer a quantidade de siglas partidárias existentes no País. 23% chutaram um número e só 2% acertaram.

Partidos que são uma piada pronta
Qualquer pessoa minimamente sensata concorda que 37 já é demais. Nada menos que 84% dos brasileiros concordam com isso. Pensar em quase 100 partidos é um insulto, um achincalhamento total. Não é a toa que 77% dos entrevistados acreditam que já está na hora de diminuir o número de agremiações partidárias.

O que há por trás dessa sanha de criação de partidos? Nada relativo a um bom combate político e muito menos a defesa de alguma causa razoável ou não. No Brasil fundar um partido é um bom negócio, só superado mesmo pela criação de uma igreja. Partidos no Brasil não pagam impostos, gaham tempo de graça no rádio e na TV para falarem qualquer coisa, duas vezes por ano, podem negociar com outras siglas o tempinho a quem têm direito, o que rende um dinheirinho ou outra vantagem mais cabeluda, isso sem falar nos "trocados" do tal Fundo Partidário. 

97 partidos. Quem aguenta?
Ok, picaretas existem em todos os segmentos da sociedade, mas se os políticos minimamente sérios, ou pelo menos ciosos dos seus espaços e benesses não tomarem nenhuma providência e continuarem aprovando a criação ad infinitum de novos partidos a casa vai cair. Vai chegar uma hora que o andar de baixo vai dizer chega! E aí podem acreditar, ninguém vai se salvar.