sexta-feira, 18 de março de 2016

FLERTANDO COM O CAOS

Os ânimos, para dizer o mínimo, estão mais que exaltados.
Nada no horizonte indica uma possível saída para a crise política e econômica, que seja sem profundos traumas e radicalizações, cujas consequências são as piores possíveis e de longo prazo. E qualquer um, com um mínimo de tirocínio, já sabe que  vamos vivenciar, pelo menos uma década perdida.
 
Uma das piores consequências da crise em que o País está mergulhado é a crescente rejeição por parcelas cada vez maiores da população a “classe” política como um todo. Tá, a turma, em sua maioria, não desperta mesmo alguma confiança e muito menos simpatia, mas o sentimento reinante é que todos, ou na melhor das hipóteses, a maioria, está envolvida em alguma falcatrua.  E ninguém parece se dar conta de que não será possível encontrar uma saída se não for pela via da política.

E o pior é que a maioria dos políticos continua entretida nos seus joguinhos, no reino da fantasia e da falcatrua em que se transformou Brasília, sem atentar que o circo está pegando fogo e que não é preciso mais jogar combustível na fogueira. Ele tende a se alastrar e não precisa de nenhuma ajuda para isso.

O caos, vale sempre lembrar, é terreno fértil para o surgimento de picaretas de toda a sorte e espectro político. Basta olhar para os EUA, onde um tipo como Ronald Trump, com suas ideias – até recentemente – consideradas absurdas demais, segue leve e fagueiro rumo a indicação pelo Partido Republicano. Na Europa, bem recentemente, a Itália, depois de passar por um processo semelhante, a tal de operação Mãos Limpas, terminou elegendo Silvio Berlusconi, um extraordinário picareta, e deu no que deu. Aqui, elementos exóticos já começam a ganhar mais simpatia do que poderíamos supor e preparam-se alegremente para o bote.

A polarização, incentivada por gregos e troianos, de forma altamente irresponsável, já começa a ser materializar nas ruas. O chamamento a “porrada”, rola fácil na boca inclusive de governantes, justamente aqueles que deveriam estar zelando, minimamente, pela ordem institucional. Governantes e opositores deixaram os pruídos de lado e o que se ouve são discursos e pronunciamentos cada vez mais agressivos, inclusive, por parte da presidente, que definitivamente subiu no palanque e adotou o “nós contra eles”, sem qualquer constrangimento.

A sociedade segue cada vez mais está dividida. Não importa o quanto cada um dos lados tente desclassificar o outro. Ninguém está disposto a dar atenção ao contraditória e a pátria que vá às favas. A divisão, se aprofunda a cada momento, sem que qualquer saída para a crise econômica, principal motor, ainda que oculto de toda a insatisfação, ocupe sequer a ordem do dia, deixando até mesmo de ser mencionada, formalmente, nos discursos oficiais ou não.

A polarização não está apenas nas ruas e já ganha voz na tal de sociedade civil organizada. Entidades como a CNI, Fiesp e até a OAB, que costumam fingir estar em cima do muro, publicam anúncios de página inteira nos jornais e emitem notas, pedindo, clara ou sub-repticiamente, a saída da presidente.  O Judiciário sai em sua maioria em defesa do juiz Moro. Manifestantes tecem loas de amor a Polícia Federal e a tropa de choque da PM de São Paulo, teve a ousadia de prestar continência a manifestantes, contrários ao governo, ainda que no dia seguinte tenha sentado a porrada nos que insistiam em permanecer na Av. Paulista. A sede da CUT já foi apedrejada.

Sair nas ruas, ainda que inadvertidamente, de vermelho ou preto pode resultar em espancamento.

Os apoiadores do governo não ficam atrás. Ser chamado simplesmente de coxinha/classe média é quase um elogio. Como as suas manifestações dependem, em geral de logística, ônibus, lanches, camisas e adereços fornecidos por entidades e/ou partidos, demoraram um pouco mais, inclusive em número, para tomar as ruas, mas estão chegando. Em São Paulo e no Rio, nesta sexta-feira, uma multidões bastante expressivas tomaram as ruas para apoiarem a presidente, o Lula, se manifestarem contra o impeachment e o juiz Sérgio Moro. Ainda que incentivados por algumas lideranças a saírem “pro pau”, ainda são pacificas, com os organizadores pedindo que não sejam respondidas as provocações.

Por enquanto, quando estão frente a frente os dois grupos não se comportam tão educadamente, ainda que os incidentes não sejam de maior monta, apesar dos incentivos de muitas lideranças incentivarem a ida “pro pau”. Por enquanto tudo razoavelmente em paz, sabe Deus quanto vai durar.

A real é que, ainda que permaneçam pacificas, não há hipótese nenhuma de conciliação das posições absolutamente irreconciliáveis. Seja qual for a decisão final do Congresso, pelo impeachment ou não, nada acalmará o País.  É preciso não esquecer que a crise econômica está aí, como pano de fundo para a crise política. É possível – quem sabe – acalmar o ambiente político, mas nada indica que os atuais atores tenham capacidade, ou mesmo interesse em adotar as medidas necessárias para que o país pare de flertar com o caos, a baderna, pare de dançar a beira do abismo em meio a uma tempestade perfeita.