quinta-feira, 17 de novembro de 2016

A "SOCIEDADE DO ESPETÁCULO" EXPLICA TRUMP?


Guy Debord
Em artigo recente, publicado no jornal O Estado de São Paulo, o professor do Departamento de História da Unicamp, Gabriel Zacarias, tenta explicar, usando o conceito do teórico francês Guy Debord, de “sociedade do espetáculo” a vitória de Donald Trump. É um conceito que usa o "paradigma da representação", inclusive da representação política, para explicar como chegamos a uma sociedade do espetáculo e o papel exercido pelos seus vários atores. 


Nas sociedades modernas, que se tornam cada dia mais complexas, as experiências individuais, no entanto, seguem numa direção contrária, se tornando cada vez mais reduzidas, já que no capitalismo moderno a maior parte do nosso tempo é dedicado a tarefas produtivas hiper-especializadas. É o que, em linhas muito gerais, leva ao conceito de "sociedade do espetáculo".

Para suprir essa carência da nossa participação individual na representação geral da sociedade, as pessoas passam a consumir o papel, que determinados atores apresentam, “apoderando-se” das suas representações, com uma espécie de substituição para nossa impossibilidade de sermos atores, ainda que coadjuvantes, dessa grande representação (peça) que se desenrola na sociedade atual, onde somos, na maior parte do nosso tempo, meros espectadores.

Quando levamos essa teoria para a participação política, o grande momento seria o da eleição, quando de espectadores nos transformamos, ainda que por um tempo mínimo, em atores/agentes. Ocorre que, passado este momento fugaz do voto, não é mais possível interferir diretamente sobre as escolhas que organizam a vida coletiva, que passam a ser tomadas, exclusivamente, pelos círculo restrito dos eleitos.

A coisa toda se agrava quando as escolhas feitas pelos eleitos não nos satisfazem. Isso gera um grau de insatisfação que pode se voltar contra bodes expiatórios, sejam eles os políticos que elegemos, especificamente, ou grupos minoritários. É mais que provável, nesses casos, que um Donald Trump surja, representando muito bem, esse ressentimento, essa insatisfação. Esse tipo de político traz, intrinsecamente, uma promessa de superação para a nossa não participação no espetáculo da sociedade, da maneira como imaginamos, mas sem nos oferecer um lugar no palco. Com isso nos levam a uma restrição aos outros grupos que – verdade ou não – estariam nos substituindo na peça encenada. É assim que as restrições aos grupos minoritários dão uma certa satisfação aos grupos majoritários da população. É assim que recrudescem os discursos de ódio, com seus componentes racistas, homofóbicos e misóginos.

Explorando a impotência e o ressentimento, esse tipo de político, cuja melhor representação neste momento seria Donald Trump, levam as pessoas a se vingarem contra as minorias. Esses políticos se apresentam sempre como figuras outsiders e com isso exploram, também, os ressentimentos contra os que estão no poder, mas que não foram capazes, não quiserem ou sequer se preocuparam em  encontrar um papel para esses segmentos da população, marginalizados/ressentidos/impotentes na tal de sociedade do espetáculo.

Zacarias acredita que, ao nos depararmos com o que ele chama de “contradição estrutural do paradigma representativo” isso pode ajudar a entender uma tendência de “oscilação pendular da democracia”. Dito de outro jeito: Uma vez uma coisa, outra vez outra coisa, bastante diferenciadas entre si. É assim que um presidente negro, liberal, bem avaliado, pode ser sucedido por um branco, populista e racista, no caso, como exemplo, os EUA. Desta forma, conclui Zacarias, o resultado das eleições americanas talvez não seja tão surpreendente, ainda que não seja menos preocupante.

Olhando para o Brasil eu consigo ver, claramente, esse contingente de ressentidos, os alijados da sociedade do espetáculo aqui, como alhures, muito bem representado pelas classes médias, aquela que perdeu o seu poder de compra e a outra que, convidada para participar da representação, mal entrou e já foi excluída. Quanto a tal oscilação pendular da democracia, vejo sinais, mas sinceramente não faço a menor ideia para onde irá este pêndulo.

Gabriel Zacarias é historiador, com pós doutorado pela École des Hautes Études en Sciences Sociales e professor do Departamento de História da Unicamp.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

AUTOBIOGRAFIA DE RITA LEE. VALE LER. E MUITO.


Nesta quarta-feira, 16, Rita Lee lança a sua autobiografia, publicada pela Globo Livros, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional na Avenida Paulista, em São Paulo. O livro é uma delícia e um marco importante na história das autobiografias brazucas, principalmente as do meio artístico. Rita se coloca no texto de uma forma muito honesta e até mesmo impiedosa com ela e com muito que passaram por sua história, pela sua vida. Está sendo comparada a livros autobiográficos lançados por Keith Richards, Eric Clapton e Rod Stewart, entre outros que resolveram contar suas histórias com sinceridade, abordando os seus erros e acertos, contando de fato as suas vidas. Na autobiografia de Rita episódios obviamente desconhecidos do público, contados com muito bom humor, um verdadeiro exemplo para os grandes nomes da MPB, que se levam demasiadamente a sério e, pior, extremamente zelosos das duas imagens chegaram inclusive a patrocinar movimentos tristes e reacionários, como o tal  Procure Saber, cuja porta-voz foi a produtora Paula Lavigne e que entrou em uma disputa na justiça para manter a exigência de autorização prévia para a comercialização de livros. Sob a batuta de Roberto Carlos, sabidamente contrário a publicação de biografias não autorizadas e que já tirou de circulação obras sobre sua vida, o grupo conseguiu, na época apoios de peso, como Caetano Veloso, Chico Buarque, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Djavan e Erasmo Carlos. Caetano nega que tenha apoiado o grupo irrestritamente e que sua posição, mais liberal esteve expressa em seus artigos no jornal O Globo e que o movimento teria sido "maculado por vícios sinistros da imprensa. Leia Rita. Vale a pena para conhecer melhor a história dessa roqueira que fez história na música brasileira.

sábado, 12 de novembro de 2016

MANIFESTAÇOES CONTRA TRUMP NOS EUA

Como será que Trump vai reagir aos protestos?
Trata-se de algo totalmente novo, esses protestos de rua, logo após o anúncio da vitória de Trump. Ainda que boa parte constituída por jovens, muitos exibindo cartazes com a frase: "Donald Trump não me representa", tem atraído outros segmentos. Não há registro de manifestações deste porte, após uma eleição para presidente nos EUA. Já foram registrados embates com a polícia. Trump, como sempre, logo no início, como costuma fazer com qualquer um que lhe conteste, tentou desqualificar os manifestantes, mas já voltou atrás e elogiou os participantes. O que vai acontecer com essa de protestos é difícil de saber agora, mas já está mais ou menos claro, que o novo presidente vai ter problemas com uma parte significa dos americanos, contrários as suas ideias e propostas. Vamos aguardar para ver. O certo é que a administração de Donald Trump não será nada tranquila.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

E O TRUMPISMO NACIONAL? ALGUÉM VIU POR AÍ?

Futuro incerto com ele
Interpretações e comentários mil pululam em tudo quanto é mídia internet incluída, sobre a “surpreendente” eleição de Donald Trump. Por isso vou ficar restrito, aqui, no meu canto, a duas questões que me interessam mais de perto, antes que Donald Trump chocalhe o mundo, com consequências imprevisíveis.

A primeira é o que se convencionou dizer que praticamente ninguém atentou para a existência e a força do eleitorado trumpista, incluindo aí os institutos de pesquisa, e que a sua vitória pegou o mundo de calças curtas. Além disso, seria uma sinalização clara de uma reviravolta do eleitorado americano, que teria optado, de forma significativa, pelo populismo demagógico de Trump.
Institutos: erros e acertos.
 


A segunda, que nos interessa, mais de perto, é a revelação de que existe, em toda as regiões do Globo, um contingente significativo de pessoas que se sentem marginalizadas do processo econômico/social dos seus países e está muito, muito mesmo, decepcionada com a política tradicional, disposta a depositar as suas esperanças em qualquer populista/demagogo que lhes acene com novas oportunidades de emprego e melhoria de vida.

O Democrata vai ter que se reinventar
O que não foi detectado a tempo foi a estranhíssima intervenção do FBI no processo, que alardeou poucos dias antes da eleição, a possibilidade de uma nova investigação sobre o uso de e-mail particular, por parte da Hillary, para tratar de questões de Estado. E, não menos importante, que também não foi considerado pelos institutos, foi o comparecimento menor às urnas e o uso de telefones fixo, para entrevistas, que poucos ainda usam, além da utilização, quase obsessiva, de projeções sobre os indecisos. Resta ainda a impossibilidade, com os métodos atuais, de detectar o chamado “voto envergonhado”, daquele eleitor que está decidido a votar em um determinado candidato, mas não revela a sua opção.

La Pen ganha força na França
Rússia e Turquia o trumpismo no poder
O voto popular deixou claro, no entanto, que um contingente muito significativo, de eleitores “comprou” as ideias de Trump. Milhões de americanos, que servem, no mínimo, para chamar a atenção da para outros bilhões de pessoas, em todo o mundo, que se sentem órfãos das promessas de prosperidade global, consideram-se explorados por um sistema que não lhes deu perspectivas de uma vida melhor, pelo contrário, em muitos casos, lhes tolheu os sonhos. Essa gente, desencantada inclusive com a democracia representativa, que não a escuta como deveria, volta-se para líderes “fortes”, ostensivamente contrários ao sistema. Nada de novo. Basta olhar para a Turquia e a França, por exemplo, com Tayyip Erdogan e Marine Le Pen. É claro que a inclusão dos Estados Unidos neste cenário de populismo complica em muito as coisas.

Brasileiros fãs de Donald Trump
E no Brasil? Quantos estão enquadrados nesse grupo de cidadãos desencantados com o establishment? É possível que a alta na abstenção,  registrada nas últimas eleições municipais, nos dê alguma pista. Alguns fatores para a formação desse contingente são claros: o desencanto com a classe política, que teima em ignorar os anseios dos excluídos, antigos e novos, a crise econômica, que nos brindou com um número escandaloso de desempregados, e toda uma classe que sentiu a possibilidade de ascender socialmente e se viu retornando, na melhor das hipóteses, ao patamar antigo em que se encontrava. E pior: endividada.

Bolsonaro, fazendo de Trump o seu herói.
E aí vem mais uma pergunta, nesta confusão planetária, na qual estamos todos incluídos, cada qual com seu cada qual, temos um Donald Trump capaz de liderar esses descontentes? Ok, a primeira lembrança cai para Jair Bolsonaro, que também se acha. Eu acredito que ele ainda está muito longe de um Trump, mas é bom não esquecer da eleição do Collor, o tal de “caçador de marajás”, que – com um exíguo tempo no horário eleitoral gratuito – desbancou um dos maiores contingentes de candidatos, formado por políticos experimentados, os pesos pesados da política nacional, como nunca se tinha visto, até a humilhação final, que foi a derrota acachapante sobre Lula, no segundo turno.

Falta muito a Bolsonaro, mas é sempre bom lembrar, também, que é preciso apenas um pouco de vento a favor, para impulsionar o barquinho de personagens esquisitas e carta aparentemente fora do baralho. A história, antiga e recente, está aí, cheia de exemplos. E se a política continuar a esquecer essa parcela, cada vez mais importante da nossa população, podemos contar com surpresas a lá Trump. E pode ser bem mais rápido do que podemos imaginar.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

MARIANA: 1 ANO. E VEM MAIS TRAGÉDIAS POR AÍ.


Foi em 5 de novembro, do ano passado, que a barragem do Fundão rompeu, derramando 35 milhões de m3 de “lama” em uma área de 700 km, deixando desabrigadas 1.500 pessoas, 18 mortas e uma desaparecida. 27 cidades de Minas Gerais e do Espírito Santo foram prejudicadas na economia e no abastecimento de água. E pior: ainda hoje, um ano depois, a lama da barragem continua a tingir de marrom o Rio Gualaxo do Norte, que deságua no Rio do Carmo e segue tragicamente até o Rio Doce e o oceano Atlântico.
 
Sabe-se hoje que existem cerca de 500 mineradoras, operando do mesmo jeito irresponsável da Samarco. Metade delas em Minas Gerais. São tragédias anunciadas. E ao que tudo indica o triste exemplo de Mariana pode se repetir, já que nossas autoridades primam pela lerdeza e falta total de senso de justiça.


O que se assiste hoje é o já conhecido jogo de empurra e faz de conta, entre a empresa, que provocou a maior tragédia ambiental do país, e as autoridades e demais órgãos públicos envolvidos direta ou indiretamente com o drama. Com o agravante da discriminação que os moradores de Bento Rodrigues, em Mariana, passaram a sofrer, como se fossem eles a causa da tragédia que atingiu o município.

Nada a rigor foi feito até agora, para resolver, em definitivo a situação das vítimas, que sobrevivem a base de um cartão de débito fornecido pela Samarco, cujo limite é de um salário mínimo. E pior – sempre tem – descobriu-se agora, que uma barragem emergencial, para conter o vazamento da lama, na verdade de emergencial não tem nada e já estava nos planos da Samarco, mesmo antes do rompimento de Fundão.

Na justiça descobriu-se, também, algo estarrecedor, para dizer o mínimo: a Samarco tinha em seu poder um documento, que narrava com riqueza de detalhes a possibilidade real do acidente, que terminou ocorrendo, e não tomou sequer uma medida preventiva. Até o número de prováveis mortos 20 – erraram por apenas duas vítimas – consta do relatório atualmente em poder do judiciário. Estarrecido com as minúcias do documento, um promotor declarou que parecia ter a empresa uma bola de cristal, tal a quantidade de acertos do relatório revelados pela tragédia.

Cruel também tem sido a relação das vítimas com pessoas que não foram atingidas diretamente pelo rompimento da barragem. Seus filhos são chamados de “pés de lama” nas escolas e, até quando fazem compras, recebem olhares e frases discriminatórios ao apresentar seus cartões de débito fornecidos pela Samarco. São acusados até de estarem se aproveitando do ocorrido para extorquir dinheiro e levar alguma vantagem.

Os problemas, causados pela Samarco vão bem além de Mariana. No Espírito Santo, na orla que um dia esteve cheia de turistas, ninguém aparece mais. Pousadas, negócios, a economia das vilas e pequenas cidades foram paralisados. E ninguém foi ressarcido pelos prejuízos. E, ainda que fossem, continua valendo a pergunta de um pescador feita a repórteres de um programa de TV: quem paga pelo fim de um sonho? Quanto vale um sonho destruído por alguém?, ao relatar que teve de retirar os dois filhos da faculdade, onde estudavam, por não conseguir mais pagar as mensalidades, impedido que está, há um ano, de trabalhar no que era a sua principal fonte de renda, a pesca.

A punição, severa, dos responsáveis, talvez venha ainda aconteça, sabe-se lá quando. A reparação econômica e social das vítimas da tragédia anda a passos de tartaruga, que aliás também foram atingidas em seus locais de desova, lá longe de Mariana, nas praias do Espírito Santo. A lição de Mariana talvez ainda venha a ser aprendida e novas tragédias sejam evitadas. Queira Deus que com o tempo tudo isso, toda essa tragédia e suas consequências não sejam esquecidas.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

OUTSIDERS DE FORA


Peço desculpas pelo pleonasmo multilíngue, mas acho que ele reflete muito bem o que foi alardeado aos montes, desde o primeiro turno dessas últimas eleições. Por mim, inclusive. Mas o que se viu foi que elas não privilegiaram, nem consagraram os tais outsiders da política. 
Alexandre Kalil, outsider?
João Leite
Ok, ok, tem o Alexandre Kalil, vencedor em Belo Horizonte, que se apresentou como o antipolítico, concorrendo pelo inexpressivo PHS contra o tucano João Leite.
E acaba a história dos outsiders. E, a bem da verdade, o Kalil de outsider não tem nada. Mas usou o discurso e ganhou.


A expectativa de que os outsiders aparecessem e vencessem com base no esgotamento, sentido pela população, com relação aos políticos tradicionais, não aconteceu. K, ok, de novo: vai ter gente pensando em João Dória, como um belo exemplo de “gente de fora” da política, um “fenômeno” capaz inclusive de fazer avançar e solidificar as pretensões do governador Geraldo Alckmin à Presidência da República.

Dória e padrinhos. Longe, muito longe de ser um outsider
Acontece que João Dória, ainda que não tivesse exercido nenhum mandato antes, fez tudo como manda o figurino, sem contar que, ainda pela periferia, nunca esteve totalmente à margem da política. Dória disputou as prévias partidárias, fez campanha sob o patrocínio do governador, ao lado de deputados e vereadores. Fez sua estreia como manda o figurino tradicionalíssimo.

Em todas as capitais onde houve segundo turno, por exemplo e eleição foi entre políticos. A política, para o bem ou para o mal, deixo para isso para os meus queridos leitores, continuou/continua sendo dos políticos. Os protestos, o cansaço dos políticos e da política, foram expressos pela crescente abstenção, pelo voto nulo ou em branco. O desencanto foi expresso também nas redes sociais, com muita ênfase, diga-se de passagem, mas o povo que foi às urnas preferiu não assumir riscos e foi no tradicional mesmo.

O equivoco nesses casos é acreditar que a população, o eleitorado, não está interessado em mudanças e/ou na renovação na política e dos políticos. O caso é que a esperança no surgimento de outsiders capazes de encantar o eleitorado não aconteceu. Quem se apresentou foram os políticos tradicionais e, sem alternativa, a população com o que deu. E nem dá para citar o caso de Kalil em BH. O camarada é um empreiteiro, que se fez à sombra do Estado e está encalacrado com a lei nos mesmos moldes daqueles que pretende se apresentar como diferente. Já foi condenado pro apropriação indébita do INSS dos seus funcionários e deve nada menos que 16 anos de IPTU. Nada de novo, como se vê.

No mais é aguardar as próximas eleições e ver se algo de novo acontece no quartel de Abrantes ou se vamos com os mesmos, vários deles com apenas uma roupinha e outra mais ou menos nova. A ver.





"Perdoando Deus" | Clarice Lispector

Eu ia andando pela Avenida Copacabana e olhava distraída edifícios, nesga de mar, pessoas, sem pensar em nada. Ainda não percebera que na verdade não estava distraída, estava era de uma atenção sem esforço, estava sendo uma coisa muito rara: livre. Via tudo, e à toa. Pouco a pouco é que fui percebendo que estava percebendo as coisas. Minha liberdade então se intensificou um pouco mais, sem deixar de ser liberdade.
Tive então um sentimento de que nunca ouvi falar. Por puro carinho, eu me senti a mãe de Deus, que era a Terra, o mundo. Por puro carinho mesmo, sem nenhuma prepotência ou glória, sem o menor senso de superioridade ou igualdade, eu era por carinho a mãe do que existe. Soube também que se tudo isso "fosse mesmo" o que eu sentia - e não possivelmente um equívoco de sentimento - que Deus sem nenhum orgulho e nenhuma pequenez se deixaria acarinhar, e sem nenhum compromisso comigo. Ser-Lhe-ia aceitável a intimidade com que eu fazia carinho. O sentimento era novo para mim, mas muito certo, e não ocorrera antes apenas porque não tinha podido ser. Sei que se ama ao que é Deus. Com amor grave, amor solene, respeito, medo e reverência. Mas nunca tinham me falado de carinho maternal por Ele. E assim como meu carinho por um filho não o reduz, até o alarga, assim ser mãe do mundo era o meu amor apenas livre.
E foi quando quase pisei num enorme rato morto. Em menos de um segundo estava eu eriçada pelo terror de viver, em menos de um segundo estilhaçava-me toda em pânico, e controlava como podia o meu mais profundo grito. Quase correndo de medo, cega entre as pessoas, terminei no outro quarteirão encostada a um poste, cerrando violentamente os olhos, que não queriam mais ver. Mas a imagem colava-se às pálpebras: um grande rato ruivo, de cauda enorme, com os pés esmagados, e morto, quieto, ruivo. O meu medo desmesurado de ratos.
Toda trêmula, consegui continuar a viver. Toda perplexa continuei a andar, com a boca infantilizada pela surpresa. Tentei cortar a conexão entre os dois fatos: o que eu sentira minutos antes e o rato. Mas era inútil. Pelo menos a contigüidade ligava-os. Os dois fatos tinham ilogicamente um nexo. Espantava-me que um rato tivesse sido o meu contraponto. E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor? De que estava Deus querendo me lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há o sangue. Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admiro e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue, e para mim a palavra espiritual não tem sentido, e nem a palavra terrena tem sentido. Não era preciso ter jogado na minha cara tão nua um rato. Não naquele instante. Bem poderia ter sido levado em conta o pavor que desde pequena me alucina e persegue, os ratos já riram de mim, no passado do mundo os ratos já me devoraram com pressa e raiva. Então era assim?, eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o seu rato? A grosseria de Deus me feria e insultava-me. Deus era bruto. Andando com o coração fechado, minha decepção era tão inconsolável como só em criança fui decepcionada. Continuei andando, procurava esquecer. Mas só me ocorria a vingança. Mas que vingança poderia eu contra um Deus Todo-Poderoso, contra um Deus que até com um rato esmagado poderia me esmagar? Minha vulnerabilidade de criatura só. Na minha vontade de vingança nem ao menos eu podia encará-Lo, pois eu não sabia onde é que Ele mais estava, qual seria a coisa onde Ele mais estava e que eu, olhando com raiva essa coisa, eu O visse? no rato? naquela janela? nas pedras do chão? Em mim é que Ele não estava mais. Em mim é que eu não O via mais.
Então a vingança dos fracos me ocorreu: ah, é assim? pois então não guardarei segredo, e vou contar. Sei que é ignóbil ter entrado na intimidade de Alguém, e depois contar os segredos, mas vou contar - não conte, só por carinho não conte, guarde para você mesma as vergonhas Dele - mas vou contar, sim, vou espalhar isso que me aconteceu, dessa vez não vai ficar por isso mesmo, vou contar o que Ele fez, vou estragar a Sua reputação.
... mas quem sabe, foi porque o mundo também é rato, e eu tinha pensado que já estava pronta para o rato também. Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato para mim. É porque só poderei ser mãe das coisas quando puder pegar um rato na mão. Sei que nunca poderei pegar num rato sem morrer de minha pior morte. Então, pois, que eu use o magnificat que entoa às cegas sobre o que não se sabe nem vê. E que eu use o formalismo que me afasta. Porque o formalismo não tem ferido a minha simplicidade, e sim o meu orgulho, pois é pelo orgulho de ter nascido que me sinto tão íntima do mundo, mas este mundo que eu ainda extraí de mim de um grito mudo. Porque o rato existe tanto quanto eu, e talvez nem eu nem o rato sejamos para ser vistos por nós mesmos, a distância nos iguala. Talvez eu tenha que aceitar antes de mais nada esta minha natureza que quer a morte de um rato. Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente. Talvez eu não possa olhar o rato enquanto não olhar sem lividez esta minha alma que é apenas contida. Talvez eu tenha que chamar de "mundo" esse meu modo de ser um pouco de tudo. Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza? Enquanto eu imaginar que "Deus" é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o meu modo de me acusar. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário, e ao meu contrário quero chamar de Deus. Eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu. Porque enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado, e o jogo de minha vida maior não se fará. Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe.


Texto publicado no Jornal do Brasil em 19/9/1970 e depois no livro "A descoberta do mundo".
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quinta-feira, 3 de novembro de 2016

JUSTIÇA DO TRABALHO. INOPERANTE E CARA. CARISSIMA.


Entre as múltiplas jabuticabas que somos pródigos em criar,  uma das mais emblemáticas é essa tal de Justiça do Trabalho. Recentemente o deputado Nelson Marchezan Júnior, do Rio Grande do Sul, numa dessas comissões da Câmara, revelou que a Justiça do Trabalho deu aos trabalhadores que a ela recorreram, no ano passado, cerca de 8 bilhões de reais em benefícios. E, agora a parte mais interessante, nesse mesmo ano, ela custou aos cofres públicos – muita atenção aos números – nada menos que 17 bilhões de reais.

J.R. Guzzo publicou uma crônica na revista Veja, abordando essa maluquice, onde se consome duas unidades para produzir uma e ainda achamos que está tudo certo.

Foi a conclusão a que chegou o deputado, ao afirmar que seria melhor se a Justiça do Trabalho simplesmente não existisse. O governo daria diretamente aos trabalhadores, que apresentassem queixas trabalhistas, todos os anos, os tais 8 bilhões de reais. Assim as empresas ficariam satisfeitas, sem gastar com indenizações, os trabalhadores felizes e o Erário economizaria a metade do que gasta atualmente. É claro que as coisas não são tão simples, mas a aritmética do parlamentar deixa às claras, mais uma das jabuticabas em que somos mestres em criar. Nenhum país no mundo tem algo parecido.

Mais absurdo fica a coisa ainda quando tomamos conhecimento de queixa do presidente do Tribunal Superior do Trabalho, Yves Gandra da Silva Martins Filho, com relação a cortes nos recursos para bancar as despesas da Justiça do Trabalho, na casa de 1 bilhão. Segundo o ministro essa redução vai aumentar ainda mais a morosidade na resolução das ações trabalhistas no País.

O ministro insinua, em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, que a Justiça do Trabalho inclina-se, em praticamente todos os casos, para o trabalhador, mas confessa que na prática é impossível mudar essa tendência, por conta da legislação atual e prevê dias piores com o quadro recessivo e o inevitável  aumento do número de pessoas desempregadas, que fatalmente recorrerão a Justiça do Trabalho. Os dois fatores fazem com que a instituição, segundo ele, uma Justiça basicamente de desempregados, seja ainda mais morosa, com casos que se arrastam por até 15 anos.

Ou seja, além de cara, morosa. Embora o morosa ainda seja quase um elogio. E eu acrescento: cara, morosa e elitista. A Justiça do Trabalho é acessível apenas a 40% da população. Os demais não têm contrato de trabalho. Mas quando se trata de qualquer assunto relacionado a reformas das leis trabalhistas levantam-se de imediato vozes acusatórias clamando contra a ameaça aos direitos dos trabalhadores.

É o “Estado Mamãe”, pelo qual temos tanto apreço. O cidadão depende do Estado para qualquer coisa. Para um bom e estável emprego, para resolver suas questões eleitorais, financeiras, de saúde, educação, de transporte, de relacionamento com qualquer aspecto da sua vida. Tudo, tudo absolutamente tudo passa pela intermediação e benção do estado, tudo arbitrado pelos mais diversos ramos da nossa Justiça. E olhe que nem mencione a “desportiva” (rsss)

No caso, essa tal de Justiça do Trabalho, com seu ramo especialíssimo, não é – no entanto – um exemplar único no ramos das jabuticabas, fazendo para com outras, não menos especiais e únicas, como a sua prima irmã a eleitoral e até mesmo, talvez uma sobrinha, um tal de Tribunal da Cidadania (sim, isso existe).

Todos eles são pródigos em gerar “empregos” (e não confunda emprego com trabalho). A trabalhista tem nada menos que 3.500 juízes, e todos os seus penduricalhos, em 24 regiões, além dos membros do seu não menos especial Tribunal Superior do Trabalho. Valho-me aqui do artigo do Guzzo, para outros números, que fazem dos diversos “ramos” da nossa Justiça algo tão sui generis e nosso, como a jabuticaba: O Supremo Tribunal Federal, composto por onze ministros, tem 3.000 funcionários. O Superior Tribunal de Justiça, que parece a mesma coisa que o STF, mas não é, tem 33 ministros e 5.000 funcionários e por aí vai.

O incrível disso tudo é que gastando tanto, com tantos ramos e especializações a “justiça brasileira” seja o que é: um trambolhão, gastador e elitista, praticamente inacessível aos que mais precisam de justiça, os mais pobres. Tolice achar que esse trambolhão seja um instrumento de justiça social, tolice acreditar, ou querer, que essa coisa, ao menos, funcione direito.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Democracia en prueba

(Publicado pelo meu amigo José Rafael Vilar no jornal El Deber)

Pocas veces la democracia que dejaron los padres fundadores de la Unión Americana ha estado tan en entredicho como en estas elecciones. La verborrea más agresiva, la falta casi general de propuestas, los populismos de la más diversa orientación —Trump y Sanders—, la proliferación de precandidatos —iniciaron 19 republicanos y 7 demócratas—, los candidatos más rechazados —a fines de agosto (Washington Post/ABC News), Clinton tenía 59% de rechazo en votantes registrados y Trump 60%—, un candidato del que su propio partido se aparta —Trump— a la vez que admira un gobernante poco amigo —Putin— y amenaza desconocer resultados, además del aparente intento del director del FBI —James Comey, republicano— para favorecer a Trump son parte de un álgido escenario que mantendrá en vilo a todo el mundo hasta los resultados del próximo martes.

Hoy las encuestas daban a Clinton ventaja entre 2 y 3% sobre Trump, una caída tras el anuncio del FBI sobre nuevos correos investigados. Y aunque los días que faltan pueden traernos cualquier escándalo —ya debíamos estar acostumbrados—, la batalla se reduce a unos cuántos estados indecisos, sobre todo Florida que con sus 29 votos para el Colegio Electoral puede mover la decisión —o enturbiarla como en 2000

Publicado por José Rafael Vilar en 11:22  en el periódico El Deber el 01/11/2016

ABSTENÇÃO: PROTESTO OU DESINTERESSE?

Com um dos maiores índices de abstenção registrado nessas eleições, não são poucas as análises sobre o seu significado. Pra começar é bom lembrar que entre os milhões que preferiram não votar estavam os dois últimos presidentes, Lula e Dilma, um fato assaz curioso, mas que não mereceu muita atenção da mídia. Lula alegou que tendo ultrapassado a barreira dos 70 anos não estava mais obrigado a comparecer às urnas e a Dilma foi visitar um parente adoentado fora do seu domicílio eleitoral. Protesto, desinteresse ou puro desânimo pela intuição dos resultados? Além da abstenção, chamou a atenção a quantidade de votos brancos e nulos: 14,3% dos eleitores, que foram às urnas, deixaram de escolher candidatos, nesse segundo turno. O maior número desde 2004.


O mais provável, para explicar tanto os votos anulados quanto a abstenção seja, realmente, uma mistura de voto de protesto com desinteresse pelos resultados. Há um profundo desencanto com os políticos e a política que termina por se expressar através dos votos brancos e nulos. Existe ainda a lenda que, no caso do número de votos nulos e brancos superar o dos votos dados ao candidato vencedor, as eleições seriam anuladas o que não corresponde a verdade. Só os votos válidos são considerados.

Mas sejam lá quais forem os motivos, o expressivo número de brancos e nulos deveriam fazer com que políticos e afins se preocupassem com o assunto e procurassem por melhores explicações para o fenômeno. Quanto aos eleitores convém pensar melhor. Votando nulo e/ou branco terminam por facilitar a eleição de pessoas que não representam a maioria do eleitorado e depois não dá para se arrepender. Vão ter que esperar por mais quatro anos para tentar uma alternativa melhor de governança.

Já os números da abstenção merecem mais cuidado, uma vez que o cadastro do TSE não prima, exatamente, pela atualização. Neles podem estar embutidos os eleitores que morreram, os que mudaram de cidade sem recadastrar o titulo, entre outros que podem estar inflando os números, que em tese deveria ficar em cerca de 10%, mas nessa eleição chegou ao dobro.

Mesmo levando em conta essas possibilidades, o número de eleitores, neste segundo turno, que deixou de escolher um candidato impressiona. Foram nada menos que 32,8%, ou seja um em cada três eleitores cadastrados desistiu de votar.

MAIORIA É CONTRA O VOTO OBRIGATÓRIO

Uma pesquisa recente do Ibope pode, talvez, ajudar a compreender este “fenômeno”. Desde 2010 cresceu de 51% para 54% a taxa dos que são contra o voto obrigatório. Embora haja um temor de que, com o crescimento dos votos nulos e brancos e o fim da obrigatoriedade de votar cresça o risco da legitimidade, já que, pelo menos teoricamente alguém poderia ser eleito pela minoria das minorias, vale lembrar que a mesma pesquisa do Ibope revelou que nada menos que 62% dos brasileiros estariam dispostos a votar mesmo que não fossem obrigados.

É preciso levar em conta, ainda, que voto de protesto (em geral representado pelos brancos e nulos) não tem a mesma origem, não têm a mesma motivação da abstenção. José Roberto de Toledo, chama a atenção, em uma análise sobre a pesquisa do Ibope, publicada no jornal Estado de São Paulo, que provavelmente, baseando-se no perfil de que diz que compareceria à urna mesmo sem ser obrigado, é provável que candidatos e partidos com eleitorado mais escolarizado, menos pobre e concentrado nas pequenas cidades se sairiam melhor.

Na pesquisa, pra confirmar a tese, sobre quem mais perderia com o fim do voto obrigatório, 62% dos petistas dizem que votariam mesmo se não fossem obrigados, contra 72% dos que votam no PMDB e nada menos que 79% dos tucanos.

O que fica claro é que a abstenção pode acolher os dois lados: os decepcionados com a política em geral, que sequer se sentem motivados a votar e aqueles que desejam mandar um recado aos políticos em geral, expressando a sua indignação e protesto com a ausência.

Resta a classe política compreender o que se passa e arregaçar as mangas para provar a esses eleitores que vale não só ir  às urnas, mas também votarem em fulano ou sicrano. A ver se entenderam de fato o recado do eleitorado.