quinta-feira, 17 de novembro de 2016

A "SOCIEDADE DO ESPETÁCULO" EXPLICA TRUMP?


Guy Debord
Em artigo recente, publicado no jornal O Estado de São Paulo, o professor do Departamento de História da Unicamp, Gabriel Zacarias, tenta explicar, usando o conceito do teórico francês Guy Debord, de “sociedade do espetáculo” a vitória de Donald Trump. É um conceito que usa o "paradigma da representação", inclusive da representação política, para explicar como chegamos a uma sociedade do espetáculo e o papel exercido pelos seus vários atores. 


Nas sociedades modernas, que se tornam cada dia mais complexas, as experiências individuais, no entanto, seguem numa direção contrária, se tornando cada vez mais reduzidas, já que no capitalismo moderno a maior parte do nosso tempo é dedicado a tarefas produtivas hiper-especializadas. É o que, em linhas muito gerais, leva ao conceito de "sociedade do espetáculo".

Para suprir essa carência da nossa participação individual na representação geral da sociedade, as pessoas passam a consumir o papel, que determinados atores apresentam, “apoderando-se” das suas representações, com uma espécie de substituição para nossa impossibilidade de sermos atores, ainda que coadjuvantes, dessa grande representação (peça) que se desenrola na sociedade atual, onde somos, na maior parte do nosso tempo, meros espectadores.

Quando levamos essa teoria para a participação política, o grande momento seria o da eleição, quando de espectadores nos transformamos, ainda que por um tempo mínimo, em atores/agentes. Ocorre que, passado este momento fugaz do voto, não é mais possível interferir diretamente sobre as escolhas que organizam a vida coletiva, que passam a ser tomadas, exclusivamente, pelos círculo restrito dos eleitos.

A coisa toda se agrava quando as escolhas feitas pelos eleitos não nos satisfazem. Isso gera um grau de insatisfação que pode se voltar contra bodes expiatórios, sejam eles os políticos que elegemos, especificamente, ou grupos minoritários. É mais que provável, nesses casos, que um Donald Trump surja, representando muito bem, esse ressentimento, essa insatisfação. Esse tipo de político traz, intrinsecamente, uma promessa de superação para a nossa não participação no espetáculo da sociedade, da maneira como imaginamos, mas sem nos oferecer um lugar no palco. Com isso nos levam a uma restrição aos outros grupos que – verdade ou não – estariam nos substituindo na peça encenada. É assim que as restrições aos grupos minoritários dão uma certa satisfação aos grupos majoritários da população. É assim que recrudescem os discursos de ódio, com seus componentes racistas, homofóbicos e misóginos.

Explorando a impotência e o ressentimento, esse tipo de político, cuja melhor representação neste momento seria Donald Trump, levam as pessoas a se vingarem contra as minorias. Esses políticos se apresentam sempre como figuras outsiders e com isso exploram, também, os ressentimentos contra os que estão no poder, mas que não foram capazes, não quiserem ou sequer se preocuparam em  encontrar um papel para esses segmentos da população, marginalizados/ressentidos/impotentes na tal de sociedade do espetáculo.

Zacarias acredita que, ao nos depararmos com o que ele chama de “contradição estrutural do paradigma representativo” isso pode ajudar a entender uma tendência de “oscilação pendular da democracia”. Dito de outro jeito: Uma vez uma coisa, outra vez outra coisa, bastante diferenciadas entre si. É assim que um presidente negro, liberal, bem avaliado, pode ser sucedido por um branco, populista e racista, no caso, como exemplo, os EUA. Desta forma, conclui Zacarias, o resultado das eleições americanas talvez não seja tão surpreendente, ainda que não seja menos preocupante.

Olhando para o Brasil eu consigo ver, claramente, esse contingente de ressentidos, os alijados da sociedade do espetáculo aqui, como alhures, muito bem representado pelas classes médias, aquela que perdeu o seu poder de compra e a outra que, convidada para participar da representação, mal entrou e já foi excluída. Quanto a tal oscilação pendular da democracia, vejo sinais, mas sinceramente não faço a menor ideia para onde irá este pêndulo.

Gabriel Zacarias é historiador, com pós doutorado pela École des Hautes Études en Sciences Sociales e professor do Departamento de História da Unicamp.