sexta-feira, 11 de novembro de 2016

E O TRUMPISMO NACIONAL? ALGUÉM VIU POR AÍ?

Futuro incerto com ele
Interpretações e comentários mil pululam em tudo quanto é mídia internet incluída, sobre a “surpreendente” eleição de Donald Trump. Por isso vou ficar restrito, aqui, no meu canto, a duas questões que me interessam mais de perto, antes que Donald Trump chocalhe o mundo, com consequências imprevisíveis.

A primeira é o que se convencionou dizer que praticamente ninguém atentou para a existência e a força do eleitorado trumpista, incluindo aí os institutos de pesquisa, e que a sua vitória pegou o mundo de calças curtas. Além disso, seria uma sinalização clara de uma reviravolta do eleitorado americano, que teria optado, de forma significativa, pelo populismo demagógico de Trump.
Institutos: erros e acertos.
 


A segunda, que nos interessa, mais de perto, é a revelação de que existe, em toda as regiões do Globo, um contingente significativo de pessoas que se sentem marginalizadas do processo econômico/social dos seus países e está muito, muito mesmo, decepcionada com a política tradicional, disposta a depositar as suas esperanças em qualquer populista/demagogo que lhes acene com novas oportunidades de emprego e melhoria de vida.

O Democrata vai ter que se reinventar
O que não foi detectado a tempo foi a estranhíssima intervenção do FBI no processo, que alardeou poucos dias antes da eleição, a possibilidade de uma nova investigação sobre o uso de e-mail particular, por parte da Hillary, para tratar de questões de Estado. E, não menos importante, que também não foi considerado pelos institutos, foi o comparecimento menor às urnas e o uso de telefones fixo, para entrevistas, que poucos ainda usam, além da utilização, quase obsessiva, de projeções sobre os indecisos. Resta ainda a impossibilidade, com os métodos atuais, de detectar o chamado “voto envergonhado”, daquele eleitor que está decidido a votar em um determinado candidato, mas não revela a sua opção.

La Pen ganha força na França
Rússia e Turquia o trumpismo no poder
O voto popular deixou claro, no entanto, que um contingente muito significativo, de eleitores “comprou” as ideias de Trump. Milhões de americanos, que servem, no mínimo, para chamar a atenção da para outros bilhões de pessoas, em todo o mundo, que se sentem órfãos das promessas de prosperidade global, consideram-se explorados por um sistema que não lhes deu perspectivas de uma vida melhor, pelo contrário, em muitos casos, lhes tolheu os sonhos. Essa gente, desencantada inclusive com a democracia representativa, que não a escuta como deveria, volta-se para líderes “fortes”, ostensivamente contrários ao sistema. Nada de novo. Basta olhar para a Turquia e a França, por exemplo, com Tayyip Erdogan e Marine Le Pen. É claro que a inclusão dos Estados Unidos neste cenário de populismo complica em muito as coisas.

Brasileiros fãs de Donald Trump
E no Brasil? Quantos estão enquadrados nesse grupo de cidadãos desencantados com o establishment? É possível que a alta na abstenção,  registrada nas últimas eleições municipais, nos dê alguma pista. Alguns fatores para a formação desse contingente são claros: o desencanto com a classe política, que teima em ignorar os anseios dos excluídos, antigos e novos, a crise econômica, que nos brindou com um número escandaloso de desempregados, e toda uma classe que sentiu a possibilidade de ascender socialmente e se viu retornando, na melhor das hipóteses, ao patamar antigo em que se encontrava. E pior: endividada.

Bolsonaro, fazendo de Trump o seu herói.
E aí vem mais uma pergunta, nesta confusão planetária, na qual estamos todos incluídos, cada qual com seu cada qual, temos um Donald Trump capaz de liderar esses descontentes? Ok, a primeira lembrança cai para Jair Bolsonaro, que também se acha. Eu acredito que ele ainda está muito longe de um Trump, mas é bom não esquecer da eleição do Collor, o tal de “caçador de marajás”, que – com um exíguo tempo no horário eleitoral gratuito – desbancou um dos maiores contingentes de candidatos, formado por políticos experimentados, os pesos pesados da política nacional, como nunca se tinha visto, até a humilhação final, que foi a derrota acachapante sobre Lula, no segundo turno.

Falta muito a Bolsonaro, mas é sempre bom lembrar, também, que é preciso apenas um pouco de vento a favor, para impulsionar o barquinho de personagens esquisitas e carta aparentemente fora do baralho. A história, antiga e recente, está aí, cheia de exemplos. E se a política continuar a esquecer essa parcela, cada vez mais importante da nossa população, podemos contar com surpresas a lá Trump. E pode ser bem mais rápido do que podemos imaginar.