terça-feira, 8 de novembro de 2016

MARIANA: 1 ANO. E VEM MAIS TRAGÉDIAS POR AÍ.


Foi em 5 de novembro, do ano passado, que a barragem do Fundão rompeu, derramando 35 milhões de m3 de “lama” em uma área de 700 km, deixando desabrigadas 1.500 pessoas, 18 mortas e uma desaparecida. 27 cidades de Minas Gerais e do Espírito Santo foram prejudicadas na economia e no abastecimento de água. E pior: ainda hoje, um ano depois, a lama da barragem continua a tingir de marrom o Rio Gualaxo do Norte, que deságua no Rio do Carmo e segue tragicamente até o Rio Doce e o oceano Atlântico.
 
Sabe-se hoje que existem cerca de 500 mineradoras, operando do mesmo jeito irresponsável da Samarco. Metade delas em Minas Gerais. São tragédias anunciadas. E ao que tudo indica o triste exemplo de Mariana pode se repetir, já que nossas autoridades primam pela lerdeza e falta total de senso de justiça.


O que se assiste hoje é o já conhecido jogo de empurra e faz de conta, entre a empresa, que provocou a maior tragédia ambiental do país, e as autoridades e demais órgãos públicos envolvidos direta ou indiretamente com o drama. Com o agravante da discriminação que os moradores de Bento Rodrigues, em Mariana, passaram a sofrer, como se fossem eles a causa da tragédia que atingiu o município.

Nada a rigor foi feito até agora, para resolver, em definitivo a situação das vítimas, que sobrevivem a base de um cartão de débito fornecido pela Samarco, cujo limite é de um salário mínimo. E pior – sempre tem – descobriu-se agora, que uma barragem emergencial, para conter o vazamento da lama, na verdade de emergencial não tem nada e já estava nos planos da Samarco, mesmo antes do rompimento de Fundão.

Na justiça descobriu-se, também, algo estarrecedor, para dizer o mínimo: a Samarco tinha em seu poder um documento, que narrava com riqueza de detalhes a possibilidade real do acidente, que terminou ocorrendo, e não tomou sequer uma medida preventiva. Até o número de prováveis mortos 20 – erraram por apenas duas vítimas – consta do relatório atualmente em poder do judiciário. Estarrecido com as minúcias do documento, um promotor declarou que parecia ter a empresa uma bola de cristal, tal a quantidade de acertos do relatório revelados pela tragédia.

Cruel também tem sido a relação das vítimas com pessoas que não foram atingidas diretamente pelo rompimento da barragem. Seus filhos são chamados de “pés de lama” nas escolas e, até quando fazem compras, recebem olhares e frases discriminatórios ao apresentar seus cartões de débito fornecidos pela Samarco. São acusados até de estarem se aproveitando do ocorrido para extorquir dinheiro e levar alguma vantagem.

Os problemas, causados pela Samarco vão bem além de Mariana. No Espírito Santo, na orla que um dia esteve cheia de turistas, ninguém aparece mais. Pousadas, negócios, a economia das vilas e pequenas cidades foram paralisados. E ninguém foi ressarcido pelos prejuízos. E, ainda que fossem, continua valendo a pergunta de um pescador feita a repórteres de um programa de TV: quem paga pelo fim de um sonho? Quanto vale um sonho destruído por alguém?, ao relatar que teve de retirar os dois filhos da faculdade, onde estudavam, por não conseguir mais pagar as mensalidades, impedido que está, há um ano, de trabalhar no que era a sua principal fonte de renda, a pesca.

A punição, severa, dos responsáveis, talvez venha ainda aconteça, sabe-se lá quando. A reparação econômica e social das vítimas da tragédia anda a passos de tartaruga, que aliás também foram atingidas em seus locais de desova, lá longe de Mariana, nas praias do Espírito Santo. A lição de Mariana talvez ainda venha a ser aprendida e novas tragédias sejam evitadas. Queira Deus que com o tempo tudo isso, toda essa tragédia e suas consequências não sejam esquecidas.