sábado, 24 de dezembro de 2016

NOEL E EU: VERDADES E MENTIRAS.


Confesso que sou incapaz de lembrar, exatamente, como foram as descobertas, por parte da minha prole, da inexistência do “bom velhinho”. Os mais velhos certamente foram vítimas da minha fase comuno-stalinista, que graça a Deus, foi relativamente curta, apesar do entusiasmo “à causa”, que me rendeu inclusive um apelido, usando ainda por antigos companheiros, de Béria, o temível chefe da polícia política de Stalin. Mas lá vou eu derivando.

Como avô e “dindo-avô”, deparo-me, depois de muitos anos, novamente, com a dúvida: é certo, ensinarmos, ainda que de forma indireta, que as crianças não devem mentir, ao mesmo tempo em que admitimos que elas podem ser enganadas e que adultos, não devem ser enganados, mas podem mentir?

Dito assim parece algo capaz de influenciar caráter e moldar existências, mas olhando para trás nenhum dos meus filhos cresceu melhor, ou pior, por conta da “lenda” sobre Noel e, ainda que imprópria data, acrescento o Coelhinho da Páscoa.

O meu neto acredita, ainda, em Papel Noel, seus duendes e renas. Inclusive, preocupado com o trabalho insano do “bom velhinho, circulando pelo mundo a distribuir presentes, teve o cuidado de pedir que os pais preparassem um “gagou” para o dito cujo. Não tenho certeza se um lindo exemplo de solidariedade, com quem lhe traz presentes, ou uma artimanha para ficar bem com o Noel e, com isso, ampliar suas chances, quantitativas e qualitativas, de ganhos.

Hoje, livre das obrigações de educando, deixo para os pais e mães agirem como acharem melhor e danço conforme a música. Na verdade não dou tanto bola para essa questão, da verdade ou mentira, sobre a existência do Noel, assunto que inspirou até mesmo ao antropólogo Claude Lévi-Strauss, que publicou um ensaio, Papai Noel Torturado, na revista Temps Modernes, em 1952, referindo-se ao linchamento, de um boneco representando Noel, promovido por religiosos, em frente a catedral de Dijon, no ano anterior.

A existência de Noel é só uma lenda. Acreditar, ou não, duvido que molde caráter ou que influencie vidas. Lembro que deixei de acreditar no dito cujo, quando, já muito desconfiado da lenda, fingi que dormia para dar um flagrante no meu pai de criação. E que fingi também, que nada tinha descoberto, premiando ainda por alguns anos, o seu esforço em me premiar com sonhos.

Lembrei disso tudo ao conversar com o meu neto, que me relatou estar um dos duendes do Papai Noel doente, razão pela qual, segundo lhe explicou o “bom velhinho” em carta, não será possível entregar os presentes solicitados, ainda que – esforçando-se – explicou tenha conseguido outros similares. Desconfio que o nome deste camarada seja, na verdade, Papai Noel Temer Lula da Silva.

Eu de toda essa história, como avô e, em breve, dindo-avô, espero apenas continuar partilhando com as crianças da minha vida suas fantasias e sonhos. Não consigo pesar em presente melhor para pedir ao Papai Noel, neste Natal.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

COMENTARISTAS POLÍTICOS OU DE FOFOCAS DO PLANALTO?


Nos programas de notícias das rádios e TVs e nos artigos de jornais, com as honrosas exceções de sempre, me assusta o peso que é dado as futricas palacianas, às intrigas políticas do Congresso e os escândalos de corrupção das dezenas de dezenas de operações deflagradas pela Polícia Federal e o Ministério Público.

Eu conversei com o fulano, sicrano me segredou, o que se comenta no cafezinho... são os chavões, entre outros, usados como entrada para comentários e artigos. Além dessa forma torta, uma vez que usada a exaustão, choca a disparidade de tempo empregado em detrimento de assuntos mais importantes, alguns decisivos, para recuperação da economia e soerguer instituições, avacalhadas nos últimos anos.

A ênfase, dada exclusivamente as estrepolias dos políticos, deixando praticamente sem menção os assuntos que, mesmo insuficientes, são vitais para a nossa recuperação, a mídia presta um enorme desserviço ao País. Insufla o ódio aos políticos e a política, deixando de lado o seu dever imperioso de informar, esclarecer e ajudar a pensar.

Ora, direis, a culpa é dos políticos que se encontram chafurdando na lama da corrupção e passam a maior parte do tempo cuidando dos seus interesses, a maioria deles escusos mesma, e dando pouquíssima atenção ao que realmente interessa à nação. É verdade, mas ao debruçar-se com tanta ênfase nesses assuntos em detrimento de medidas, algumas inclusive que vem sendo tomadas, positivas, fomentam o ódio e o desprezo pela política, único caminho para sairmos do poço onde estamos afundados.

Não existe saída fora da política. O descontentamento e o radicalismo contra com os políticos e a política, fomentados e insuflados pela mídia, diariamente, é uma jogada de risco. Levados às últimas consequências são uma porta aberta para os populistas de plantão, os salvadores da pátria, tanto faz se à direita ou à esquerda, que nos levarão ao caos e a ditadura. Já vivemos coisas semelhantes e seria bom se aprendêssemos com a nossa história.

Informar bem os eleitores, ampliar a discussão das medidas urgentes que precisam ser tomadas, pode colaborar para que sejam eleitas pessoas melhores, com ideias e projetos necessários para superarmos as nossas dificuldades. Este é o único caminho possível para seguirmos em frente. O outro é apenas o caos.

TEM OTIMISTA NESTE NATAL: OS BANCOS.


Já tinha implicado com os esquizofrênicos comerciais natalinos do Banco do Brasil e do Itaú, mas Eugênio Bucci, num artigo com o mais que adequado título, Perdidos no tempo, publicado hoje no Estadão, diz tudo o que penso e mais um tanto (bastante mais) e com um foco muito maior. Vale ler, se quiser se ilustrar. Eu, aproveitei a deixa, mas fico aqui, com minha visão bem mais reducionista.

É surpreendente (ou não?), que diante do caos em que estamos mergulhados, as instituições bancárias tenham a cara de pau de rotular 2016 como “um ano inesquecível”, feito por “aqueles segundos que se tornam eternos dentro da gente”, embalados, no caso do BB por uma canção, cujos versos são demais conhecidos: isso me acalma, me acolhe a alma. Devem ser as dívidas, a inflação e a ladroagem, que germinam como ervas daninhas em todos os grotões neste imenso Brasil, que tornaram 2016 inesquecível. E conclui: Feliz 2017. E conte com o Banco do Brasil em cada segundo. Que saber? Eu pagaria um boa grana para saber qual é o chazinho que os criadores, e aprovadores, das campanhas do BB e do Itaú andam tomando.

O Itaú, também, não deixou por menos e, saiu dando conselhos: “pense menos em mim, e mais em você. É perdendo tempo que se ganha a vida.O segredo do tempo”, se dispõe a contar, “não está nas horas que passam, está nos momentos que ficam”. E vai por aí, até assinar, com uma rima pobrinha: “Itaú Digital, para você ter mais tempo para ser pessoal”.

Bucci é um jornalista ilustrado e professor de renome da ECA-USP e cita Newton, Espinoza, Gerald Whitrow, ntre outros, além de filmes marcantes, para demolir os argumentos dos bancos. Eu vou aqui mais no grosso, pois não possuo a sua verve. Dinheiro não dorme e não perde tempo. Se você sair por aí, curtindo uma de jovem anos 60, pensando mais em você, que nos bancos onde tem conta e acreditando contar com eles para ter mais um 2017 inesquecível, provavelmente o terá, mas – com certeza – serão lembranças catastróficas. Abra o olho e não caia na conversa dos bancos. Eles estão por aqui apenas para se darem bem. Muito bem. E às suas custas, pode acreditar, inclusive produzindo comerciais como estes, onde parecem estar dando uma curtida com a cara dos seus correntistas.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

O JUDICIÁRIO TAMBEM PRECISA DE FREIOS


O entusiasmo com o Judiciário, com uma parcela do Judiciário convém ressaltar, é fenômeno recente e necessitado, urgentemente, de moderação e critérios. Alçados a categoria, sempre perigosa, de "salvadores da pátria", juízes e promotores públicos, agem como se não tivessem satisfação alguma a prestar à sociedade e aos demais poderes, legalmente constituídos, goste-se ou não da turma que os compõem.

Só os mais tolos, ou mal intencionados, são capazes de acreditar que um judiciário fora de controle é algo sadio para a nossa sociedade. Vivemos atualmente sob o pré julgamento onde, muitas vezes, se julga e se pune ao sabor dos vazamentos e dos encantos da mídia. Todos são suspeitos, todos, de uma forma ou de outra, são culpados, com a exceção honrosa dos membros do Judiciário.

O que está acontecendo é que – com base no vazamento seletivo e organizado – de delações premiadas e fatos relacionados às investigações em curso, o Judiciário age e influencia no agravamento da crise, tendo como base unicamente a “reforma moral” do País, ao mesmo tempo em que se constituem numa casta de intocáveis, que vai se sobrepondo ao sistema político institucional.

Vamos logo deixar claro: a ladroagem precisa ser investigada e punida, exemplarmente, inclusive, mas o Judiciário não pode tomar o poder de assalto, desestabilizando todas as demais instituições, sem a menor disposição/intenção de fazer os sacrifícios que vão sendo impostos a todos os demais setores da sociedade.

O vazamento seletivo, seja das delações ou do andamento de processos e investigações não é espontâneo nem ocasional. É organizado e tem objetivos. O Judiciário não pode ter a pretensão de estar acima e imune a tudo, se comportando como se tivesse alguma missão a cumprir. Não. Cabe aos membros do Judiciário apenas cumprir a Lei. E deve começar, ou terminar, não importa, desde que rápido seja, pela própria casa. Basta ver as últimas interferências da Suprema Corte em questões exclusivamente da alçada do Congresso. E sim, sabemos da estatura moral do atual Congresso, mas ainda assim, é preciso preservar os limites e atribuições de cada um dos poderes, pois em caso contrário mergulhamos na anarquia generalizada, o caminho fácil para a implantação de regimes de exceção.

É verdade que a anarquia, e a desonestidade, sem paralelo, do nosso "presidencialismo de coalizão", levou os partidos e outros poderes da República, virando nada mais, nada nada menos, que centrais de negócios, na sua maioria absolutamente escusos. Mas isso não autoriza os membros da toga a tomarem conta do País, ignorando – e aí está o ponto de maior gravidade – as graves questões econômicas e sociais, já que, inclusive, um projeto para resolver essas questões não possuem, nem é o caso, centralizados que estão, ao menos aparentemente,  na “reforma moral”.

É preciso que a sociedade apoie e continue dando força ao combate a corrupção, mas que não extrapole esse apoio para um endeusamento do Judiciário e, especialmente, de alguns dos seus representantes, alçados a categoria de santos e de únicos pilares da moral, da justiça e da ordem pública.

Queremos Justiça, mas não desejamos uma ditadura da toga. Isso precisa ficar claro. E já.

SAI DILMA, ENTRA TEMER, SAI TEMER ENTRA...?



Fora  Dilma, fora Temer, fora todo mundo não é a solução para os nossos problemas.

Por um momento, parece-me,    todo mundo, ou quase todo mundo, acreditou que todos os nossos problemas “se acabaram-se” com a saída da Dilma da Presidência. Bastava Temer assumir que – num passe de mágica – viriam o crescimento, a punição de toda a ladroagem, o emprego farto e por aí vai. Volta e meia retomamos os “fora fulano, beltrano e sicrano”, na vã esperança que defenestrando uns e outros da vida pública, resolvemos os todos os nossos problemas estruturais. O que não significa que fulanos, beltranos e sicranos não mereçam cair fora, pelo contrário. O que não vale é acreditar que isso basta.

E pra seguir na conversa... ok, ok, o “fora Temer (seja lá por que motivo for, não importa) resulta em que mesmo? Em eleições indiretas, pelo Congresso Nacional, como prevê a Constituição, em caso de vacância nos dois anos finais do mandato?  Por antecipação das eleições gerais, previstas para 2018? E aí? Vamos com qual “Salvador da Pátria” de plantão, para nos meses seguintes estarmos gritando, novamente, mais um “fora não-sei-quem-qualquer? Não se trata aqui, de defender o governo Temer, mas de indagarmos sobre o que precisamos realmente fazer para – no mínimo – pararmos de escavar o fundo do poço, onde nos encontramos. E, sem esquecer, quais os tipos que temos, de plantão, para substitui-lo. Temos algumas opções que, sinceramente, melhor ficar com o que já temos.

O “fora todo mundo”, infelizmente, está vindo junto com a demonização da classe política e, pior, da própria política, com o paralelo e desnecessário endeusamento do judiciário. Cadeia para a ladroagem é algo salutar, seja lá quem for o ladrão, mas também não está nos presídios cheios, nem nas mãos falsamente limpas do judiciário, toda a solução dos nossos problemas.

Sem a política, sem a classe política o que teremos pela frente é a ditadura. E engana-se que imagina que ditadura só acontece quando os coturnos deixam os quartéis e vão para as ruas e depois aos palácios. E, também, não adianta incluir, no “fora todo mundo”, o povo, responsável final por ter elegido todo mundo que está, ou estava, aí no poder. O povo não é uma entidade única, formado por um só pensamento e uma única ação. E no povo estão incluídas todas as poderosas corporações, incluídas aí as que representam o judiciário, que se opõem as mudanças necessárias para nos tirar do atoleiro, com Temer ou com quem quer que seja.

A FAVOR DAS REFORMAS, PERO NO MUCHO.

Todo mundo se diz a favor das reformas, a retomada do crescimento e das oportunidades, mas desde que os sacrifícios sejam feitos pelos outros. A igualdade de todos parente a lei, não faz parte da nossa cultura, muito menos que todos terão que fazer sacrifícios se quisermos sair do fundo do poço, se não quisermos passar a ser um país “esquecido pelo mundo, envolvido apenas com os nossos problemas, cada vez maiores.

Os funcionários públicos não podem continuar tendo um regime diferenciado, das demais categorias de trabalhadores, nas suas aposentadorias. Os políticos também não. E o judiciário muito menos, com seus penduricalhos salariais, como auxilio paletó, de moradia etc., etc. As relações trabalhistas precisam de uma reforma. Os privilégios de corporações, classes e atividades também. Isso para ficar em poucos exemplos. O mundo ideal da Constituinte de 1988 acabou. Não existe mais. 

Precisamos urgentemente de honestidade, muita disciplina, de muito trabalho e aprender a poupar. Isso no sentido amplo. Governantes, as castas, as corporações, o povo, todo mundo precisa aprender isso e já. Não se reconstrói um país sem sacrifícios, mas eles tem que ser gerais. Todo mundo tem que pagar um preço, ainda que este preço seja diferenciado pelas posses. Quem tem mais, quem tem menos...

E, por fim, precisamos esquecer, e já, o “fora todo mundo” como fórmula para sairmos da crise. Quem merecer ser posto para fora deve sair. O expurgo é necessário, geral,  irrestrito e inadiável, mas ele, por si só, não salvará o país.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

CONTINUAMOS A CAVAR O FUNDO DO POÇO

Uma verdadeira esculhambação geral tomou conta do país. Ninguém se entende.  A última, iniciada pelo ministro Marco Aurélio, parece não chegar ao fim. A decisão desastrada, já que ocorreu em um processo que estava em julgamento pelo STF.

Uma parte dos ministros já tinha se manifestado favorável à impossibilidade de réus figurarem na linha sucessória, mas sem uma certeza quanto à forma de implementação. Outra parte considerou pular a vez da autoridade ré na linha sucessória, passando para a seguinte. Outros defendiam ainda a impossibilidade de réu ocupar o cargo previsto na linha sucessória.


Dias Toffoli pedindo vistas e a decisão de Marco Aurélio foram tomadas como uma espécie de afronta ao colegiado. O resultado disso é que tudo piorou. A Suprema Corte é palco do individualismo dos seus ministros, que não se furtam, sequer, de expressarem as suas opiniões a torto e a direito. Renan, que dentro de poucos dias deixa a presidência do Senado, saiu bem chamuscado, mas permanece no posto e pronto para retaliar o judiciário, que por sua vez exibe suas armas contra o Congresso.

As manifestações voltaram as ruas. Algumas mais raivosas, promovendo quebra-quebra. Até onde irão ninguém sabe. Pode ser que a violência se espalhe. Em Brasília quebra-quebra, novamente. Em São Paulo, por enquanto, pacífica, pedindo a antecipação das eleições para presidente.

O certo é que nada foi resolvido, ainda que a PEC do Teto tenha sido aprovada e que todos os poderes foram contaminados, nenhum conseguiu ficar imune diante da gravidade, do tamanho da crise, atingindo agora, com toda a força o judiciário.

Não estamos mais apenas no fundo do poço. Estamos a cavar no fundo. Com o enfraquecimento de todas as instituições, que estamos a presenciar, ninguém é capaz sequer de vislumbrar os seus efeitos, ainda que esteja claro que um dos seus efeitos pode ser um enfraquecimento, até mesmo irreversível, da nossa claudicante democracia. A irresponsabilidade geral pode nos levar ao caos completo e absoluto.   

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O PCC FALOU TÁ FALADO


Ao contrário de outras “instituições” da nossa República, o PCC não vacila, não emite ordens dúbias, nem permite interpretações à gosto. A última, foi ordenar o fim das brigas das torcidas organizadas, feita no dia em que as quatro dos grandes times de São Paulo, prestaram uma homenagem à Chapecoense e firmaram um acordo de paz nos estádios. Na mídia cenas jamais registradas: bandeiras do Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos, agitadas, lado a lado, na mistura de torcedores, juntos, sem nenhuma animosidade registrada.

Sem querer, querendo, ser gaiato, taí um bom exemplo de como as coisas poderiam funcionar melhor, nas esculhambadas instâncias oficiais do nosso país, onde até o “salve” da Suprema Corte é alvo de chacota e descumprimento às claras.

Os porta-vozes da organização disparam ordens, em áudios, que circularam nas redes sociais e cuja veracidade está sendo investigada pela Polícia Civil. Em duas delas, os homens, que participam das conversas, afirmam que a ordem para a pacificação das torcidas partiu do Marcola, dado como o chefe máximo da organização.

“Receberam ordem do Marcola, que é pra não ter briga nenhuma de torcida. Nem morte, nem briga, nem nada. O cara que brigar vai apanhar, o cara que matar vai morrer. É ordem do PCC, entendeu?” Na outra gravação, mais no estilo do PCC, um suposto líder de torcida deixa tudo, também, bem claro: “Quem deu o salve foi maninho Marcola, acabou a briga, acabou guerra de torcida, mano. Se tiver quem vai (morrer) são os líderes aí, os caras (da zona) norte estavam falando. Acabou mano”.

Um chefe de torcida expressa suas preocupações: “Isso cabe pra todas quebradas, mano. Não estou brincando. É referente ao comando. Pôs a pedra em cima do bagulho, tá ligado? Se brigou na zona norte, a gente brigou, o que acontece? O bagulho vai berrar para nós que somos lideranças. Matou um moleque que é inimigo, nós vamos morrer também”.

O PCC não é uma organização para se levar na brincadeira e muito menos com o desleixo com que as autoridades agem contra ela. Hoje ela passa por uma reestruturação (olha aí mais uma lição, esta para os partidos políticos) e se prepara para adotar um novo modelo de organização.

Os responsáveis pela “lei e a ordem” afirmam que estão se mexendo. No mês passado nada menos que 33 advogados foram presos. Eles atuavam como mensageiros do PCC, fazendo a ligaçãoo entre os presídios e os que atuam fora deles. Médicos, enfermeiras e dentistas também estão sendo presos, por atuarem do mesmo jeito dos advogados.

Hoje o PCC atua em 22 dos 27 Estados. Em alguns deles está em luta contra facções rivais, em busca do monopólio do crime, estendendo, também, os seus tentáculos em países vizinhos, como o Paraguai.

O PCC vem demonstrando a sua força e audácia há mais de duas décadas, sem que as “otoridades” consigam vitórias expressivas contra a organização. Até quando isso vai durar ninguém sabe. Fica a dúvida e uma ironia sem igual: no Brasil o que funciona mesmo são as organizações criminosas.

domingo, 11 de dezembro de 2016

RECORTES DE DOMINGO

Ao folhear despreocupadamente o jornal de domingo me deparo primeiro com Leandro Karnal a perguntar se eu seria capaz de identificar as cinco datas mais marcantes da minha existência ou, pelo menos, o que consegui no ano de 2016 e quais seriam os dias especiais, deste ano que já vai indo. Lembrei de muitas, das mais marcantes de 2016 e bem mais de cinco da minha existência, mas as deixei passar leves e prazerosas, deixando de lado as nem tanto, afinal, é só uma manhã de domingo.

Saltei de Karnal para Oscar Quiroga, que me instou a assumir a minha liberdade, pois me “encontro no lusco-fusco entre o antes que não é mais e o depois que ainda não é. Por isso, me diz, é importante assumires tua liberdade e te movimentares com leveza, já que és maior que as circunstâncias. Tudo que preciso fazer, me diz, é coordenar a minha vida interior com a vida exterior. Mas adverte que e mais fácil dizer isso que fazer.

Em outras páginas, quase que para responder a Karnal, me deparo com Wanderléa, sim a “ternurinha tremendona”, que do alto dos seus 70 anos (oh, céus) está pronta para mostrar, em um musical, como ditou moda e antecipou atitudes, nos anos 60, quando era ainda uma garota de 19 anos, a me encantar no TV Record, com o Programa Jovem Guarda, ao lado de Roberto e Erasmo Carlos.

Lembrei da Jovem Guarda, de Elis Regina, dos muxoxos da esquerda que os classificava de alienados e até de uma passeata contra a guitarra elétrica, com Elis, Gil e Edu Lobo de braços dados. Lembrei de como curti tudo isso, da esquerda ao rock alienado. Como eram bons, ainda que sob a ditadura esses anos.

E, provavelmente, mais influenciado por Quiroga e seus conselhos presságios me deparo com um personagem, o Marcos Mion, que sempre achei um idiota de carteirinha, a me comover e com isso lembrar em rever sempre os conceitos que faço das pessoas. Mion está lançando um livro, inspirado em Romeo, seu filho de 11 anos, e em um Natal em que ele lhe pediu, singelamente, apenas uma escova de dentes azul de presente.

Romeo tem Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Mion conta, com graça, generosidade e muito amor, como ele e sua mulher, Suzana, lidam com o cotidiano de Romeo e dos seus outros dois filhos, Donatela e Stefano e, principalmente, sobre as lições que aprendeu com Romeo.

Já tinha decidido que eram muitas “lições de vida”, para um simples folhear de um jornal domingueiro, quando resolvi dar uma olhadinha final no Veríssimo, o que nunca faço. E lá está ele a, citando Millôr (e tome recordações), conjecturar sobre um instante na vida de qualquer pessoa em que ela pensa: nunca me senti tão feliz como nesse exato momento. E que, em seguida, vem outro pensamento: nunca mais me sentirei como agora”.  Sim, já vivenciei isso, mas assim como Veríssimo, hoje, também “desminto a segunda parte da filosofia de Millôr”. Assim como Veríssimo, sei/sinto que vivi muitos e muitos momentos de felicidade. Se olhar direito, como propôs Karnal, para a minha existência, descubro uma infinidade deles. E tenho certeza de que muitos e muitos outros ainda virão, ao lado da minha mulher, que me tolera a nada menos que 25 anos, dos meus filhos e neto, por enquanto este no singular.

E dei por visto. É muita coisa para um despretensioso folhear de um jornal de domingo.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

CAVANDO NO FUNDO DO POÇO


Tem uma turma que não toma jeito. Como se não bastasse a crise econômica, com milhões de desempregados e sem muita perspectivas de melhoria, com estados, um atrás do outro decretando calamidade financeira, a turma faz questão de criar novos fatos, gerando uma crise, essa também, sem paralelo, na política.

Primeiro foi o tal apartamento do deputado, ex-ministro Geddel Vieira Lima, coisa aparentemente insignificante (em termos, claro, se comparado com os nossos maiores problemas) que deveria ter tomado um “chega pra lá” do presidente, cresceu, avolumou-se ao ponto de termos um ministro gravando colegas e até o presidente, sem que até hoje se conheçam os reais motivos que estavam/estão por trás disso tudo.

Enquanto medidas nada populares esperavam pela decisão/voto dos parlamentares, vivemos por vários dias, a crise do apartamento, chamada jocosamente por um amigo meu de “nascimento da História Política Imobiliária Brasileira”.

Após a crise imobiliária, nada satisfeitos, políticos e o judiciário resolveram patrocinar uma ópera bufa. Primeiro os políticos partiram para a ofensiva, tentando uma blindagem contra eventuais “perseguições” por parte do judiciário, que tentou reagir. Deu no que deu. Agora temos no congresso uma série de leis sendo discutidas, algumas em vias de aprovação, onde “crimes” são anistiados, medidas esdruxulas contra juízes, promotores e até policiais têm as suas atividades cerceadas e ameaçadas.

Difícil acreditar que poderia ser pior, mas ficou. O ministro Marco Aurélio decidiu, numa liminar, destituir o presidente do Senado, acolhendo pedido da Rede. Não se trata aqui de julgar Renan, que tem nada menos que 11 processos dormindo o sono dos justos na burocracia do STF. E deu no que deu. Renan simplesmente ignorou a decisão, se escondendo do oficial de justiça, enquanto os seus pares se preparavam para o confronto com o Supremo.

A Suprema Corte, acuada, graças ao açodamento do Marco Aurélio, foi pega de calças curtas, tendo ao mesmo tempo de prestigiar o seu ministro e limpar a sujeira que ele promoveu.

Para quem acredita que tudo está resolvido, pode tirar o cavalinho da chuva. São muitos os que estão cavando, com boas ferramentas e entusiasmo ímpar, o fundo do poço. Sobreviveremos?