quarta-feira, 29 de março de 2017

REFORMA POLITICA: UMA GERINGONÇA.


Continuam lá pelo Congresso a tentativa (mais uma) de uma reforma política, cuja estrela maior é a tal de lista fechada, que promete criar mais confusão e caos  que melhorar o processo. Noves fora a intenção - clara -  de continuar mantendo o foro privilegiado para o pessoal que está na mira da Lava Jato e seus filhotes, ela tem tudo para ser um elefante movendo-se em loja de cristais. Com 35 partidos registrados, até o momento, como é que o eleitor (que diga-se de passagem não acompanha tanto a política como se imagina) vai votar em partidos e não em nomes, como já acostumado a fazer há mais de 50 anos, pelo menos?

O voto em lista fechado é aquele em que o cidadão escolhe representantes de partidos com os quais compartilha de algum ideário, tem alguma sintonia com as  suas propostas. Normalmente a escolha é feita entre um partido mais conservador, um outro de centro e um mais a esquerda. Como escolher entre mais de 30 partidos, cujas ideias sequer somos capazes de adivinhar? Fiquemos, por exemplo, apenas nos três mais importantes: PT, PSDB e PMDB. Saberia o nobre leitor distinguir, com clareza, as plataformas de cada um desses? Imagine então este exercício feito entre os 35 atuais e a fila que existe a espera do registro, quando chegaremos aos 40 ou mais agremiações partidárias.

E tem mais jabuticaba nessa parada. Ao que tudo indica pretendem manter a coligação partidária, uma coisa completamente absurda de existir num processo de lista fechada. O eleitor vai votar numa coligação, no ideário de uma coligação, formada por partidos cujos programas ele não faz a menor ideia, muito menos do que reúne os seus coligados.

Outra maluquice que está embutida nessa pseuda reforma. O eleitorado brasileiro, dos que estão votando pela primeira vez agora ao pessoal na casa dos 60/70 anos, nunca conheceu outro sistema de eleição que não fosse o atual, onde se vota em pessoas e não em partidos. Há mais de 50 anos, pelo menos. A coisa mais ou menos parecida com a lista fechada estaria no período da ditadura militar, onde o pessoal do MDB eram os contra e os da Arena a favor, mas ainda assim um exemplo imperfeito. A pergunta é; como vai se comportar este eleitor ao descobrir nas vésperas do pleito que o sistema mudou? E que mudou para uma coisa que ele não tem como compreender?

É tolice imaginar que o conjunto da população esteja acompanhando de perto as tentativas de mudar as regras, como sempre, às vésperas das eleições. O eleitor, a população em geral, estão preocupados com as coisas do dia-a-dia. Preocupados com a crise econômica, com o desemprego, com os intermináveis problemas que afetam as suas vidas e não veem na classe política, essa que está aí, nenhuma condição de resolver, de forma efetiva, os seus problemas.


Seja como for, se essa coisa de lista fechada vier a vigorar o partido que deve-se se beneficiar mais com esta nova jabuticaba é o PT. Não é a toa, embora o pessoal da direita ainda não tenha se dado conta, que deputados e senadores petistas estejam vendo com muita simpatia essa parte da reforma.  Em praticamente todos os municípios do País, o PT é o único partido que existe com um mínimo de organização partidária, com militantes aguerridos, prontos a lutar pela sobrevivência e retorno ao protagonismo político. Com isso pode se beneficiar muito bem com o voto em partido e não em nomes, cada vez mais queimados o que, diga-se de passagem, não sua exclusividade.

Fala-se ainda, como justifica para essa reforma de ocasião, que ela vai baratear as campanhas. É uma conversa que se supõe agrade ao eleitor. Uma conversa tocada pela mídia, inclusive. O argumento tosco é: as campanhas são caras e por isso existem os caixas 1, 2, 3... Campanhas, nos moldes da legislação atual, custam realmente caro, mas – vamos combinar – roubalheira é outro assunto. O dinheiro que rola, teoricamente, para cobrir gastos de campanha, cobririam campanhas e mais campanhas. É dinheiro destinado ao enriquecimento ilícito ou ao suborno. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. E, ao que se sabe, o eleitor nunca se preocupou muito com os custos das campanhas. Ficou ressabiado agora, quando descobriu a montanha de dinheiro, que rola para lá e para cá, entra no como financiamento de campanhas, mas em muitos e muitos casos, trata-se, na verdade, como acobertamento para outros assuntos.
 
O voto em lista vai de encontro, também, a uma outra realidade que passa desapercebida, ou é propositalmente ignorada, que é a renovação das casas legislativas. Qualquer pesquisa rápida no Tio Google demonstra que o eleitor brasileiro manda para casa, a cada eleição, nada menos que 50% dos eleitos anteriormente. É uma tendência constatada há anos. As razões são muitas, mas aqui o que interessa vai ser a surpresa do eleitorado, ao constatar que não podem mais fazer isso e que – pelo novo sistema – vai perpetuar os mesmos de sempre ocupando as cadeiras dos parlamentos.

Como reagirá o distinto público a todas essas mudanças só vendo para crer, mas que não vai ser uma eleição tranquila, com certeza não será. É pagar para ver. Ou sair correndo.