quarta-feira, 5 de abril de 2017

VADIAR PARA PRODUZIR MAIS


Executivos em geral, jornalistas e publicitários, entre muitos outros, são vítimas da produtividade de aparência e das reuniões improdutivas do mercado de trabalho. Até aí nenhuma novidade. Mas já tem gente contestando tudo isso e advogando o ócio produtivo.

Pesquisas informais indicam que os dias de trabalho dos brasileiros são muito mais longos que seus pares em outros países. E, é claro, muito menos produtivos.

Discute-se em longas reuniões assuntos que poderiam ser substituídas por uma simples troca de e-mails e outros recursos. A conexão eletrônica é outra vilã, ao invadir a vida pessoal com trabalho, na maior parte do tempo, com questões que poderiam, sem nenhum problema, ser tratado durante o expediente normal. A falto de foco é outro problema apontado para explicar, também, o tempo excessivo dos brasileiros no trabalho.

Para quem estiver disposto a mudar de vida há alento. Lucia Guimarães,
colunista do Estadão, que mora em Nova York, comentando o assunto, trouxe depoimentos de algumas personalidades mundiais, bem sucedidas, que incluem horas de ócio como fator de aumento da produtividade, como Charles Darwin e Ingmar Bergman. Os dois trabalhavam apenas algumas horas por dia, mas deixaram uma produção alentada.

Alex Soojung-Kim Pang, um autor americano, acredita que algumas grandes figuras históricas deveriam ser estudadas não apenas por suas conquistas, mas também pela maneira como descansavam. Alex, um veterano do Vale do Silício e fundador da Restful Company, uma consultoria que se debruça sobre o problema do excesso de trabalho e seus efeitos na produtividade, é autor do livro Rest, Why You Get More Done When You Work Less (Descanso, Por Que Você Faz Mais Quando Trabalha Menos).

Segundo Alex, pessoas talentosas vão longe, não apesar do lazer e/ou do descanso, mas – para surpresa geral – por causa deles. Ressalta, no entanto, a necessidade de uma disciplina, de manter o foco, durante o trabalho e ao mesmo tempo administrar corretamente as horas, os momentos de lazer e descanso, distribuindo-os de forma correta, deliberada e consciente.

Faço coro a Lúcia Guimarães: mais ócio, menos reuniões, mais produtividade.


JAIR DORIA X JOÃO BOLSONARO


Ainda que em formatos e conteúdos diferentes, o prefeito de São Paulo, João Doria e o deputado federal Jair Bolsonaro tem conseguido espaço na mídia, como potenciais candidatos à Presidência da República. Em comum, os dois, registram em pesquisas recentes um índice alto de desconhecimento, algo em torno dos 30%, do eleitorado brasileiro. Com essas taxas, supõe-se, teriam ainda grandes possibilidades de crescimento, seja na aprovação ou rejeição de suas eventuais candidaturas.

Os dois tem mais coisas em comum: “somos diferentes dos demais políticos”, como bem observou Bolsonaro, em um evento militar, realizado em São Paulo, onde estiveram frente à frente pela primeira vez e trocaram delicadezas.

Bolsonaro é candidato declarado a Presidência. Doria é frequentemente citado como um potencial candidato, por amigos (ou seriam inimigos) e ultimamente abusa dos discursos com um tom nacional, criando inimizades entre as hostes do seu padrinho, o governador Geraldo Alckmin.

Mas o que torna atraentes os dois, capazes de mobilizar um exército bastante significativo de eleitores que os aprovam? Bolsonaro é nitidamente de direita. Ou melhor da extrema direita, o tipo de político que ameaça consertar “tudo isso que está aí” usando a força. Doria apresenta-se como gestor, afastando-se, sempre que tem oportunidade, das características dos políticos tradicionais.

Se Bolsonaro abandonar, pelo menos em parte, o seu discurso ultra radical, pode sem dúvida aumentar e diversificar o seu grupo de apoiadores. Não é difícil encontrar eleitores enfurecidos com os políticos e com a política em geral, que podem ser atraídos pela retórica belicosa do deputado. Vale ressaltar que mesmo radical, o seu discurso encontra eco, inclusive, em setores aparentemente refratários ao tipo de ideias defendidas pelo deputado. Em palestra na Hebraica do Rio de Janeiro falou em acabar com as reservas indígenas e quilombolas, além de restringir a entrada de “qualquer tipo de pessoa” no País e foi aplaudido.

Doria faz o tipo gestor, bem ao gosto dos eleitores cansados das estrepolias e ineficiências dos políticos tradicionais. Prestes a completar 100 das à frente da maior e mais rica prefeitura do País, apesar do sucesso de algumas de suas intervenções e de outra nem tanto, ainda falta muito chão para consolidar ( e ser testado) o seu jeito de governar.

O fato é que os dois retratam, cada um no seu quadrado, o desalento da sociedade com os seus atuais representantes, no executivo e no legislativo. Resta saber para que lado penderá a balança, se os votos, no futuro irão para o modelo “gestor anti-político” ou para a direita mais radical.

A lançamento de Doria como presidenciável é de uma precipitação obvia. Já a de Bolsonaro, no momento, parece longínqua de se consolidar, mas sem dúvida as suas ideias encontram cada vez mais ressonância entre o eleitorado insatisfeito.

É esperar para ver.

terça-feira, 4 de abril de 2017

UMA IDEIA MUITO BEM VINDA DO PT


Alvíssaras! Um boa notícia vinda do PT pode dar um fim nesse mimimi de golpe, golpe, golpe. Fora, fora, fora tudo e iniciar um processo muito interessante de compreensão do que deseja esse pobre coitado, sempre relegado ao segundo plano, o eleitor brasileiro. As boas novas vem de uma pesquisa de profundidade, uma prima mais nobre das qualitativas, intitulada Percepções e Valores Políticos nas Periferias de São Paulo, realizada pela Fundação Perseu Abramo.

O foco esteve nos ex-eleitores do partido e revelou dados muito interessantes. Mas o que vale ressaltar, sejam quais forem os resultados, é o fato de um partido político decidir ouvir direito o que pensam as pessoas e com isso balizar as suas políticas. Se o exemplo for seguido e – o que é mais importante – servir para o PT repensar as suas políticas, podemos ter uma novidade realmente significativa na política nacional. Outra novidade importantíssima, que vale ressaltar, principalmente em se tratando do PT,  é o desejo da Fundação Perseu Abramo de ampliar a discussão sobre os resultados da pesquisa, com pesquisadores de “posições políticas diversas das nossas para um debate aberto”, nas palavras do seu presidente, Marcio Pochmann. A iniciativa foi vista como “positiva” pelo vice-presidente do PSDB, Alberto Goldman, que demonstrou interesse em um debate entre a fundação do PT e o Instituto Fernando Henrique Cardoso.

O inimigo é o Estado ineficaz e perdulário.

A pesquisa revela dados bem interessantes. O eleitor da periferia tem uma visão extremamente negativa do Estado, um “inimigo” responsável por se apropriar do dinheiro dos impostos e oferecer serviços de péssima qualidade . Além disso, não cria políticas que ajudem na ascensão social. Para “subir na vida” a única forma é o mérito pessoal, cuja melhor representação estaria, na visão desses eleitores, em personagens como Lula, Silvio Santos e João Doria.
Em muitas circunstâncias, pausa para se surpreender, a figura de Lula é admirada menos pelas políticas implantadas nos seus dois governos e mais pelo que ele representa em termos de ascensão social.

Conceitos como luta de classes, tão a gosto de militantes e da literatura política de esquerda, foram postos abaixo pela pesquisa, onde o Estado é visto como principal inimigo e obstáculo, com suas políticas ineficazes e incompetentes. Com isso abre-se espaço para teorias mais chegadas ao liberalismo popular, onde a adoção de métodos empresariais na gestão pública passam a ser bem vindos.

As cotas x capacidade individual

Dados curiosos, muito insuspeitados, como a visão da população de baixa renda sobre, por exemplo, a política de cotas, também foram revelados. Ao contrário do que se poderia supor, as cotas nem sempre são bem vistas. Ainda que não neguem a sua importância, como garantia de acesso a oportunidades, rejeitam todas que aparentem lançar “dúvidas” sobre as capacidades individuais das pessoas.

O PT surpreende

No que diz respeito ao PT, mais especificamente, o dado mais surpreendente é o desejo de ampliar a discussão com outros segmentos, inclusive adversários políticos. Se isso vier a acontecer estaremos vivenciando uma mudança de comportamento extremamente saudável para a política brasileira. Resta saber se acontecerá. Vamos torcer, inclusive para que este exemplo seja seguido pelas outras agremiações, que parecem não se dar conta que o discurso atual não tem a menor aderência entre o eleitorado. Basta ver a repetição enfadonha das inserções (comerciais) dos partidos que não dizem nada sobre nada, repetindo uma mesma ladainha que não interessa a ninguém, noves fora o partido de cumprir tabela no horário e assegurar as suas cotas no Fundo Partidário.

Para o PT, mais especificamente, segundo Pochmann, e as esquerda em geral o desafio, hoje, é oferecer serviços novos e melhores, inclusive do que os que foram criados nos governos petistas. Pochmann acha também que o partido vai ter que se aproximar fisicamente para reconquistar esses eleitores, com – além da oferta de novos serviços – prestando mais atenção, valorizando, a capacidade de ouvir.