terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

A ESQUERDA BRAZUCA NÃO ENTENDE A NOVA CLASSE MÉDIA


Uma coisa que me diverte e espanta é o amor e ódio que a “nova” esquerda brasileira nutre com a tal de classe média, bode expiatório para todas as mazelas brasileiras e, ao mesmo tempo, protagonista das recentes políticas de ascensão social do governo.

Saudosistas, e péssimos leitores de Marx/Engels/Lenin e cia, dos tempos em que o mal do mundo e atravancadores mor do progresso social eram a burguesia, os atarantados pequenos burgueses e o lumpenproletariat,  (pra quem gosta de “filosofar”, seguem lá embaixo, trechos, em tradução livre, do O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte de Karl Marx, onde ele aborda muito claramente os seus conceitos sobre pequenos burgueses, classe média e socialdemocracia), esse pessoal não percebe que a “nova classe média” está, nesse momento, apenas se “acomodando” ao seu novo status, mas já traz os valores gratos ao da velha classe média.

Os tempos mudaram senhores. Não estamos mais no século 19. O que os nossos esquerdinhas não conseguem ver é que esse contingente (grande contingente) de pessoas recém alçadas a categoria de classe média (e palmas para o governo) pensa, como já disse, como classe média e é, ainda que sem conhecer o termo, adepta da meritocracia, sem no entanto ser homogênea, seja em termos de consumo, perfil socioeconômico e visão do mundo.

Como irão lidar com ela, então? Fruto exclusivo da política do atual governo ao qual serão eternamente gratos e submissos ou representantes (novos) da velha classe média e, como tais, sujeitos a execração?

Essa nova classe média é um contingente nada desprezível, econômica e socialmente, composto por nada mais, nada menos, que cerca de 108 milhões de indivíduos, com renda individual mensal entre R$320,00 e R$1.120,00 e responsável no ano passado pelo desembolso de mais de um trilhão de reais em produtos e serviços. Só com alimentação foram gastos 223, 3 bilhões de reais. Mais ou menos a soma do consumo, no mesmo período, das famílias da Bolívia, Paraguai, El Salvador e Uruguai juntas.

E o que quer essa gente? Basicamente progredir, dentro dos ideais da social-democracia. E é aí que nossos esquerdinhas se perdem. Primeiro porque na cabeça deles social-democracia é igual ao PSDB, a primeira grande bobagem. A segunda é devido a ignorância mesmo, já que confundem socialdemocracia com neoliberalismo, neoliberalismo com capitalismo selvagem e por aí vai. Basta dar uma olhadinha no que o Marx descreveu como social-democracia para ver, sem a menor sombra de dúvida que é nesse mundo que a nova classe média quer viver, o que não quer dizer que se sinta representada pelo PSDB. Provavelmente ainda é grata aos governos do PT, mas por quanto tempo essa lua-de-mel se dará só futurólogos para dizer, mas se os seus sonhos de consumo e integração maior não forem atendidos, podem acreditar, não demorará muito.

Recente pesquisa da Serasa Experian, feita pelo Instituto Data Popular, com interesses obviamente de balizar consumo dessa nova classe, traz resultados bem interessantes. Para traçar o perfil de consumo o estudo dividiu a nova classe média em 4 grupos: promissores, batalhadores, experientes e empreendedores.



Os batalhadores são o maior contingente. Saíram recentemente da classe D para a C por meio do emprego formal. Acreditam que o seu progresso deve-se aos próprios méritos e que só é pobre que não se esforça para trabalhar. É gente que com renda mensal individual na casa dos 1.200,00 reais, estuda para melhorar de vida, ganhando mais, , faz amplo uso do crediário e, numa combinação de renda familiar consegue acesso a produtos caros, como automóveis, por exemplo.

Logo depois veem os promissores e empreendedores. Os primeiros são jovens, idade média de 22 anos e emprego com carteira assinada. O sonho de consumo desse grupo é cursar faculdade e adquirir um smartphone e um notebook. Esse pessoal gastou cerca de 230 bilhões em 2012 em produtos e serviços.  Os empreendedores gastaram mais um pouco, cerca de 276 bilhões de reais, tem como perspectiva nos próximos anos cegarem a classe B e suas pretensões de consumo são maiores, como fazer, nos próximos anos, uma viagem internacional.

Por fim vem os chamados experientes, grupo composto por pessoas mais velhas, com menor grau de instrução,, com um grande contingente de autônomos nas suas fileiras. É o pessoal que almeja um futuro melhor para suas famílias, que em geral compõem os outros grupos,  e batalha muito por isso.

De uma forma geral, comum a todos, a meritocracia: quem não trabalha é vagabundo. Não quer ser assaltada e perder os seus bens adquiridos duramente, frutos do trabalho, quer casa própria, metrô e ônibus que funcionem, comprar um carro assim que for possível, hospital sem (muita) fila, ir ao cinema, ao salão de beleza, comer pizza no domingo, ir à praia, tomar cerveja, escolas que ensinem... Ou seja uma vida “normal”, marcada pela obviedade das rotinas de trabalho, escola, lazer, consumo e férias, como qualquer pessoa comum. É essa a “consciência social” dessa nova classe média. E fica a advertência para os bobocas de plantão: se essas coisas não vierem a tempo e a hora, como resultantes naturais do duro danado que esse pessoal está dando para se superar, o pau vai comer. 




 

"Contra a burguesia coligada fora formada uma coalizão de pequenos burgueses e operários, o chamado partido social-democrata. A pequena burguesia percebeu que tinha sido mal recompensada depois das jornadas de junho de 1848, que seus interesses materiais corriam perigo e que as garantias democráticas que deviam assegurar a efetivação desses interesses estavam sendo questionadas pela contra-revolução. Em vista disto aliara-se aos operários (...). Quebrou-se o aspecto revolucionário das reivindicações sociais do proletariado e deu-se a elas uma feição democrática; despiu-se a forma puramente política das reivindicações democráticas da pequena burguesia e ressaltou-se seu aspecto socialista. Assim surgia a social-democracia. (...) O caráter peculiar da social-democracia resume-se no fato de exigir instituições democrático republicanas como meio não de acabar com os dois extremos, o capital e o trabalho assalariado, mas de enfraquecer seu antagonismo e transformá-lo em harmonia. Por mais diferentes que sejam as medidas propostas para alcançar esse objetivo, por mais que sejam enfeitadas com concepções mais ou menos revolucionárias, o conteúdo permanece o mesmo. Esse conteúdo é a transformação da sociedade por um processo democrático, porém uma transformação dentro dos limites da pequena burguesia." (MARX, Karl. O Dezoito Brumário de Luis Bonaparte, cit., v. 1, p. 226-227)

"(...) o democrata, por representar a pequena burguesia, ou seja, uma classe de transição, na qual os interesses de duas classes perdem simultaneamente suas arestas, imagina estar acima dos antagonismos de classes em geral. Os democratas admitem que se defrontam com uma classe privilegiada, mas eles, com todo o resto da nação, constituem o povo. O que eles representam é o direito do povo; o que interessa a eles é o interesse do povo. Por isso, quando um conflito está iminente, não precisam analisar os interesses e as posições das diferentes classes. Não precisam pesar seus próprios recursos de maneira demasiadamente crítica. Têm apenas que dar o sinal e o povo, com todos os seus inexauríveis recursos, cairá sobre os opressores" (MARX, Karl. O Dezoito Brumário de Luis Bonaparte, cit., v. 1, p. 229

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

IMPUNIDADE/LINCHAMENTOS/MASCARADOS/“TERRORISMO”/TRAFICANTES/MILÍCIAS/AUTORIDADES PERPLEXAS E DEMAGÓGICAS: ESSE CALDO VAI FERVER.


O tal de tecido social brasileiro está se esgarçando, com um crescente rompimento do contrato social. A insegurança permeia todas, insisto, todas as tais de classes sociais – e só os tolos acham que os “pobres” ou a tal de classe D se sentem seguros ou são, todos, tendentes à contravenção. As polícias, civil ou militar (outra excentricidade exclusivamente brasileiras, essa divisão)  legitima jabuticaba nacional), despreparadas para tudo, só sabem enfrentar a bandidagem na base do enfrentamento direto, no qual sai perdendo na maioria das vezes.  E a cínica sociedade brasileira nada faz para melhorar o desempenho das forças policiais, assim como nada faz para melhorar as condições dos presídios, preferindo o discurso demagógico de justificar certos delitos, pela condição social, ou – pior – partir para fazer justiça com as próprias mãos, espancando supostos (ou comprovados) bandidos.

 

No Brasil pega bem espinafrar a polícia, que deveria se comportar à inglesa, quando a bandidagem de inglesa não tem nada. A ausência do Estado nas favelas do Rio (perdão comunidades) – até hoje – deixou campo fértil para que tudo quanto é tipo de contraventor nelas se instalassem, explorando descaradamente a honesta população que vive nessas áreas. Já nos acostumamos, mas só em países em clima de guerra, civil ou não, tem forças de segurança disputando territórios como vemos cotidianamente no Rio de Janeiro.

A crescente insegurança gera pressão por repressão desmedida. Só os tolinhos, esquerdinhas, todos da classe média bem segura, acreditam que as pessoas comuns estão dispostos a viver muito tempo nesse clima. Pessoas comuns, não importa a classe, ou melhor, quanto mais “baixa” a classe, é essencialmente meritocrática. Não quer ser assaltada enquanto luta pelo transporte ruim para ir e voltar para o trabalho (quem não trabalha é vagabundo). Quer as coisas básicas da sociedade de consumo, como casa, comida, acesso a um mínimo de diversão, tomar umas cervejas, salão de beleza, filhos na escola, equipamentos de saúde com – no mínimo – pouca  fila e vai por aí. E não está disposta, nem que a vaca tussa, a abrir mão de suas conquistas. E se a sociedade não der um basta na bandidagem vão reagir por conta própria e sair batendo em ladrões por aí. Acredite.

E nossas autoridades? Como sempre no mundo da lua. Firmaram o conceito, sabe-se lá de onde tiram essas ideias, de que pequenos delitos são fruto exclusivamente da pobreza e – por via de consequência – devem ser aliviados, mas ao mesmo tempo enchem os campos de concentração, chamados de presídios, de muita gente que nem deveria estar lá. Sem saber o que fazer com os vagabundos que vandalizam nas legitimas manifestações, clamam por leis contra o “terrorismo”, como se quebrar vitrines fosse ato de terror, ao mesmo tempo que acreditam ser legitimo o sujeito ir pra ruas de máscara, por outro motivo que não seja o de transgredir. Fecham os olhos ao tráfico de drogas, tecendo loas aos programas, em geral ineficientes de apoio ao viciados, enquanto as quadrilhas continuam fazendo milhões vendendo, às claras, suas mercadorias. 

Milhões de brasileiros, nos últimos anos (tá palmas para os governos e não se fala mais nisso) ascenderam socialmente. Adquiriam bens e querem mais. Nada mais legítimo. E atentem autoridades: não querem ser ameaçados, muito menos surrupiados os bens adquiridos tão duramente, mesmo se com a ajudinha das mesadas governamentais. E quando a grande massa da chamada classe D finalmente alcançar os padrões de consumo da classe C, vai querer as mesmas coisas: uma vida tranquila, pautada por rotinas normais de trabalho, lazer, consumo, escolas, férias, filhos seguros e por aí vai. E quem ficar na frente vai apanhar. Para usar a linguagem e modos que se insinuam correntes, vai ser linchado, seja o ladrão solitário ou as instituições estabelecidas. Esse caldo vai ferver. E a vida então, o nosso cotidiano, será muito doido, muito violento e provavelmente, muito breve.