terça-feira, 23 de junho de 2015

"COMO GANHAR UMA ELEIÇÃO". CAIA DE QUEIXO COM ESSES CONSELHOS.



Em 64 a.C., Cícero, um político romano, apresentou-se como candidato ao posto de cônsul, um cargo importante, talvez o mais importante, na cena política de Roma. Seu irmão, Quintus Tullius, general e também político, escreveu-lhe uma espécie de memorando, o Commentariolum petitionis, para ajuda-lo na campanha.

Para Rubens Barbosa, Presidente do Conselho de Comércio Exterior da Fiesp, que escreveu a apresentação do livro Como Ganhar uma Eleição, da editora Edipro, “os conselhos nele contidos podem surpreender pelo cinismo e pelo pragmatismo, mas mostram que os costumes e as práticas políticas não se modificaram substancialmente. Em mais de dois mil anos, nada ou quase nada parece ter mudado”.

Vale salientar que Cícero (Marcus Tullius Cicero) ganhou as eleições.  

Segundo Nick Owchar, que escreveu uma resenha sobre o livro no Los Angeles Times, “se estivesse vivo, hoje, não há dúvida de que Quintus estaria ganhando rios de dinheiro como consultor político (...). As palavras (...), que percorreram uma distância de mais de dois milênios até nós, são incisivas e reveladoras: elas nos fazem lembrar que, quando se trata dessa estranha coisa conhecida como política, a natureza humana não mudou muito desde então. O passado, como se vê, nem chegou a passar”.

Cinismo e pragmatismo à parte, vale uma reflexão sobre as palavras de Nick Owchar. O que aconteceu conosco para estarmos convivendo ainda com as mesmas práticas de nada menos que dois milênios atrás? Porque, até hoje, ainda nos defrontamos com os mesmos métodos, as mesmas artimanhas para vencer eleições? A tentação é colocar a culpa nos políticos, que não mudaram, saldo as exceções de práxis, durante todos esses milênios. Mas quem elege os políticos somos nós, que os coloca no poder somos nós. Será que, também como eles, nós os eleitores não mudamos praticamente nada e continuamos a eleger pessoas com base nesses mesmos mecanismos destinados unicamente a arrancar os nossos votos, acreditando em vagas promessas, nos deixando levar por tão pouco? Seria bom pensarmos um pouco sobre isso.

Aqui alguns dos “conselhos” pinçados aleatoriamente. Vale a leitura completa.

-       Três coisas garantem votos: favores, esperança e relações pessoais.

-       Faça promessas de todo tipo. As pessoas preferem uma mentira de conveniência a uma recusa direta. Prometa qualquer coisa a qualquer um.

-       Mas não faça promessas especificas. Fique em vagas generalidades.

-       O candidato deve ser um camaleão, adaptando-se a cada indivíduo  que encontra.

-   Diga aos Senadores que você vai manter os privilégios e os poderes que tradicionalmente tiveram; deixe a comunidade de negócios e os mais ricos saberem que você é favorável à estabilidade e à paz; assegure ao povo que você sempre esteve ao seu lado, tanto em seus discursos como na defesa dos seus interesses.

-   Para impressionar os eleitores dê atenção a cada um deles, sendo pessoal e generoso. Nada impressiona mais um eleitor do que o candidato não ter esquecido dele. Por isso, faça um esforço para se lembrar de seus nomes e rostos

-       Para ganhar eleitores indecisos, você pode fazer-lhes pequenos favores.

-     Uma campanha deve ser competente, digna, mas cheia de vida e de espetáculo, o que tanto atrai as massas.

-      O mais importante numa campanha é incentivar a esperança no povo e criar nele um sentimento de boa vontade com relação a você.

-     Mesmo nas eleições mais corruptas há muitos eleitores que apoiam os candidatos em que eles acreditam, sem receber em troca nenhum.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

O PAPA, O MEIO AMBENTE E A AMÉRICA LATINA


O Papa Francisco apresentou no último dia 18 a sua encíclica dedicada ao meio ambiente, apelando para a responsabilidade de todos na proteção do planeta, “que está sendo destruído”. É interessante observar, no momento em que a maior autoridade católica, pela primeira vez, se debruça sobre este tema, como se comportam as nações latino-americanas, entre elas, obviamente o Brasil, com relação ao meio-ambiente.

Na verdade, fala-se muito e faz-se pouco nessa região. Preferimos as palavras aos fatos.

As consequências do mal trato com o planeta já se fazem sentir, mas na América Latina ainda vigora a política equivocada de que precisamos primeiro de “desenvolvimento”. A proteção e o cuidado com o meio ambiente podem ficar muito bem para depois.

Assim o desmatamento da Amazônia continua, ainda que mais moderado, e tenta-se ideologizar o debate acusando os Estados Unidos, de fato uma das maiores poluidores do planeta, mas deixando de lado por conveniências ideológicas, muito mais que as econômicas, a China e a Índia, onde políticas populistas/desenvolvimentistas tem levado o meio ambiente ao extremo da degradação, como de resto já aconteceu na antiga União Soviética e continua acontecendo na Rússia atual.

O descaso com o clima está hoje mais claro que nunca: furacões, secas, ondas de calor, precipitações incontroláveis, desaparecimento de geleiras. Tudo indica que não existe desenvolvimento real quando se luta contra a natureza.

Muita ou pouca chuva vai afetar a produtividade do campo, pragas e doenças em pessoas e animais vão aumentar, a biodiversidade será afetada, a oferta de água potável vai diminuir – a guerra pela água, coisa de ficção, até recentemente, já é uma possibilidade real, considerada pela ONU. Populações inteiras, que vivem nas regiões costeiras estão ameaçadas e tudo isso terá um impacto extremamente negativo sobre a economia.

O desafio para a América Latina está em esquecer a ideologização do tema e tomar providências urgentes para salvar as suas riquezas, independentemente dos grandes poluidores do planeta. Isso não quer dizer que não devam pressionar Estados Unidos, China e Índia, pelo contrário, mas não podem ficar ignorando seus problemas, a espera de providências eficazes dessas nações.

A próxima Conferência Internacional sobre Mudança Climática será realizada em Paris, em dezembro, com o objetivo de parar o aquecimento em 2 graus Celsius, o que pode significar um avanço fundamental, mas se olharmos para a conferência que a antecedeu podemos ter, também, um fracasso total, patrocinado pelos mesmos protagonistas da degradação ambiental.

Seria muito bom que os esquerdistas e governos populistas da região, que tanto falam em desenvolvimento a favor dos pobres, refletissem, um pouco que fosse, sobre as palavras do Papa Francisco, que deixa claro, em sua encíclica, o que muitos parecem não querer acreditar: a destruição do meio ambiente prejudica a todos, mas muito especialmente os mais pobres.

É preciso, como ressalta o Papa, estimular um novo estilo de vida, com a busca de outras maneiras de entender a economia e o progresso, o valor de cada criatura, o sentido humano da ecologia, a grave responsabilidade da política e a abolição da cultura do descartável.

Queira Deus que as palavras do Papa tenham alguma ressonância em nossos governantes e dirigentes e que se faça alguma coisa antes que seja tarde demais.


quarta-feira, 3 de junho de 2015

COMO MATAR UMA GRANDE MARCA


Em artigo publicado no jornal baiano, A Tarde, no ultimo dia 29, o publicitário João Silva, criador de marcas famosas, escreve sobre os motivos pelos quais acredita que a marca PT está perdendo credibilidade. Vale conhecer a opinião de um especialista e o ponto de vista de um publicitário de renome sobre o assunto.


A marca PT, uma estrelinha vermelha com as duas pequenas letrinhas no meio em branco, levou décadas para ser construída, conhecida e se transformar em referência de simplicidade, justiça, luta popular, abrigo de jovens e intelectuais cheios de sonhos que desejavam um Brasil mais humano, mais justo, mais eficiente e menos careta. 

Era comum em um passado recente, encontrar em todos os cantos do pais pessoas ostentando suas estrelinhas, nas faculdades, praças, teatros e cinemas. Pessoas de todas as cores, independente de sexo, religião e de diferentes classes sociais orgulhosamente carregavam a estrela em suas camisetas, bonés e chaveiros como a marca que lhes representavam, motivo de orgulho e justiça social.

A marca do PT ficou tão forte que seus principais gestores após chegada ao poder, passaram a acreditar que a entrega de serviços básicos, obediência as leis, respeito ao contraditório, as instituições e cumprimento a regras básicas na sociedade, passaram a ser secundárias em todo o país.

Estar associado à estrela do PT era sinal de status, decência, honra, e tinha até uma certo charme; com frequência via-se parlamentares ostentando as suas estrelinhas vermelha na lapela, hoje eles a escondem com medo de serem hostilizados em público.

Toda marca forte precisa ser vista como um grande ativo, intangível, capital intelectual e ponto estratégico para qualquer instituição. Precisa ser cuidada para se manter sempre uma imagem positiva em torno de seu nome ou símbolo.

É fácil imaginar o que acontece quando uma marca desejada se afasta de seus princípios que nortearam a sua construção, seus valores e de sua missão e a passa a ser associada a fatos e práticas negativos exatamente o que antes combatia.

Obviamente essa marca irá perder credibilidade. E quando isso acontece, a decepção, a sensação de ter sido traído é tão grande e tão forte que para ressuscitá-la não adianta recorrer ao simples excesso de exposição, muito pelo contrario, cada vez que o consumidor se depara com a marca que o traiu, sem um pedido de desculpa, aumenta a sua rejeição. Exatamente por isso, após anos e anos de muitas pesquisas os americanos descobriram que a melhor forma de se reconciliar com o consumidor que decidiu se afastar era criar um canal para se retratar rapidamente. Fazer os ajustes e correção de rumo e manter a fidelização. Daí é que surgiram os sacs, recalls e o consumerismo como forma de reduzir o impacto que o desgaste entre a marca e o consumidor podem causar.

Na administração pública não é diferente. 

Quando uma instituição lida com recursos públicos, precisa valorizar a meritocracia e a competência, não pode simplesmente privilegiar os seus aliados independente de suas capacidades, investir os recursos dos cidadãos de forma inadequada e sem autorização. E achar que os erros e prejuízos são obra do acaso. Não basta que a pessoa, ou uma instituição se diga séria, capaz e honesta, ela precisa ser e, também parecer. É preciso dar o exemplo.

Imagine um novo sindico de um prédio que foi escolhido exatamente por defender redução de despesas, acabar com desperdício e logo em seguida faz exatamente o contrario do que propôs. Contrata uma série de amigos e parentes para prestar serviços que antes não eram prioridade e ainda não satisfeito, aumenta o valor do condomínio, obviamente que esse comportamento irá gerar rejeição, traumas e dificuldades na relação.

O mesmo ocorre com as marcas que se propõem a atender determinadas expectativas e não entrega o resultado.
Enquanto não se entender que serviço público significa atender as questões de interesse da sociedade, investir adequadamente os recursos, frutos dos impostos pagos pelos cidadãos, muitas marcas e instituições vão continuar se deteriorando e aumentando a sua rejeição junto a população.

João Silva – Publicitário, diretor da Maria Comunicação(joaosilva@uol.com)
(Reproduzido com autorização do autor)