sexta-feira, 20 de março de 2015

CHORO POR TI, POR MIM, ANGOLA QUERIDA.


Na década de 90 fui, com uma equipe de cento e poucas pessoas, trabalhar em Angola, onde fiquei, em intervalos, por dois anos. Recém saída, formalmente apenas, de mais de um período de guerra, o país preparava-se para as suas primeiras eleições democráticas.

Nunca havia estado em um país em guerra.  Ficamos todos chocados com o que víamos: mutilados por toda à parte, a escassez de tudo, a pobreza e principalmente com as crianças e jovens, pobres, famintos, sem perspectiva nenhuma de futuro senão a guerra.


Acreditávamos em nosso trabalho. A paz, finalmente alcançada, as eleições livres, a democracia, a liberdade, a oportunidade de usufruir das imensas riquezas do país. A possibilidade de um futuro, sem sofrimentos, próspero, feliz.


Jonas Savimbi
Acreditávamos estar do lado certo. Sob a liderança de um líder feroz e intransigente, Jonas Savimbi, o “outro lado” nos parecia, e era, a representação do mal, de tudo que de pior poderia acontecer. 

Víamos, no semblante e na voz suave do nosso candidato, o José Eduardo dos Santos, a verdadeira face da esperança e de dias melhores.
José Eduardo dos Santos
Choramos entristecidos, quando após a divulgação dos resultados das eleições, as tropas da Unita se rebelaram e o conflito voltou ao país, não poupando sequer a sua capital.
Derrotada, militarmente, mais tarde, a Unita decidiu aceitar o jogo democrático, participando inclusive de eleições posteriores. 

O problema é que o dos Santos, decidiu tornar-se presidente eterno de Angola, não desgruda do poder e preside hoje a pilhagem sistemática do país, negligenciado o seu povo.

Houve melhoras? Sim. Mas um país rico em diamantes, com petróleo farto, clima favorável, recebendo ajuda significativa de várias potencias mundiais, entre elas Brasil e China, que investiram maciçamente em Angola nos últimos anos não progrediu como deveria, não proporcionou ao seus cidadãos a riqueza, a tranquilidade, a paz que eles tanto merecem.

As mulheres angolanos, guerreiras, que praticamente sozinhas mantiveram o país de pé durante todos os longos anos de guerra, continuam vendo seus filhos morrerem, agora de fome, vítimas da desnutrição, como bem chamou a atenção, Nicholas Kristof, em artigo publicado no New York Times,  que chamou Angola de país mortífero para crianças. Crianças mortas pela fome, “desnutridas, com membros semelhantes a gravetos, cabelo descolorido e pele descascada”.


Enquanto isso, os ricos angolanos esbanjam riqueza, circulando em carros milionários, com propriedades espalhadas pela Europa, cujas fortunas foram, na maioria absoluta das vezes, conseguidas às custas de negócios onde o Estado sempre entra beneficiando-os. 



Isabel dos Santos
  Um dos melhores exemplos é a filha do presidente, a bela Isabel dos Santos, cuja fortuna multiplicou nada menos que sete vezes, de 2012 a 2014, saltando de 500 milhões para 3,7 bilhões de dólares. Isabel é sócio de tudo o que interessa em Angola e o Estado jamais se furtou de injetar recursos milionários nas empresas que a filha mais velha do presidente comanda ou é sócia.


   
Os angolanos são um povo maravilhoso, otimista, não importa o sofrimento, com uma crença impressionante num futuro melhor que sempre lhes é negado. Primeiro pelo colonialismo português, depois pelo envolvimento na guerra fria, que dividiu o país, aparentemente em duas tribos, basicamente, mas que por trás delas estavam o bloco soviético e o ocidente, financiando, estimulando uma guerra que tantas vidas custou àquela gente.

A guerra acabou, mas não para as crianças angolanas.
O país ocupa o primeiro lugar na taxa de mortalidade de crianças até os 5 anos, uma em cada seis morre antes de completar essa idade. 25% delas definham vítimas da desnutrição generalizada. É fácil encontrar crianças de 7 anos que pesam apenas 16 quilos, enquanto suas mães morrem de parto, na proporção de uma a cada 35 mulheres.

Jose Eduardo dos Santos matou as minhas esperanças, as minhas ilusões. Mas elas nada significam diante do descaso com que trata o seu povo. Dos Santos tem hoje 72 anos, talvez não dure mais, muito tempo no Governo. Oxalá esse povo sofrido consiga colocar em seu lugar alguém que faça pelo país,  pelas crianças, pelas mulheres, pelos homens de verdade de Angola. E aí, quem sabem, as mães angolanas, finalmente, não chorarão mais pelos seus filhos.